Textos e fotos de Jorge Lima Alves

Sábado, 7 de Fevereiro de 2009

Caderno mexicano

27 de Outubro de 2008

Oaxaca, Puebla, Querétaro, San Miguel de Allende, Guanajuato... só o enunciado dos nomes já faz sonhar. A minha viagem ao México começou há já muitos anos, quando comecei a ler Octavio Paz e a ouvir «rancheras». Chavela Vargas e, mais tarde, Lila Downs, reforçaram o meu desejo de um dia atravessar o Atlântico para ir ouvir ao vivo os mariachis.

Terça, 28

Recebi ontem pelo correio o meu código de utilizador do BarclaysNet: kafka007. Kafka? 007? Eu não teria escolhido melhor!

Em Madrid, onde chegámos por volta da meia-noite, não pudemos embarcar para o México como previsto. Como o voo estava «overbooked», deram-nos uma indemnização de 600 euros a cada um (mais do que o salário mínimo em Portugal!) e mandaram-nos dormir para um hotel de quatro estrelas com a promessa de que chegaremos ao nosso destino com 12 horas de atraso. A viagem não podia ter começado melhor.

Não pude deixar de reparar: o avião que não apanhámos para o México chamava-se Maria Zambrano. Kafka, James Bond e Maria Zambrano, tudo no mesmo dia. Há ironias que convém sublinhar.

Numa entrevista que li no avião, um escritor chamado Christian Salmon afirma a dado passo: «Toda a gente na mediasfera é escritor e leitor ao mesmo tempo». Explica ele: «É como se fossemos todos jogadores de póquer à volta de uma mesa e como se cada jogador em vez de cartas tivesse histórias para contar». Na sua opinião, «o jogo consiste em conseguir que a tua história seja dominante». Está a falar, essencialmente, dos políticos e dos meios de comunicação e dá como exemplos os actuais candidatos à presidência dos EUA: Obama e McCain. «Mccain lançou Sarah Palin, que é uma história e uma personagem – sexy, puritana, conservadora e empreendedora», escreve ele. Os jornais atiraram-se a ela porque precisam de histórias novas todos os dias, mas logo surgem outras histórias mais atraentes para os leitores. «Por isso», diz Salmon, «os políticos hoje são mais surfistas do que emissores de informação». «Obama é o surfista perfeito», assegura o escritor.
Tudo se tornou simulacro, portanto. Não há maneira de distinguir entre a realidade e a ficção, entre a verdade e a mentira. Por isso, é importante fazer «contra-narração». Informar de verdade, desmascarar as ficções, procurar a verdade através da argumentação, da análise e da explicação. «É preciso reconstruir espaços contaminados, onde a realidade possa aparecer de novo e onde haja experiência real porque não se pode apreender a realidade, mas pode-se apreender a experiência do real», conclui Salmon.

O voo de Madrid para a cidade do México dura 12 horas! Acabo de o saber. Para passar o tempo, mergulho na (re)leitura das «Mensagens Revolucionárias» de Antonin Artaud que, como ele próprio afirma, foi ao México para fugir da civilização europeia. A sua inocência comove-me. «A ignorância, esclarecida e consciente, é o cimento da verdade», diz Artaud a dado passo. A sua ideia do México é completamente idílica. Idealizada. A certa altura, afirma com convicção: «O actual Tibete e o México são os nós da cultura do mundo». E eu, que México vou procurar? Nenhum na verdade, não vou com nenhuma ideia preconceida como o Artaud. Seria mais acertado perguntar: que México vou encontrar?

Quarta-feira

No aeroporto em Lisboa comprei antes de embarcar um livro do David Lynch para ler no avião: «Em Busca do Grande Peixe». Sub-intitulado «Meditação, consciência e criatividade», o livro promete dar a conhecer a relação do cinesta com o mundo. Dá vontade de rir a afirmação. Na verdade, ao longo da obra, Lynch divaga sobre os benefícios daquilo a que chama «meditação transcendental», que ele acha ser uma ferramenta inigualável para desenvolver a criatividade.
No fundo, é o livro de um religioso que acha ter encontrado uma solução para o mundo. Segundo ele, a meditação leva à felicidade e à paz e devia ser ensinada às crianças. Em lado nenhum, no entanto, explica como se chega à transcendência. Suponho que é necessário ser iniciado, pagar a alguém que nos indique o caminho. Se não fosse um negócio é que eu me admirava.
Gosto da maioria dos filmes de David Lynch, cheios de mistérios e de personagens fortes que apelam à imaginação. Mas cada vez mais me parece haver uma parte de charlatanice naquilo que diz e faz (estou sobretudo a pensar no último filme dele, «Inland Empire»). Este livro só veio confirmar essa ideia, embora seja admirável a sua persistência em levar avante as suas ideias e a sua capacidade para envolver os outros numa criação tão pessoal.
A certa altura do livro, Lynch escreve: «Adoro entrar noutro mundo e adoro mistérios. Gosto da sensação de descoberta». Em termos muito simples, ele explica involuntariamente porque gosto tanto de viajar, sobretudo para países completamente diferentes do meu.
No México vou entrar noutro mundo, enfrentar muitos mistérios. Todos os dias haverá coisas novas para descobrir. Viajar , pelo menos para mim, é como entrar num filme realizado por um desconhecido onde se é ao mesmo tempo actor e espectador. É participar numa história sem ter a mínima ideia de como se vai desenrolar.

Mais tarde

Demasiado cansado para escrever, não quero esquecer os vendedores de CD no Metro (música aos berros com um altifalante às costas e o pregão: «10 pesos! 10 pesos!»).
Demasiado carregado para poder fazê-lo, fiquei com pena de não poder fotografar (ou filmar) o cais do Metro literalmente a abarrotar de gente, com polícias de dez em dez metros em cima de uns pedestais a vigiar o pessoal.

O nosso Hotel, bem decadente, chama-se Isabel e fica não muito longe do Zócalo. O quarto tem quatro camas de casal e é enorme, tipo camarata. Também a casa de banho não precisava de ser tão grande.

A nossa primeira refeição foi no Los Girasoles, um restaurante chique muito típico com empregados solícitos e eficientes. Caro, mas bom.

Quinta, 30

Desayuno no Café El Popular. Tão cedo não vamos esquecer aquele café com leite delicioso.




No Zócalo – que o Guide du Routard diz ser a segunda maior praça do mundo, a seguir à Praça Vermelha de Moscovo – está uma gigantesca exposição de altares aos mortos. Primeiras fotos sôfregas.

A poluição cobre os prédios de fuligem, torna-os escuros e acentua-lhes a idade.

No «La Jornada» (que tenho comprado todos os dias) leio: «Em 14 anos gastaram-se 200 mil milhões de dólares para combater a pobreza, que entretanto aumentou 38,8 por cento».

Mais tarde

A viagem para Oaxaca dura seis horas. Pelo caminho, montanhas espectaculares. Algumas literalmente cobertas de cactos. «É preciso pensar como uma montanha», dizia um senhor chamado Aldo Leopold. Mas estas montanhas também me trazem à memória uma afirmação de Artaud segundo a qual (cito de memória), «o México é o único sítio do mundo onde a vida oculta está à superfície, na paisagem».

Uma fotografia que não consegui tirar: homens a vender cachorrinhos na estrada, à entrada de uma portagem.

Em Oaxaca o ambiente é de festa total. Música, bailes, foguetes. As ruas estão apinhadas de gente, há altares por todo o lado e os pregões dos vendedores mistura-se com a música que se ouve por todo o lado.

Na catedral, um concerto belíssimo com orquestra e coro. Pareceu-me ser a «Missa Solene» de Beethoven.

No nosso hotel (Casa Arnel), só vejo americanos. Muitas mulheres sós. Quase toda a gente tem para cima de 50 anos.
Os americanos são muito teatrais no modo como falam uns com os outros. Frases enfáticas, sorrisos demasiado rasgados, grandes gestos. Riem alto como quem diz: «Somos os senhores do mundo». E, com efeito, os mexicanos mostram-se muito subservientes com eles, sempre à espera de uma «propina».
Connosco, que somos mais escuros e discretos, os mexicanos mostram-se mais genuinamente simpáticos.
Simpáticos mas incompetentes. Ontem à noite não acertavam com a chave do nosso quarto. Tivemos que fazer o vai-vem várias vezes, entre a portaria e o quarto, antes que acertassem com a chave. O chaveiro é uma placa de madeira vermelha com o némro 5A escrito à mão com tinta amarela.

Dia 31 de Outubro

Há exactamente 15 anos (31 de Outubro de 1993) morreram no mesmo dia o actor River Phoenix e Fellini. Agora, Hollywood ameaça fazer um musical inspirado em «8 1/2». Segundo a revista onde leio tudo isto, o filme chamar-se-á «Nine» e será protagonizado por António Banderas. Teme-se o pior!



Monte Alban, que vistámos logo pela manhã, é um lugar mágico, embora mágico não seja a palavra certa (sei lá qual é a palavra certa!). Chega-se lá acima (cerca 2 mil metros de altitude) e cai-se numa espécie de encantamento. Não é preciso conhecer a história do local (diz-se que data de 500 antes de Cristo), nem o significado daquelas pedras. Basta olhar em volta, ver o vale e as montanhas em fundo. Êxatse garantido. Os sacedortes sempre souberam escolher os locais de culto.
Vêm à memória os versos de Juan Luis Panero, no seu poema Sombras ao anoitecer:

«Luz do tempo e pedra da morte, em Monte Albán,
num surdo cenário de escadas vazias,
túmulos e palácios, derrotados deuses,
esquecidos crentes, ensopado sangue, pó de séculos.
Naquele cemitério de deuses e homens,
onde o ritmo do sol, as voltas do planeta
repetem a sua incasável tarefa indiferente».

A um mexicano daqueles muito típicos, a quem só faltava o sombrero (que pelos vistos caiu completamente em desuso), comprei no cimo de uma pirâmide, umas estatuetas em pedra. Três réplicas em miniatura de deuses antigos. O homem tinha um bigode à Zapata e um sorriso bonito. Arrancou-me 200 pesos e fizemo-nos rir um ao outro.

Viajar é coleccionar histórias.
Histórias, recordações, fotografias: é tudo a mesma coisa. Coleccionamos momentos que não conseguiremos guardar por muito tempo.

Ida e volta para Monte Alban custou 30 pesos. Dois euros. Barato. Aqui quase tudo é barato, de resto. A começar pela vida humana.
A pobreza está por todo o lado, mas faz mais impressão nos velhos e nas crianças. Alguns andam na rua a vender quase nada: amendoins, rebuçados, colares... qualquer coisa serve para disfarçar a miséria. Só que não disfarça nada, é claro.
A vida dura não lhes estragou os sorrisos. Quando riem, irradiam um encanto que nós europeus já perdemos há muito.

Depois de Monte Alban, comemos no mercado «comida corrida»: canja (com arroz, batata, pera abacate) e mole negro com feijão e arroz, acompanhados por sangria. Tudo por meia-dúzia de tostões.



Na rua, a morte está por todo o lado. A paródia da morte. Um verdadeiro carnaval e uma orgia de criatividade.
Os mexicanos acreditam que nestes dias os seus mortos os vêm visitar e oferecem-lhes fruta, pão, flores. Em particular caveiras em açucar e o tradicional «pan de los muertos».
Nas ruas, cruzo crianças recém-nascidas são transvestidas de esqueleto e diabinhos dos dois sexos, para além de ruivas bem macabras. Os travestis aproveitam para se expor à luz do dia. A festa reveste todas as formas possíveis, cada um a vive à sua maneira.

Rodeado de tantos fotógrafos, encolho-me. A minha máquina nunca foi tão pequenina. E inútil.
Seria necessário filmar tudo, mas como isso não é possível, duas ou três fotos têm que bastar.

Dia 1 de Novembro de 2008

Na zona pobre da cidade, um cartaz prometia consultas médicas por 20 pesos (um euro e pouco). Consultas a um euro? Custa a acreditar.

Cotos em vez de pés e uma montanha às costas.
Todo o dia carreguei com uma montanha às costas. Mesmo assim visitei o Convento de São Domingo com a sua igreja fabulosa e o seu museu interessantíssimo. Na livraria do Museu comprei dois livros: Roberto Bolaño e Juan Rulfo. Do primeiro, escritos para cinema («El Gallo de Oro». Do segundo, alguns contos (El Gaucho Insufrible».
Comprei também um diabo disfarçado de freira.

À noite, na Biblioteca central assistimos a uma Comparsa e tivemos que dançar com os actores. Valeu a pena esperar.

Dia 2

Festa rija toda a noite, mesmo aqui ao lado. Impossível dormir.

O patrono, ou melhor, a patrona de Oaxaca é «A Solidão», a última etapa de Maria, a virgem de luto, mãe de Cristo morto. O emblema da autarquia é a cabeça de uma princesa degolada: Donagí, símbolo da união entre mixtecos e zapotecos. E o hino dos oaxaquenhos é um canto fúnebre intitulado «Deus Nunca Morre».

Em Puebla, por seu turno, o lema parece ser: «A Morte É Um Sonho». A frase está inscrita por todo o lado neste último dia dedicado à morte e serviu de mote para uma bem interessante projecção de slides na fachada da catedral que vimos mesmo antes de ir para a cama.

Muito diferente de Oaxaca, Puebla não é só maior como, aparentemente, mais rica, até arquitectonicamente. Adoro os prédios revestidos a azulejo, jogando geometricamente no contraste com o tijolo.

No autocarro para cá, um segurança entrou e filmou todos os passageiros antes da partida. A meio da auto-estrada fomos parados por uma patrulha de militares que nos faz sair da camioneta para revistar toda a nossa bagagem. Os militares estavam armados com grandes metrelhadoras. Foi bastante assustador.



No México, há quem adore a «Santa Muerte», como se fosse uma entidade divina. No jornal que estou a ler, um professor de antropologia lembra a esse propósito que a tradição mexicana implica celebrar os mortos e não a morte. O mesmo professor afirma que a guerra dos «carteles» já provocou este ano mais de 3.800 mortes. E remata dizendo: «No México, rimos da morte mas na realidade é por medo».

O culto da morte existe no México há mais de três mil anos, lembram os que a adoram. Uns chamam-lhe «La Flaca», outros «La Comadre», «La Bonita», «La Señora» ou «La Niña». Mas também «Aurora», «Niña Branca» ou «Dama de Negro».

No autocarro vim a ler «El Gaucho Insufrible». Um livro curioso. A novela que dá o título ao livro é muito curiosa, mas mais para a frente há outra história ainda mais espantosa: «El Policía de Las ratas». O livro inclui ainda uma espécie de ensaio sobre literatura e doença onde a páginas tantas se diz: «Mas tudo chega. Chegam os filhos. Chegam os livros. Chega a doença. Chega o fim da viagem». Bolaño já estava doente e veio a falecer em 2003.

Dia 3

Impressionante o Museu Amparo, com uma colecção de peças históricas e antropológicas de valor incalculavel. Por ser segunda-feira a entrada era à borla, mas tivemos que pagar 50 pesos para poder fotografar.
Para além do acervo do Museu, vimos uma exposição temporária de uma tal Betsabée Romero intitulada «Lágrimas Negras». Inspirada por carros, a exposição põe em evidência, com muito humor, «a tensão entre velocidade, movimento e trajectória, mas também entre tecnologia e auto-destruição».

Passeando pelas ruas, lembrei-me do preceito de Sun Tzu: «Quando perto, finge-te longe; quando longe, finge-te perto».

Numa montra, o seguinte letreiro: «Se busca chica activa». Que delícia!

Dia 4

Estamos em Queretaro no dia das eleições nos EUA. Diz o meu guia que a cidade tem 3 mil edíficios históricos. Meus ricos pés!

Um avião caiu em plena cidade do México matando os seus 9 ocupantes. Vinha de San Luís Potosi e trazia políticos a bordo.

Dia 5

O Obama ganhou. Na capa do «La Jornada» pode ler-se «El cambio há llegado a EU – Aplasta Obama». Outro título diz: «Se desploma la aeronave que le conducia de SLP al DF – Muere Mouriño». Na nave seguia o braço direito do presidente do México, além de outras pessoas, incluindo dois pilotos e uma hospedeira. Ainda não se sabe se foi acidente ou atentado.

Finalmente, encontrei o México que procurava, mesmo no coração do país (como reivindica a autarquia local). San Miguel de Allende não é apenas a cidade mais bonita que vimos até agora nesta viagem, é também uma das mais encantadoras que jamais conheci. No centro de tudo está uma catedral muito original e um Zócalo que é um verdadeiro jardim. Daqui partem, em todas as direcções, ruas que apetece percorrer de tão bonitas que são as casas com as suas cores fortes, contrastantes. Há quem se queixe da quantidade de estrangeiros que aqui vêm parar. Muitos já compraram casa aqui e vivem aqui ou voltam todos os anos. Graças a eles, a cidade prospera e está bem arranjada, cheia de boutiques coloridas e galerias de arte. Há mesmo vários hoteis com cinco estrelas, restaurantes finérrimos e bares que não ficam atrás dos de Londres ou Paris. Mas o México pobre não está longe e nas imediações da catedral há uma pequena multidão de velhotes a pedir esmola.

Ao almoço, no El Tomato (talvez o melhor restaurante vegetariano em que comi na vida), um casal meteu conversa connsoco. São canadianos (de Halifax) e há 13 anos que vêm para San Miguel. Há três anos compraram uma casa, que ainda estão a recuperar e decorar, e estão a pensar vir viver para cá quando se reformarem.



Como dizia alguém: «em viagem prestamos ao mundo a atenção que ele merece».

Nota à margem: O que eu queria mesmo era que esta luz do México, estas cores e estes cheiros impregnassem este caderno, para os poder reviver de regresso a Lisboa.

Ao jantar, menudo (tripas), guacamole e Sol, uma cerveja com uma garrafa muito bonita que dava vontade de trazer para casa. A Raquel comeu enchiladas.

Dia 6

Segundo e último dia em San Miguel de Allende, uma cidade pela qual nos apaixonámos.

Dia 7

De San Miguel de Allende para Guanajuato na Flecha Amarilla, uma companhia de autocarros que ainda não tínhamos experimentado. Connosco viajou um jovem coreano. Chama-se Junghee Lee (apodrpooh@gmail.com) e é estudante de Química. Já cumpriu o serviço militar obrigatório (2 anos na Coreia do Sul) e vai percorrer uma boa parte do México. Não fala espanhol, quase não fala inglês, mas socorre-se de um tradutor electrónico de bolso. Dorme sempre na pensão mais barata que indica o Lonely Planet e raramente fica mais de um dia ou dois num sítio.
Acabámos por o convidar para jantar e foi muito divertido tentar-lhe expolicar o que é o fado ou a importância de Fátima para os católicos.

Em Guanajuato, cujo centro histórico é património da Unesco, visitámos o Museu Diego Rivera e vimos, na Universidade, uma exposição muito interessante de Augusti Centelles, um fotógrafo que cobriu a Guerra Civil de Espanha. Já quase caído no esquecimento, o espanhol Augusti Centelles (1909-1985) foi um dos mais interessantes fotógrafos do seu tempo. As suas imagens da guerra civil de Espanha são comparáveis às de Robert Capa. Centelles foi um dos primeiros a utilizar a Leica nos anos 30 para realizar reportagens para os jornais de Barcelona, em particular para o «La Vanguardia». Logo que estalou o golpe de Estado de 18 de Julho de 1936, ele documentou os combates levados a cabo pelo povo contra o exército nas ruas de Barcelona. E foi assim que tirou a única fotografia conhecida de George Orwell no meio dos militantes do POUM (Partido operário de unificação marxista).
Em 1939, depois de ter estado em quase todas as frentes de combate, Augusti Centelles foge para França levando com ele a sua preciosa Leica e milhares de negativos. Voltou a Espanha em 1944, mas só recuperou os seus negativos (que deixara em França) em 1976, depois da morte de Franco.


A cidade é muito fotogénica com as suas colinas repletas de casas coloridas. Parecem peças de lego ao longe. As ruas são frequentemente íngremes e labirínticas, mas não faltam com em todas as cidades mexicanas, igrejas bonitas, praças aparzíveis e atraentes lojas de artesanato.

O nosso hotel (Casa de Pita) é mesmo por detrás do Teatro Principal. Não é bem um hotel, de resto, mas uma casa de hóspedes. O centro da casa é a sala de jantar onde os hóspedes se reúnem todas as manhãs, às nove em ponto, para tomar o pequeno-almoço em conjunto. O nosso quarto é muito castiço, com uma casa de banho minúscula e amplas janelas.

Li no «Correo» (jornal local) que um polícia ganha em média 6 mil pesos por mês (cerca de 400 euros). No mesmo jornal conta-se a história do comandante Alejandro Parada Perez, assassinado ontem à porta de casa. O seu pai, também polícia, também foi assassinado quando ele tinha 13 anos. Segundo o jornal, o homem que o matou nunca foi detido ou sequer identificado.

Dia 8

Dona (Lu)Pita já esteve em Portugal. (Lisboa, Porto...) Diz que gostou muito. Na sala há fotos dela quando era nova, com grandes penteados. Numa das fotos está vestida de noiva. Era bem bonita.
A irmã, que vive em Monterey, nos Estados Unidos, está viúva há quatro anos e ainda lhe vêm as lágrimas aos olhos quando fala nisso. Vem todos os anos passar férias a Guanajuato, mas amanhã volta para sua casa.

A Joana faz hoje 28 anos.

Acordei angustiado porque se aproxima a passos largos a data de regressar a Portugal. Detesto regressar. Por mim continuaria a viajar pelo mundo até morrer.

Por falar em morrer, visitei relutantemenmte o Museu das Múmias, um must da cidade. Depois subimos no funicular até Pipila para ter a cidade aos pés. Magníficas as cores. As casas salpicam de cor as colinas e dão à cidade um encanto único.

Dia 9

Na camioneta para a cidade do México encontrámos outra vez o casal australiano que viaja com três filhos pequenos, sendo que o mais velho tem uns sete anos no máximo. Carregados com enormes mochilas e um bébé de colo forçam a admiração de qualquer um.

Fomos parar ao Hotel Havana. Um achado. 200 pesos por noite (12 euros) por um quarto enorme, como cama king size, casa de banho priovativa e TV cabo.

À saída do metro, estava no passeio uma mancha de sangue e umas luvas de paramédico abandonadas. Mais adiante, uma rua estava fechada pela polícia.

No Zócalo, às 6 da tarde, centenas de vendedores e famílias inteiras a passear. Na praça, oradores como em Hyde Park. Discursos políticos e religiosos.

Em homenagem ao meu irmão Carlos, que faria hoje anos, assisti à missa na catedral. O «Guide du Routard», que tão útil se tem revelado, dizia que teria mariachis, mas eles não compareceram.

Jantar na espectacular Casa de los Azulejos, um edifício do século XVI do qual se conta que foi o primeiro local onde Pancho Villa foi com a sua tropa quando tomou a cidade. No primeiro andar há um fresco de Orozco.

Dia 10

Vivem aqui, na cidade do México, mais de 20 milhões de pessoas. Talvez mesmo já 30 milhões. Há quem chame à cidade «El Monstruo».
Carlos Fuentes descreve o Distrito Federal dizendo que tem «o corpo de David com a cabeça de Golias».

Um terço da população do país vive nas entranhas do monstro, alimentando-o e alimentando-se dele.



A cidade, a que chamam DF, apaixonou Maiakovski, Breton, Artaud. Quem aqui reside tem orgulho de viver na «maior cidade do mundo» e gosta de lembrar que a Avenida Insurgentes tem 40 quilómetros de extensão.

Buñuel morreu aqui, no dia 29 de Julho de 1983.

Pés de chumbo. Pés em brasa. Andámos quilómetros a pé. Lembrei-me de Werner Herzog que dizia: «Tourism is sin, and travel on foot virtue».

Há polícia em todo o lado, com as suas pistolas à cowboy. Chega a assustar a ostentação de tantas armas.

Quando viajo, deixei de ter pressa. E de querer ver tudo. O que me interessa agora é sentir tudo muito bem.

Museo Nacional de Antropologia, Castelo de Chapultepec, Coyoacán, com visita à famosa casa azul de Frida Kahlo, claro.
Coyoacán, no sul da cidade, é considerado o bairro dos coyotes. A casa de Frida Hahlo está cercada por paredes de um azul eléctrico, que escondem um belo jardim. Foi nesta casa que ela nasceu, sofreu e morreu. Trotski, Rockefeller, André Breton e Gisèle Freund passaram por aqui. Hoje é um verdadeiro «santuário», visitado por gente proveniente do mundo inteiro.

A casa está cheia de tralha : brinquedos, estatuetas, desenhos, livros, roupas; os objectos estão por todo o lado e ajudam a evocar a atribulada vida que Frida levou. Quando saímos lembrei-me da última frase que ela escreveu no seu diário: «espero que a saída seja feliz e ninca mais cá voltar».



Terça, 11

Pensar é uma forma de sentir, sentir é uma forma de pensar.

A diferença entre olhar e ver? Olhamos com os olhos, vemos com o coração.

As pirâmides de Teotihuacán ficarão para outra altura as minhas pernas já não aguentam mais. Uma dor ciática quase me impede de andar.

Dia 12

Últimas compras. Mercado de artesanias, loja Fonart. Depois, passeio por Polanco, um dos bairros chiques onde descobrimos um restaurante português, que era o mais concorrido das redondezas.

Dia 13

A depressão do regresso.

No avião de regresso, Roberto Bolaño ajuda-me a suportar a viagem. Leio «Entre Parentisis» com a tristeza de o saber morto. A admiração que ele tem por Kafka é igual à minha. Partilhamos também o mesmo amor pelo poeta chileno Nicanor Parra. Temos, aliás, outras coisas em comum: ambos fomos exilados e ele jogava sempre com o número 11 na camisola (embora ele futebol e eu basket).
Diz ele e é verdade, que a literatura é um exílio. Sem verdadeiras raízes, sem uma terra onde deseje regressar, estou em Portugal como estou no Expresso: apenas porque tenho que estar em algum lugar.

Sobre Swift, Bolaño escreve: «para ele “exílio” era o nome secreto de viagem». Mais adiante interroga-se: «Não seremos todos exilados? Não estaremos todos vagando por terras estranhas?». Ele tem razão: literatura e exílio são duas faces de uma mesma moeda.

Durante uma viagem, os livros que se lêem constituem uma verdadeira «viagem paralela».

«Toda a gente quer viver muitos anos, mas ninguém quer ser velho», afirmava Swift.

Sobre a cidade do México, Bolaño diz que já se assemelhou ao paraíso, mas que hoje em dia mais parece o inferno.

Durante a viagem, distribuí canetas e roupas velhas. E trouxe, como sempre, bastantes bonecos e máscaras. A mais bonita das máscaras representa o diabo com cornos (que muito intrigaram os aduaneiros no aeroporto) e uma língua de fora, comprida, retrocida que, infelizmente, se partiu dentro da mochila. Outras máscaras representam animais: uma ave, um porco, um lobo. Todas têm aquele aspecto naif e frágil de que eu tanto gosto, talvez porque eu próprio sou assim: naif e frágil.

Adorei todos os museus e exposições que vi no México. Vi manifestações de criatividade verdadeiramente fabulosas. Lembro-me de ter pensado: É a ideia da morte, da nossa própria morte, que nos torna tão maus e criativos?

Quando se viaja de Oeste para Este o tempo passa mais depressa. A noite cai como uma cortina num palco. Almoçamos e já está escuro. É uma sensação estranha, já estou a antecipar o jet-lag.

, Quinta, 14

Regressar mata a viagem. Abre a porta ao esquecimento. Ao nada. Vem-me à memória uma frase do Gilles Lapouge que não esquecerei mais: «Não vou para um país para o conhecer mas para o ignorar um pouco melhor, não vou para o encontrar mas para o perder e me perder também».
Já agora, citemos também Nicolas Bouvier: «Uma viagem não precisa de justificações. Depressa provará que se basta a si mesma. Julgamos fazer uma viagem, mas rapidamente é a viagem que nos faz, ou desfaz».

Viajar é uma ode ao carácter imprevisível da existência e à beleza do desconhecido. Quanto mais viajamos menos nacionalistas somos. Na nossa busca do local perfeito, o sonho por vezes engole-nos. Para mais tarde nos cuspir ou nos vomitar. Sinto-me sempre um naufrago de cada vez que chego ao aeroporto da Portela.

15 de Novembro

Estou danadinho para ficar desempregado. Para poder, por fim, começar a trabalhar.