Cadernos de Viagem

Textos e fotos de Jorge Lima Alves

sexta-feira, 7 de Agosto de 2009

Caderno canadiano

1º dia (18 de Junho, quinta-feira)

Chegou o dia e já estou no avião. A minha alma parece mais pura que ontem, talvez por estar aberta à aventura. Com a Raquel passa-se provavelmente o mesmo: estamos ambos a fazer uma das coisas que mais gostamos na vida: viajar. Na verdade, estávamos à espera deste momento, desde que viemos do México.
Por mim, diria que cada viagem que faço dá início, por assim dizer, a uma nova etapa na minha vida.
Segundo Thoreau, um rei chinês tinha escrito na sua banheira: «Renovai-vos completamente em cada dia». Em verdade vos digo: é mais fácil fazê-lo quando estamos longe de casa.
Em «Walden», um livro de que tanto gosto, Thoreau lembra ainda, e muito bem, que «o trajecto está preparado para nós, quer viajemos depressa ou devagar». Se alguma coisa aprendi com todas as viagens que fiz é que, com efeito, não vale a pena querer ver tudo, ou ir a todo o lado. Andemos depressa ou devagar, cada viagem traz sempre, de qualquer modo, o seu quinhão de descobertas, desilusões, maravilhas, fotografias e recordações. O viajante não deve ter mais olhos do que barriga, pois por cada coisa que perdemos, ganhamos outra. Tudo está em tudo e o essencial está por toda a parte. A toda a hora.
De mãos vazias o digo.

No momento de embarcar para o avião, na Portela, ocorreu-me uma frase de Peter Handke que li recentemente («À Ma Fenêtre Le Matin»): «Mon être-lá est de plus en plus un être lá-bas: je suis emporté vers le lieu où je ne suis pas»).

Mais tarde

Por muito que goste de viajar e de aviões, estar sentado tantas horas num espaço tão exíguo é uma tortura. O meu rabo fala por mim. E as costas confirmam-no.
A meu lado, a Raquel tem frio. Em contrapartida, estou cheio de calor. Só tenho uma t-shirt vestida e estou a transpirar. Muito perto de nós, uma rapariga tem o blusão vestido e está toda encolhida, enquanto o seu namorado está de t-shirt como eu. A cada um a sua temperatura?
Antes do almoço, vi um documentário sobre a «Route 66» (um velho projecto nosso). A reportagem consistia essencialmente numa colecção de entrevistas realizadas ao longo da estrada, penso que por dois franceses. No minúsculo ecrã do avião, desfilaram donos de cafés, lojistas, almas solitárias. Gente de idade avançada na sua maior parte, com histórias dos bons velhos tempos para contar.
Pelo que percebi, a Route 66 já quase não existe. É mais uma lenda que se desfaz.
Há troços da estrada que já não são transitáveis e a sensação de decadência está por todo o lado. O filme deixa a ideia de que a América profunda é uma América esquecida. Envelhecida. Meio abandonada. Já a paisagem ainda é grandiosa. Sobreviverá sem dúvida aos homens que tanto mal lhe têm feito. Tudo indica, porém, que ela própria desaparecerá um dia. É o preço da eternidade.
Numa conversa com o Daniel, ontem à noite, enquanto comíamos uns caracóis numa esplanada de Campolide, a certa altura tive que lhe dizer: «Envelhecer é ir perdendo as certezas. Aos 20 anos sabemos tudo, aos 30 surgem as primeiras dúvidas e aos 60 já não temos a certeza de nada».
Mal tive tempo de acabar a conversa. Tivemos que ir a correr para casa, porque ia passar na televisão a reportagem da Ana Romeu sobre o «Testamento Vital».

Em Amesterdão, como combinado, a Joana veio ter connosco ao aeroporto. Trouxe o Samuel que vi assim, pela primeira vez, andar pelo seu pé. Ele não me reconheceu e tive alguma dificuldade em fazer-me aceitar. Está muito giro, mas muito irrequieto. O tempo passou a correr, outro avião esperava por nós.

Muitas horas depois

Em Vancouver, deparámos com um quarto horrível, num hotel a sul do centro, não muito longe da Ilha Granville. Feio e claustrofóbico, o tegúrio tinha um sofá-cama verde mal parido, com duas partes separadas por uma cova incómoda. Ainda por cima, uma das «metades» da cama era mais estreita do que a outra.
Apesar de exíguo, o quarto incluía num canto uma espécie de cozinha ridícula, também ela mal concebida, com armários até ao tecto e um frigorífico barulhento. Enfim, um verdadeiro pesadelo, até no preço. O mínimo que se pode dizer é que a relação qualidade-preço era péssima.
(A família Maio teve mais sorte. Teve direito a uma cama verdadeira.)
Antes de jantar, fomos dar um passeio pelas redondezas. Acabámos por comer numa espécie de rodízio de carnes grelhadas, numa atmosfera de saloon para cowboys, frequentada sobretudo por asiáticos. Há, de resto, asiáticos por todo o lado. No autocarro que apanhámos para o hotel, quase toda a gente tinha os olhos em bico.
Já tinha lido algures que hoje em dia a maioria dos emigrantes do Canadá vêm da Ásia. Não levei muito tempo a perceber de que assim é de facto.

Sexta, 19. Vancouver


Apesar dos chuviscos frequentes, passámos o dia a deambular «downtown», depois de uma passagem pela estação de comboios para comprar os bilhetes para Toronto, já que os nossos guias aconselhavam a fazê-lo com antecedência. Comprados alguns dias antes, os bilhetes ficam mais baratos.

Do que vi da cidade até agora, gostei especialmente de Yaletown e da Grandville na zona dos teatros (parte da rua está em obras, o que acentuava o seu carácter cinematográfico). Um dos cartazes que vi anunciava a vinda próxima de Neko Case, uma cantora americana de que gosto muito. Mais um concerto a que não vou poder assistir, com grande pena minha. Resta-me uma consolação: trago por acaso no ipod o seu último álbum (intitulado «Middle Cyclone»). Ainda não o ouvi, mas não perde pela demora.

Almoçámos num bistrot e jantámos sushi.
O filho do Luís Maio é doido por sushi, especialmente de salmão. Parece ser a sua comida preferida.

Sábado, 20. Vancouver

Antes de virmos, vi um programa na televisão onde se assegurava que Vancouver é, de todas as cidades do mundo, aquela que tem o melhor nível de vida. Passeando pelas ruas do centro, não custa nada acreditar em tal afirmação. Muito cosmopolita, a cidade propõe uma arquitectura globalmente simpática, onde coexistem harmoniosamente arranha-céus modernos e vivendas de madeira. Não se sente stress aqui.
Ao contrário do que sucede em Lisboa, os jornais locais não falam praticamente, nem da crise nem da gripe A.

Passámos a manhã em Granville Island, onde as docas deram lugar a ateliers de artes plásticas e escolas de todo o género. Ali se encontram vários mercados simpáticos (há um kid’s market, um public market e um marine market, por exemplo), restaurantes e cafés, várias galerias de arte, teatros e casas lacustres que muito invejámos. A ilha é um paraíso para as crianças, com vários parques e actividades que lhes estão destinadas. Vi um atelier de teatro cheio de crianças e, noutro local, mais crianças a pintar ou a desenhar em grupo. Aqui até dá vontade de ser pai.
Na Charles H. Scott Gallery, uma das muitas galerias por onde passámos, vimos uma interessante exposição de fotografias de arquitectura de Selwyn Pullan, intitulada «Positioning the New». Constituída por fotografias tiradas entre 1945 e 1975, a mostra foi pretexto para uma discussão (amigável) com o Luís Maio, pois ambos saímos com ideias muito diferentes acerca do trabalho do fotógrafo.

Ao almoço, partilhei sem querer um hambúrguer de salmão com uma gaivota traiçoeira. Surgiu-me pelas costas e arrancou-me um pedaço da sandes, felizmente sem me tocar. Primeiro fiquei furioso, depois desatei a rir, tanto mais que não é a primeira vez que tal me acontece. Uma vez, estava eu na Cidade do Cabo, à espera do teleférico para me levar à Table Mountain, veio um passarão enorme que me levou a sandes que me preparava para comer.

Da ilha partem ferrys e aquataxis que percorrem o false creek (falso rio) em todas as direcções. Por isso, decidimos ir de barco até à zona do Space Center onde estava a decorrer um «dragon boat festival». A certa altura, o nosso barquito ficou sem bateria e a rapariga que o conduzia (uma loura de compleição atlética) teve que remar e pedir ajuda pelo telemóvel. O Luís tirou-lhe uma foto quando ela estava a remar e a moça não gostou nada. Ralhou com ele, disse que era muito mal-educado por tirar fotos sem pedir autorização.

Mais tarde fomos à feira da ladra, onde comprei uma máquina fotográfica antiga (uma Brownie Kodak) para a minha colecção. O Luís ofereceu-me um livro de fotografias que eu hesitava em comprar, mais por causa do peso do que por causa do preço (10 dólares): «The Russian Heart: Days of Crisis & Hope», de David C. Turnley.

Ao fim do dia, passeio pelo West End e pelas praias, antes de jantarmos, numa brasserie, mexilhão e batatas fritas.

Domingo, 21. Ilha de Vancouver


Tivemos que acordar bem cedo, para apanhar a camioneta para a Ilha de Vancouver. A viagem de barco é fantástica. A paisagem é maravilhosa, com o mar salpicado de ilhas cobertas por florestas e a luz estava fabulosa, dando ao mar e ao céu cores deslumbrantes. Quem tem máquina não consegue parar de tirar fotografias.
Em Victoria, fomos para o Elm’s Inn, um hotel que vinha muito aconselhado nos nossos guias. O quarto era efectivamente fantástico, muito espaçoso, com uma cama king-size e uma boa casa de banho.

Pouco depois, alugámos um carro na Budget e fomos passear pela costa. A ilha de Vancouver tem sensivelmente o tamanho da Holanda, por isso estava fora de questão irmos a todo o lado em tão pouco tempo. Limitámo-nos, por isso, a visitar duas praias, a French beach e a Botanical beach.
Encontram-se na Ilha de Vancouver muitas árvores com 400 ou mesmo 500 anos. Algumas já existiam quando a Europa estava a sair da Idade Média. É impressionante pensar nisso, enquanto se percorrem os trilhos abertos à beira-mar.
Antes de adormecer, ainda li no «Epoch Times» (um jornal que panhara durante o dia) um inquietante artigo sobre os perigos da nanotecnologia e outro, igualmente muito interessante, sobre os problemas actuais dos aborígenes canadianos, cuja população não pára de crescer. Segundo o jornal, os índios actuais continuam com problemas de adaptação, virando-se frequentemente para o álcool e a delinquência.

Segunda, 22. Victoria

De manhã, passeio de carro até um parque que mal vimos porque o Luís e a Ana quiseram vir-se embora. Queriam visitar os jardins, mas não demos com o sítio. Meio zangados uns com os outros, em Victoria, separámo-nos.
A Raquel e eu deambulámos pelas ruas, sempre tirando fotografias e almoçámos num restaurante simpático chamado Il Paglici, onde os pratos tinham nomes engraçados: «Spaghetti western», por exemplo, ou «Marinade in Manhattan». Havia ainda um «Dish with no name», um «Hemingway short story» e uma «Jane’s addiction».
À tarde, fomos visitar o museu local porque a Raquel tinha curiosidade em ver os quadros de Emily Carr, a pintora mais famosa do Canadá que nasceu em Victoria (1871). Muita da sua pintura pareceu-me influenciada pelos impressionistas franceses, mas estavam patentes outras fases da sua obra mais interessantes. Não fiquei, contudo, especialmente impressionado pelos seus quadros.
No museu estavam outras exposições. Nomeadamente uma de arte japonesa («Edo: arts of Japan’s last Shogun age») e outra intitulada «The Great Landscape» com obras de vários artistas da Columbia Britânica. A exposição que preferi intitulava-se «O Mundo de Pernas Para o Ar» («World Upside Down»), e era composta por obras que não conhecia mas também exemplos retirados do cinema, da banda desenhada, e da literatura.
Na loja do museu comprei uma «reciclagem»; um velho garfo que alguém transformou num improvável insecto de prata. Adorável.
De regresso ao centro, numa loja, onde a Raquel entrou para ver sapatos, ouvi uma cliente queixar-se à empregada: «O sapato aleija-me um pouco o pé. Que pena, gosto tanto deles. Deus não quer que eu compre um par de sapatos hoje». Ao que a vendedora respondeu, para meu grande espanto: «Deixe estar minha senhora, vai ver que amanhã encontra os sapatos perfeitos para si.»
A simpatia dos canadianos continua a surpreender-me!

Terça, 23. Vancouver

Inaugurado em 1889, o Stanley Park é o pulmão da cidade de Vancouver e uma das suas principais atracções. Com os seus 400 hectares, é (como eles dizem) «uma das maiores ilhas de verdura urbana da América do Norte. Situado numa quase-ilha, o parque tem 400 hectares e alberga cortes de ténis, campos de golfe, piscinas, campos de jogos, um comboio em miniatura, um anfiteatro e um aquário.
Para o percorrer, alugámos bicicletas. Começámos por dar a volta toda ao parque (num total de quase nove quilómetros) e acabamos por ir visitar o aquário, que adorámos. Ficámos com uma óptima ideia da biodiversidade do mar nesta zona do globo e deixámo-nos encantar especialmente pelas anémonas. Na parte exterior do Aquário há leões-marinhos, focas, golfinhos e pequenas baleias brancas. Lá dentro estão, para além dos peixes e outros seres marinhos, papagaios, macacos, serpentes, crocodilos e sei lá que mais. No final, felicitei-me por ter visitado o local, que achei no entanto um tanto assustador. O fundo do mar e os seus seres sempre me meteram medo. Lembro-me mesmo da primeira ver que fui ao Aquário Vasco da Gama: nessa noite quase não consegui dormir.

Algures no parque, pode ler-se numa placa: «para o uso e prazer das pessoas de todas as cores, credos e costumes». É o que mais gosto em Vancouver: esta ideia de que a cidade pertence a todos. Infelizmente, não é essa a sensação que tenho em Lisboa.

Quarta, 24. Comboio. Jasper.

Noite no comboio. Como as couchettes são demasiado caras, não tivemos outro remédio senão procurar dormir sentados, como no avião. Passei a noite às voltas, sem conseguir dormir. Tinha dores nas coxas e nas costas e não conseguia deixar de ouvir a buzina do comboio, que não se calava.

Quando acordei, ou melhor, quando decidi que já não valia a pena procurar o sono, olhei pela janela e percebi que estava no Faroeste. Vi vaquinhas à solta na estrada, cavalos na pradaria e gente a viver em caravanas ou em cabanas de madeira, com carrinhas de caixa aberta à porta, tal e qual como nos filmes.
Mais tarde, entrámos nas montanhas e a paisagem mudou. Fiquei com a cabeça cheia do verde da floresta e dos rios. Na carruagem panorâmica, enquanto deixava que toda a minha mente se impregnasse do que via, ouvia o novo disco de Neko Case e aquela música fazia todo o sentido naquele cenário deslumbrante.

São quatro noites de Vancouver a Toronto de comboio. As couchettes são a um preço proibitivo (pelo menos para mim), pelo que tivemos que dormir sentados. Não é muito confortável, nem há a possibilidade de tomar duche (em económica), mas a paisagem que vai desfilando pelas janelas vale todos os sacrifícios. Há, de resto, carruagens panorâmicas, com o tecto envidraçado, para se ver melhor. As refeições a bordo também são bastante boas e relativamente baratas (12 dólares). Na zona do bar, há filmes e concertos, de vez em quando.
Para os ricos, há um outro comboio que liga Vancouver a Jasper, atravessando as Rochosas. Chama-se precisamente Rocky Mountanaieer e só circula entre Maio e Outubro. Como este comboio especial só viaja de dia, para não se perder nada do espectáculo oferecido pelas montanhas (picos de neve, cascatas, canyons, glaciares, florestas a perder de vista, ursos á solta, etc), a viagem inclui uma noite de hotel em Kamloops.
Em Jasper, acabámos no Jasper Inn, um hotel com piscina e jacuzzi, que mal aproveitámos.

Quinta, 25. Rocky Mountains

O Parque nacional de Jasper é, segundo os guias turísticos, «um dos locais mais notáveis do Canadá». Os guias prometem «vales a perder de vista, cadeias de montanhas acidentadas e lagos puros e cintilantes», para além de glaciares, como o Columbia Icefield.
À saída de Jasper, depois de pagar uma portagem (para andar dentro do parque tem que se pagar um bilhete diário), a primeira etapa foram as Athabasca Falls, umas cascatas impressionantes, rodeadas de montanhas deslumbrantes, com florestas a perder de vista. Mais adiante, novas cascatas ( Sunwapta falls) e mais um bom punhado de fotografias.
A própria estrada é um espectáculo, acho que nunca percorri nenhuma com tanta emoção. Se bem que a primeira vez que atravessei o Atlas em Marrocos, o meu coração deu muitos pulos! Enquanto avançávamos em direcção a Banff, pensava: «Na cidade, fazemos parte do espectáculo. Na montanha, não. O espectáculo está todo fora de nós. Aqui, verdadeiramente, as árvores escondem a floresta».
Aos meus olhos, cada árvore é uma pessoa. São todas tão diferentes umas das outras. Algumas fascinam-me mais do que outras.
Penso em tudo o que a floresta nos esconde e digo para mim próprio: «Não vemos quase nada». Depois, penso: «Ver é sentir e sentir é uma maneira profunda de pensar». Gostaria de pensar como uma montanha.
Mais adiante, depois de um piquenique na estrada, chegámos ao Columbia Icefield, que visitámos naqueles autocarros enormes, iguais aos que circulam na Antártica.

Durante a visita, fiquei a saber que o território que hoje ocupa o Canadá conheceu quatro épocas glaciares. Os glaciares de Athabasca e Columbia faziam outrora parte de um tapete glaciar que corroeu e esculpiu o relevo que hoje vemos nas Rochosas. A certa altura, o glaciar Athabasca cobria um vastíssimo território que ia do Norte até às planícies, para lá mesmo de Calgary. A mais recente época glaciar terminou há apenas 10 mil anos. A maior parte dos glaciares da América do norte está ainda a recuar, pois cada Verão derrete mais neve do que a que cai.
Quando a neve que cai atinge uma profundidade de cerca de 30 metros, as camadas inferiores comprimem-se e transformam-se em gelo. À medida que a neve se vai acumulando, a espessura do gelo aumenta e espalha-se.
Os visitantes não vêem senão uma pequena parte do Glaciar, que continua a mover-se imperceptivelmente, pois o gelo das camadas mais fundas, sob a pressão enorme, torna-se «elástica». As camadas superiores são mais quebradiças e formam, por isso, fendas.

Ao deslocar-se, o glaciar arrasta tudo o que encontra pelo caminho, rachando as próprias rochas e formando as «moraines».
O Columbia Icefield, que ocupa 325 metros quadrados, para além de fornecer água em quantidade, refresca a temperatura, tornando os invernos ainda mais rigorosos.
Chegámos a Lake Louise ao final do dia. A Ana Loureiro não quis ficar num Hostel (nossa escolha), porque não tinha quarto de banho privativo, e tivemos que ir para um hotel caro. O problema nas Rochosas, tal como avisava o Guide du Routard, é que em termos de hotéis só se arranja ou chunga ou chique, não há cá meios termos.
Mal acendemos a televisão do quarto do hotel, tivemos a notícia de que morreu o Michael Jackson. Levou-o uma paragem cardíaca aos 50 anos.
Ao jantar, nova discussão com o Luis maio e a Ana. Decidi, por isso, que seria melhor separarmo-nos em dois grupos.

Sexta, 26. Jasper

De regresso a Jasper, usámos a carrinha Nissan para ir ao Lake Maligne. De caminho, visitámos o Maligne Canyon e o Medecine Lake, o lago que desaparece. Na estrada, em vários locais, podemos fotografar de perto vários caribus que passeavam na floresta.

O Maligne Lake é o maior lago das Rochosas canadianas e um dos mais fotografados. Tem mais de 27 quilómetros de extensão e foi um jesuíta belga que o baptizou com esse nome, em 1846. 60 anos mais tarde, a exploradora Mary Schaffer (a primeira mulher a visitar o local) considerou-o uma das paisagens mais espectaculares das Rochosas. Não sei se não é mesmo.

Os índios chamavam a Marie Schaffer «Yahe-Weha», que quer dizer «mulher das montanhas». Filha de uma família rica da Pensilvânia, ela casou com um botanista aos 19 anos. Ficou viúva os 30 anos, mas continuou a explorar as Rochosas, com a ajuda de um guia chamado Billy Warren, com quem ela viria a casar mais tarde.
Todos os anos, 7500 quilómetros cubos de água caem sobre esta região, sob a forma de chuva ou de neve. A sua força de erosão é tremenda e o vale do rio Maligne tornou-se profundo e estrito, ganhando a forma de um V.
Não longe do lago podem observar-se os canyons que assim se formaram.
Perto dali está o lago Medicine, que tem a particularidade de desaparecer durante alguns meses. Esse fenómeno assustava os índios e intriga ainda hoje os cientistas. Calcula-se que, quando o lago desaparece, a água do rio continue a sua marcha para o Ártico através de subterrâneos e cavernas cavadas no calcário, pois o rio reaparece perto do Canyon Maligne, a 16 quilómetros dali. Curiosamente, a água leva cerca de 16 horas a percorrer esses 16 quilómetros.

Já em 1956, um professor francês reconheceu a existência de um rio subterrâneo, mas até hoje ninguém conseguiu localizá-lo exactamente.
Quanto às montanhas que rodeiam o lago, continuam também elas a evoluir. A erosão está a esculpi-las lentamente. Nem as montanhas escapam ao envelhecimento.
A rocha mais antiga que se encontrou no local contém fósseis de conchas com mais de 600 milhões de anos!
Em Jasper resolvemos ficar numa casa particular. A proprietária, com um bebé ao colo fez-nos visitar o quarto e a casa de banho. Depois, de muita conversa, muito simpática, decidiu fazer-nos um desconto, sem que lhe pedíssemos nada.
Às 17h fomos entregar a carrinha. Confusão com os preços, com os quilómetros, com tudo. A senhora era um pouco totó, mas acreditou em tudo o que dissemos.
As pessoas em Jasper são relaxadas, confiantes. Gostam de conversar. Sorriem muito e são muito bem-educadas.
Na lavandaria, uma senhora meteu conversa connosco. Percebeu que precisávamos de ajuda e ensinou-nos a trabalhar com a máquina. Vive em Jasper há 15 anos. Tem dois filhos. Gosta da cidade e não se importa com o frio. Diz que chega a fazer menos 40. Contou-nos que um dia faltou a luz em toda a cidade e os bombeiros andaram de porta em porta a perguntar se estava tudo bem.
Enquanto a máquina lavava a nossa roupa, consultámos a Internet. Pela primeira vez desde que estamos no Canadá. Poucas notícias, mas de monta: um editor quer publicar «Palavra de Músico», o meu livro de entrevistas. Só em 2010, porém.
Nas Rochosas, o tempo está sempre a mudar. Tão depressa está fresco como está calor. Pode chover a potes e daí a nada estar um calor de rachar. Há até um ditado que diz: «Se não gostas do tempo que está, espera cinco minutos.»

Sábado, 27. Jasper

First thing in the morning, just after beakfast, comprámos bilhetes de camioneta para Edmonton e alugámos um Toyota Yaris na Hertz para ir a Pyramid Lake e depois até Miett Hot Springs, onde telefonámos para casa (mami, Daniel, Gina e pais da Raquel). Estavam no local várias famílias menonitas, que tive vergonha de fotografar. Mesmo assim ainda tirei á socapa duas fotos. É irresistível ver as raparigas vestidas como as mães, com os mesmos vestidos, feitos nos mesmos tecidos.
Cada família tinha a sua caravana, mas havia umas mais imponentes do que outras.

À beira dos lagos ou dos carreiros que levam à montanha, há bancos públicos, para uma pessoa descansar ou sentar-se a apreciar a paisagem. Todos têm pequenas placas incrustadas, invocando alguém. Este em que estou sentado neste momento, por exemplo, diz: «À memória de X. que tantas vezes se sentou aqui». Inscrições semelhantes estavam também nos bancos dos parques em Vancouver. Na verdade estão por todo o lado aqui no Canadá. Que bela maneira de evocar os mortos!
No caminho para os diversos sítios pudemos ver vários animais selvagens, em particular caribus e cabras da montanha. Quando vais na estrada e vês carros parados sabes logo que estão animais por perto. Apesar dos cartazes e avisos para não sair do carro, poucos conseguem resistir a aproximar-se dos animais para tirar fotografias.
À tarde, fomos até Mount Edith Cavell, talvez o local mais espectacular onde já estivemos nas Rochosas. Adorei o local, com o seu lago gelado, as rochas todas partidas e o vale magnífico a perder de vista.
De repente, ouvi um troar e pude ver um grande pedaço de gelo vir por ali abaixo, desfazendo-se pelo caminho.
Na hora e meia que ali passámos, pudemos assim ouvir três avalanches.
O alto do Monte fascina. Os índios chamavam-lhe «fantasma branco». Foi em 1916 que o monte ganhou o seu nome actual, em memória de uma enfermeira inglesa executada pelos alemães durante a primeira guerra mundial.
As rochas todas cá em baixo, na base do Monte são os vestígios de uma glaciação recente. Tudo começou, parece, há 400 anos, quando um ligeiro resfriamento da terra fez com que os glaciares crescessem. Mais tarde, quando recuaram, deixaram estes montes de pedra, que aqui chamam «moraines».
Agora, pouco a pouco, a vida está a voltar ao vale devastado pelo glaciar. Árvores crescem um pouco por todo o lado.
No trilho que conduz ao glaciar, um esquilo, de repente, atravessa-se à nossa frente. É lindo e fofo e livre. O seu território é magnífico e imagino-me na sua pele enquanto o observo.
Será que tem predadores?
Uma hora mais tarde, são uns pássaros que chamam a minha atenção. Acho que são quebra-nozes, mas não tenho a certeza. Também eles são bonitos, mas não parecem muito simpáticos uns com os outros. Uma mulher atira-lhes pedaços de bolacha e assustam-se uns aos outros para apanhar os melhores bocados. Tal como os homens, têm que fazer prova de esperteza e mostrar-se mais fortes para conseguir alguma coisa.
Que vida!
Vêm-me à memória os menonitas que vi em Miette Hot Springs. Que gente tão estranha e fascinante. Eram várias famílias e todas tinham o mesmo ar rude e infeliz (impressão minha?).
Eles rosados, robustos, com aquele ar típico de lavradores, de gente que vive da terra e da leitura da Bíblia. Elas com uma touca ou um lenço na cabeça, envergando vestidos simples em tecido barato. Pormenor engraçado: as filhas usam exactamente as mesmas roupas das mães, enquanto os rapazes são reproduções em miniatura dos pais.
Não posso deixar de reparar que a cada família corresponde um jipe ou uma carrinha com uma caravana atrelada. E que há caravanas e carros bem melhores do que outros. Por mais religiosos ou comunistas que sejam os homens, haverá sempre uns mais iguais do que outros. Os menonitas não parecem ser excepção.
Morrerei sem ter compreendido a estupidez humana. Não me parece que haja verdadeira inteligência no mundo e o significado da palavra consciência tem que ser muito relativizada.
Como seria o mundo se a proporção fosse completamente invertida e que as pessoas fossem, na sua maioria, sábias ou santas? Como seria um universo onde o bem e a solidariedade fossem a regra?
Será que num universo paralelo, Deus conduz experiências diferentes? Se existe, é bem provável que tenha criado uma infinidade de universos paralelos com realidades completamente diversas e que se entretenha a fazer comparações.
Estou a delirar! É sem dúvida por influência destas montanhas esmagadoras, destas florestas impressionantes que me rodeiam. A sua grandeza, a sua beleza estimula a minha imaginação. Na verdade, exaltam-me.
De repente, gostaria de ser uma árvore no meio das outras. Ter esquilos a trepar por mim acima, sentir os pássaros a esvoaçar dentro de mim, balançar ao sabor do vento e meditar sem fim. Mas até para ser árvore é preciso ter sorte. Não gostaria de ser uma árvore numa rua de Lisboa, por exemplo. A ser árvore, que fosse aqui nas Rochosas, neste vale aos pés do Monte Edith Cavell, onde o ar é puro e os visitantes se mostram civilizados.
De regresso a Jasper, fomos às compras. Como tínhamos passado frio nos glaciares, comprámos polares. A Raquel comprou também umas sandálias, para substituir as que tinha trazido e entretanto se tinham estragado.
Na loja onde comprei o meu polar, estive á conversa um bom bocado com o vendedor. Percebi que era francês e quis saber como tinha ido ali parar. Quis ainda saber quanto ganhava e como era a sua vida. Ele está em Jasper há 4 anos. Veio até aqui por causa do ski e decidiu aqui ficar. Percebo-o perfeitamente.

Domingo, 28. Jasper. Edmonton

Passámos a manhã no Jasper Museum Historical Gallery. Ficámos assim com uma ideia do que foi a construção dos caminhos de ferro. O museu evoca o nascimento da cidade, o aparecimento dos primeiros turistas e a criação do parque Natural. Eis os nomes de algumas das exposições patentes: «Jasper's First Tourist James Carnegie», «Earl of Southesk; a Celebration of the Park Warden Centennial 1909- 2009» e «Cowpoke Episodes: Glimpses into the Life and Times of a Canadian Cowboy, Stan (Windy) Carr».
Uma das histórias que o Museu conta é a dos irmãos Brewster (Jim e Bill), que criaram a primeira agência de turismo na zona. Guias profissionais levavam os visitantes ricos a contemplar os magníficos panoramas das Rochosas, no final do século XIX.
Depois do almoço, apanhámos camioneta para Edmonton. Numa das paragens, em Edson, roubei uma fotografia a um cowboy.

Em Edmonton, fomos para o International Youth Hostel, em Old Strathcona, uma espécie de bairro alto com ruas residenciais, tranquilas. O quarto era básico, mas correcto e a casa de banho, fora do quarto, era mesmo estupenda.
Enquanto passeávamos na Whyte Avenue, percebemos vimos um jovem negro ser preso pela polícia. O ambiente em alguns locais é de barra pesada. Há um forte cheiro a erva no ar, e vêem-se vários vagabundos.
Antes de ir para a cama, jantámos muito bem, num restaurante cajun, muito anos 50, com jukeboxes em cada mesa.

Segunda, 29. Edmonton

Em 1795, a Hudson Bay Company estabaleceu um posto de trocas no local onde actualmente se encontra a cidade. O Forte Edmonton rapidamente se tornou no principal aglomerado da região, tendo posteriormente evoluído para se tornar numa cidade. Hoje é a capital política e universitária da província de Alberta. No centro há uma linha de metropolitano (Light Rail Transit). Para percorrer o resto da cidade, só de autocarro.
Não podíamos deixar de visitar o West End Mall, o maior centro comercial do mundo. A sua superfície equivale a 115 campos de futebol. Para além de 800 lojas, o centro abriga uma praia com palmeiras e ondas, frequentadas por dezenas de pessoas que alugam também umas grandes bóias amarelas de belo efeito. Outras atracções incluem uma pista de gelo, um lago com um barco de piratas e submarinos. Apesar de ser dia de semana, o centro estava cheio de gente.


Na Whyte Avenue passou por nós um casal de vampiros. Vestidos de preto, usavam correntes de metal e eram ambos muito pálidos. Tinham os olhos maquilhados e a mala dela tinha a forma de um caixão. Um pouco mais à frente, vi passar o Davy Crocket. Vestido a rigor, com o chapéu de castor e o fato de pele. Tinha a barba esbranquiçada e aparentava ter uns 50 anos.
Durante o dia, tinha visto outras personagens engraçadas. Estou a lembrar-me, nomeadamente, de duas sudanesas muito elegantes e um adolescente japonês completamente andrógino (impossível decidir se era rapaz ou rapariga).
Edmonton é, ao que parece, a terra dos festivais. Segundo um jornal local, um de cada dois dias do ano um é passado segundo o signo de um qualquer festival. Há festivais de cinema, de música, de teatro, de literatura, etc.

Terça, 30. Comboio, Winnipeg

Estamos de regresso ao comboio, para a última etapa que nos vai levar a Toronto. Uma vez mais, conseguimos apanhar lugares duplos, que nos permitem formar, com o banco da frente, uma espécie de cama. Mas uma cama com altos e baixos e um buraco muito incómodo mesmo a meio.
Em tais condições, a noite foi horrível. Não encontrava posição para dormir e o comboio apitava constantemente, sem dúvida para assustar os animais selvagens que podem estar na linha. Adormecia, acordava, voltava a adormecer para acordar de novo. Sonhos soltos, breves, inquietantes.
De manhã, o Luís descobriu que dormíamos a poucos metros deles e ficou espantadíssimo. Fomos tomar um café e foi como se nada se tivesse passado.
O comboio avança lentamente, com muitas paragens. Antes de chegarmos a Winnipeg (palavra que significa águas turvas), houve uma «jam-session» no wagon-restaurante com uma banda folk. Um trio de guitarra, cavaquinho e banjo com um repertório composto por canções simples, tocadas com genuíno prazer. No final, um velho negro (com longas rastas brancas) sacou de uma harpa de beiços e entoou um blues à maneira. Um momento mágico!
A certa altura, um senhor de idade (a quem faltavam dois dedos na mão direita) meteu conversa com a Raquel para se queixar da violência que assola agora as cidades canadianas. Xenófobo, advoga a pena de morte. Diz preocupar-se pelo futuro do seu país «invadido pelos asiáticos». Em Edmonton, afirma ele, «há agora uma média de um homicídio por semana».
Jorge Luis Borges dizia que a América era a Europa no exílio. Quando o afirmou ainda não se falava de globalização. Hoje somos quase todos exilados, «estranhos» na nossa própria terra.
Lá fora, a paisagem é agora monótona. É uma planície sem fim, onde de vez em quando se vêem pequenas aglomerações, muito pobres. «Como fazem as pessoas para viver aqui?», pergunta-me a Raquel.
No céu, as nuvens emprestam à paisagem um ar «dramático».
Em Winnipeg, aproveitámos a paragem de três horas para (depois de comer qualquer coisa à pressa) dar uma volta pelo centro. Dada a hora (cerca das oito da noite), as ruas estavam quase desertas, mas vimos muitos e belos edifícios. Dá para perceber porque é que a cidade era considerada, no princípio do século XX, a Chicago canadiana.

O espaço aqui não vale nada. Há espaço com fartura, não é preciso economizá-lo.
Nas ruas, um forte cheiro a erva. Passámos por várias pessoas visivelmente pedradas.
Na estação, estava um cowboy a preceito. Vinha buscar a família e estava vestido como se tivesse o cavalo à porta.

Quarta, 1. Comboio

Quanto mais cansado, menos consigo dormir. Acordo cheio de dores. Nas ancas, nas pernas, nos ombros.

Hoje é dia do Canadá. Por isso, à tarde, ofereceram-nos uma fatia de um bolo que reproduzia a bandeira do país.

Quinta, 2, Toronto


A casa dos pais da Raquel fica longe do Centro, depois de High Park. Para lá chegar, sai-se no metro Runnymede e apanha-se o autocarro 79. Nos transportes públicos usam-se aqui umas moedinhas chamadas «tokens» e tem que se pedir «transfers» para passar do metro para o autocarro, ou vice-versa.
O mapa do metro é muito simples. Na prática só há quatro linhas. E quatro direcções: Norte, Sul, este, oeste.
Nos subúrbios, vi muitos velhos, quase todos emigrantes. No centro, vi sobretudo arranha-céus.
Nas casas de banho, encontrei secadores potentíssimos. Em 12 segundos as mãos ficam secas. Também os autoclismos são potentes.

Sexta, 3. Toronto

15º dia de viagem. Nunca me senti tão alheado do tempo. Tão alheado da passagem dos dias. Anoto: «Numa viagem só conta o futuro. O passado transforma-se em fotografias. Tudo o que vivi está agora em cartões de memória».

Os highlights do dia foram a visita à Art Gallery of Ontario (AGO) e ao Kesington Market.

O Museu de Artes Plásticas de Toronto foi fundado em 1900 e é um dos maiores da América do Norte. O edifício foi recentemente ampliado e redesenhado pelo arquitecto Frank Gehry (natural da cidade). O resultado é deveras curioso, tanto por fora (a fachada é toda envidraçada formando uma espécie de onda giigante) como por dentro, com as suas vigas e escadarias monumentais em madeira.
Enquanto espaço museológico só tem um defeito: à força de querer ter de tudo, só dá um cheirinho de cada coisa. Há arte africana, desenhos e fotografia, escultura e pintura e estão lá, evidentemente, os mais importantes artistas do Canadá, mas igualmente obras de Auguste Rodin, Claude Monet, Edgar Degas, Paul Cézanne, Vincent van Gogh, Pablo Picasso e René Magritte, entre outros.
O escultor Henry Moore está muito representado, tendo direito a uma sala própria, pois doou ao estado canadiano algumas centenas de obras.
Neste momento, o AGO tem patente uma grande (e bastante interessante) exposição dedicada ao surrealismo, intitulada «Surreal Things».

Sábado, 4. Toronto

De manhã, no Mocca (Museum of Contemporary Canadian Art), vimos uma exposição intitulada «Pulp Fiction», que reúne obras, dos anos 60 e 70, de artistas canadianos como Marc Bell, Tasha Brotherton, Mark DeLong, Barry Doupe, Shayne Ehman, Liz Garlicki, James Kirkpatrick, Amy Lockhart, Jason McLean, Jennie O'Keefe, Seth Scriver, The Lions e Peter Thompson.
Depois andámos a passear pela Queen Street, antes de ir visitar Richmond e muito particularmente o edifício com o nº 401. Uma antiga fábrica que abriga hoje 140 agentes culturais e empresas na área da cultura. É um espaço incrível, com muitas galerias e algumas lojas de design e/ou artesanato onde vimos coisas super-interessantes.
Às seis horas fomos ao encontro da Jane, uma antiga colega do liceu da Raquel. Já não se viam há 20 anos.
Ela e o marido, um português chamado Dave, levaram-nos a jantar no Mandarim, um buffet chinês. Depois fomos até casa deles, onde ele me mostrou uma banda desenhada em que anda a trabalhar. Na verdade, ele desenha muito bem, mas a história, que gira em torno de equipas de hóquei rivais, é de uma violência inacreditável.
O Dave trabalha para a BMW (não percebi se é mecânico ou vendedor), mas do que gosta mesmo é de desenhar. A Jane é grega. Ou melhor, filha de gregos. Quando falei ao Dave no filme «My Big Fat Greek Wedding», ele exclamou: «É a história da minha vida!»

Domingo, 5. Toronto

Começámos o dia por uma visita à Destilaria. Trata-se de uma antiga destilaria de uísque que abriga hoje um complexo de restaurantes, cafés, lojas de decoração, ateliês e galerias de arte. A área circundante tornou-se num bairro chique.
Numa das muitas galerias que ali há (Clark & Faria), vimos uma exposição do Douglas Copeland. Não sabia que também era artista plástico, mas a verdade é que tinha expostas algumas obras interessantes.

Aquele que o Toronto Star classifica como «this country's best-known cultural multi-tasker: novelist, playwright, actor, TV producer, screenwriter, furniture designer and – oh, right – artist» tinha ali expostas, entre outras coisas, um conjunto de obras inspiradas no retrato da Marilyn Monroe do Andy Wharol a que chamou «Matricídio». Sobre os desenhos da Marilyn ele cola, por exemplo, etiquetas de cerveja.
Havia também uma série de esculturas feitas com cubos com letras coloridas normalmente usadas para ensinar as crianças a compor palavras. Empilhados uns nos outros, os cubos coloridos formavam frases irreverentes como «Quit Your Job», «Fuck off» ou «Define Normal», por exemplo.

Entre humor e ternura, Coupland surge assim como um especialista do ready-made, capaz de sacar novos sentidos e direcções de obras alheias, ou até de objectos correntes. Há um lado cínico naquilo que faz, mas o que vemos também está impregnado de uma subtil nostalgia, parece-me.
Quando saímos dali, percebemos por acaso que estava a decorrer uma Feira da ladra no St. Lawrence Market. Ali comprámos uma placa de madeira muito engraçada onde se lê «Bred & Breakfast», com flores em volta. Um objecto tão piroso que se torna engraçado e que não sei muito bem onde vamos colocar. A Raquel comprou ainda uma mala de mão amarela muito gira, em segunda mão, por apenas 5 dólares.
O passeio continuou em Yorkville, onde ambos comprámos jeans em saldo na GAP e onde comemos uns gelados caseiros muito bons. O cone é feito na altura, à nossa frente.

E, depois de uma passagem pelo festival de jazz, fomos ver o Corso Italiano, uma festa de rua onde encontrámos muitos portugueses. De resto, há naquela rua uma «Portugueses Bookshop» e uma agência de viagens com um painel indicador na montra onde se pode ler: «Portugal 5149 km».


Segunda, 6. Niagara


As cataratas do Niagara são, como se sabe, umas das atracções turísticas mais populares da América do Norte (fala-se de cerca de 14 milhões de visitantes anuais). Para mim era impensável estar ali tão perto e não dar lá um salto, apesar do Oscar Wilde ter escrito que «o Niagara é a segunda grande decepção da recém-casada».
A mim não me decepcionaram. As cataratas são bonitas e imponentes.
O seu ressoar ouve-se à distância, de modo que, muito antes de as vermos, já as estamos a ouvir.
A primeira com que deparei foi logo a seguir à ponte que liga o Canadá e os Estados Unidos. Chamam-lhe «Véu de Casamento», fica do lado americano e tem 64 metros de altura por 340 de largura.
A segunda catarata (dita da Ferradura) é menos alta (50 metros), mas mais larga (800 metros), debitando uma média de 170 mil metros cúbicos de água por minuto.
Do lado americano (onde não fomos) as cataratas só podem ser vistas de lado. Por isso, mais vale vê-las em território canadiano.
As cataratas podem ser vistas de frente, de cima (helicóptero), de baixo, de lado e até por detrás. Contei pelo menos 15 agências que propõem diversos modos de gozar o espectáculo, porém, para mim, a melhor maneira de as sentir é embarcar num dos vários «Maid of the Mist» (Noivas da Névoa), barcos que lembram os antigos cacilheiros e que levam as pessoas até muito perto do local onde toda aquela água cai, com um ribombar colossal elevando no ar uma verdadeira coluna de névoa.
O mínimo que posso dizer é que nunca esquecerei os momentos em que estive envolto em bruma, som e fúria, aos pés da Deusa, sentindo no rosto as suas lágrimas torrenciais. Ouvi com o corpo todo o pranto feliz que lhe dá existência, e aquela molha (apesar do impermeável que nos fornecem, ficamos completamente encharcados) lavou partes da minha alma que nem eu sabia existirem. Foi como se tivesse sido baptizado de novo, desta vez pela própria natureza. Durante alguns momentos não havia barco, nem pessoas, só eu e aquele remoinho compulsivo dentro de mim, cobrindo-me de carícias molhadas. Foi um dos momentos mais eufóricos da minha vida.
Também a Raquel, a Ana e o Daniel pareciam em êxtase. Quanto ao Luís, quando lhe perguntei o que tinha achado, limitou-se a responder com ar blasé: «Foi engraçado!».

Terça, 7. Toronto

Tal como planeado, o dia foi dedicado a compras de última hora. Por mim, comprei um filtro para a minha lente 18-200mm e um livro do Douglas Coupeland: «Souvenir of Canada».
O dia esteve quase sempre cinzento e doíam-me as costas e a perna direita.
A certa altura, num Centro Comercial, assisti a uma cena curiosa. Um grupo de adolescentes encontrou-se ali, a poucos metros do local onde eu esperava a Raquel e pude ver que todos eles se abraçaram. Rapazes e raparigas. Nada de beijinhos. De repente, percebi que nunca vi ninguém beijar-se na face e lembrei-me que a Jane, a amiga da Raquel, ficou muito surpreendida quando eu a cumprimentei com dois beijos á boa maneira portuguesa.
O último dia em Toronto passou a correr e eu só pensava: «Logo à noite vamos voltar para a selva. Para Merdeiras». Pensei: «Todo o país se transformou no Expresso. Saí do Expresso mas continuo preso da mesma mentalidade, da mesma mediocridade». Foi um pensamento arrepiante.

Mais tarde

Mallamé afirmava que tudo acaba num livro. Desde há algum tempo, as minhas viagens acabam efectivamente por resultar em livros. Mas em livros que faço só para mim, com fotos e textos.
Mais uma vez o digo: o ideal seria a viagem não ter fim. Mas isso é impossível. Na vida só há uma coisa interminável: a ideia da morte. Seja como for, de uma coisa tenho eu a certeza: a minha viagem é inédita. Nunca ninguém a fez antes de mim. Há tantos caminhos como viajantes. Este foi o Canadá que encontrei. Ou que me encontrou a mim. Quanto a este texto, não é para ser lido, mas sim relido. Acho eu.

quarta-feira, 4 de Março de 2009

Caderno japonês

23 de Maio de 2006

Parece parvo, mas o meu primeiro encanto no Japão foram as fardas das raparigas da limpeza, na estação de Osaka. Muito jovens, vestidas com cores coloridas, pouco tinham que fazer. De resto, à nossa volta, tudo parecia impecável. Quanto muito havia uns jornais para recolher ou uma garrafa de plástico deixada por algum passageiro.

Tudo me pareceu imediatamente encantador. Tudo muito clean, muito bem iluminado, com cores que chamam a atenção sem ferir a vista.

A paisagem, que vimos através das janelas do comboio, era incrivelmente nova ao meu olhar. Estava do outro lado do mundo e sentia-o em cada centímetro da minha pele.

Kyoto revelou-se fascinante logo ao primeiro contacto. Para onde quer que me volte, só me apetece felicitar-me por ter vindo. É como estar a viver um sonho maior que a vida. Um filme em três dimensões.

Os templos. As flores de papel. Os cheiros, a água, as multidões de estudantes por todo o lado. Tudo é mais do que alguma vez esperei encontrar. Mais e melhor. Mais bonito e mais forte. Os meus olhos nunca me pareceram tão grandes, o meu coração raramente se sentiu tão compensado.

Em Kyoto é tudo minúsculo. As casas, os carros, as próprias pessoas. Menos os parques. Os parques são imensos, com templos e santuários lá dentro.

Na rua, apesar dos chuviscos constantes, o encantamento é permanente. Alguns peões, homens e mulheres, novos e velhos, usam máscaras de cirurgião, sem dúvida para se proteger da poluição. Ou será porque estão constipados e não nos querem pegar a doença? Como ninguém fala inglês, é impossível esclarecer o que quer que seja.



Algumas senhoras continuam a usar o tradicional quimono de seda. Gueishas? Nas costas têm sempre uma pequena almofada a que chamam «obi». Pergunto-me para que serve. A Raquel chama-me a atenção para as pernas tortas das raparigas. Mas as mulheres, qualquer que seja a sua idade, vestem-se com uma elegância que me deixa comovido.

Quando lhes dirigimos a palavra, os japoneses ficam muito atrapalhados, deveras desolados por não nos entenderem.

Também os taxis são muito elegantes, com os assentos cobertos de renda e condutores de luvas brancas. Os símbolos que os identificam como táxis sobre os tejadilhos são também engraçadíssimos. Uns ostentam um trevo, outros uma estrela ou um coração. Podem ter muitas formas e muitas cores.



Esta luz faz as árvores parecer mais bonitas, ou são as árvores que de tão bonitas fazem parecer a luz mais transparente e luminosa do que em Portugal?

Esta manhã visitámos o famoso templo das Águas, o Kiyomizu-dera, um dos mais vistados da cidade. Um dos locais privilegiados do Templo é uma varanda de madeira suspensa de onde se pode apreciar uma floresta magnífica e parte da cidade ao longe. A sua construção data de 778, quando um monge visionário encontrou uma fonte cuja água tinha virtudes curativas. Os japoneses, principalmente os adolescentes, fazem bicha para beber um pouco de água e rir uns dos outros.

De vez em quando, um grupo de estudantes faz questão de ser fotografado na nossa companhia. Sempre que lhes apontam uma máquina fotográfica, os japoneses sorriem e fazem V com os dedos. Peace and love? Vitória? Vá-se lá saber. Em todo o caso, é um tique que todos partilham.

Dia 24

Mal chegámos ao aeroporto de Osaka, fomos ao posto de turismo à procura de um hotel. Perguntaram-nos que tipo de hotel queríamos e quanto é que estávamos dispostos a pagar. Optámos por um Toyoko-Inn, que fica no centro da cidade. Custa mais ou menos o que estávamos dispostos a pagar e serve perfeitamente, apesar do quarto mínusculo mal ter espaço para a cama. Também a casa de banho é mínima, mas tem tudo o que é preciso e mais ainda, com repuxos na sanita e outros gadgets que nem sabemos para que servem. É um business hotel, como aqui lhes chamam e o atendimento é super-profissional, a cargo de meninas novas impecavelmente fardadas e perfumadas. Na recepção há prendas para dar aos hóspedes: gravatas, canetas, chaveiros e sei lá que mais. Escolhi uma «lanterna-robot» para ler no escuro, se for necessário. É um objecto curioso. Prateado, parece uma caneta, gorda e achatada. Quando se carrega num botão, desdobra-se e acende-se.

Tal como prometiam os nossos guias, a estação de comboios de Kyoto impressiona. Foi reconstruída por ocasião do 1.200º aniversário da decisão, por parte do imperador Kanmu, de aaqui instalar a capital do país em 794. Imponente, nas suas linhas futuristas, o imponente edifício abriga um hotel de luxo e uma sala de espectáculos, para além de um centro comercial.
A escada rolante parece conduzir ao céu. Lá em cima, há um terraço ajardinado de onde se pode observar a cidade.

Encantam-me as fardas das estudantes que me lembram invariavelmente o Araki. Mas encantam-me ainda mais os vestidos das monjas, com as suas blusas brancas e longas saias vermelhas. A estas vestais nipónicas chamam «miko». Antigamente, eram «as virgens do templo» e passavam por ser ou feiticeiras ou adivinhas, não percebi bem. Geralmente eram filhas dos sacerdotes e ajudavam-nos nalgumas tarefas. Hoje são principalmente voluntárias ou mesmo trabalhadoras contratadas a prazo. Infelizmente, ainda não tivemos ocasião para assistir às suas danças cerimoniais, que imagino muito sensuais.



A maioria dos japoneses consideram-se tanto xintoístas quanto budistas. Tanto quanto sei, o Xintoísmo é uma religião politeísta nativa do Japão, que passou por um processo sincrético com religiões e filosofias vindas do exterior como o Taoísmo, o Confucionismo e o Budismo.
As pessoas vão aos templos para rezar, mas também para pedir favores aos deuses. A maioria escreve os seus desejos em papelinhos que depois dobram de forma a parecer flores e decoram árvores artificiais com eles. Ao longe parecem arburstos floridos. É lindo.

O Japão é de longe o país mais civilizado do mundo. Nunca estive num local mais aprazível e sereno, onde as pessoas são um exemplo de civilidade e elegância. Quando nos dirigimos a uma pessoa para lhe pedir uma informação, chega a ser embaraçoso, pois não sabem comunicar connosco, mas querem ajudar-nos a todo o custo. Procuram genuinamente compreender-nos e sente-se que seriam capazes de tudo para nos agradar.

As casas, as ruas, os carros, está tudo irrepreensivel. Como chove, há baldes e recipientes em todo o lado para apanhar a água da chuva, como se fazia no Congo. Não que falte aqui: trata-se apenas de poupar um bem essencial. Os autoclismos, por exemplo, têm uma torneira para que lavemos as mãos na água que vai encher o depósito. É simplesmente genial.

Kyoto, que na altura se chamava Heian-kio, foi a capital do Japão entre 794 e1868 (Kyoto quer dizer cidade-capital). Hoje tem cerca de milhão e meio de habitantes e é uma das cidades mais bonitas do mundo, rodeada de florestas e fontes de água. É também a cidade do Japão que tem mais templos e santuários. E pensar que os americanos ainda ponderaram deitar aqui uma bomba atómica!

Quando era miúdo, havia uma expressão que dizia: «Vai lá for a ver se estou.» Era uma maneira de nos mandar à fava. Vim até ao Japão ver se lá estava. E não é que estou mesmo!

Dia 25

Embora Kyoto seja pelo menos tão grande como Lisboa, nunca tivemos que apanhar um transporte. Temos percorrido a cidade toda a pé e vamos continuar a fazê-lo porque é a melhor maneira de ver tudo como deve ser. Ontem à noite ainda percorremos a parte mais moderna da cidade (as grandes avenidas pejadas de lojas e restaurantes chiques), hoje de manhã passeámos ao longo dos canais, em bairros mais antigos onde há muitas casas de madeira. É lindo e bucólico. As casas parecem saídas de um conto de fadas. Por todo o lado reina uma calma infinita.

Nas nossas deambulações, passámos em frente de vários «love hotel». Já tinha lido sobre eles. Destinados aos namorados e aos amantes ocasionais, estão abertos 24 horas por dia e não têm propriamente recepção. Tudo se passa de modo anónimo e podem ser alugados à hora. Há diversos tipos de quartos, que remetem para os mais diversos imaginários e fantasias. Estamos muito tentados a ir experimentar um, um dia destes.

Ao fim do dia, passeio no bairro Pontocho, situado numa ilha e que parece ser o centro de diversão nocturna. Numa livraria, cheia de livros em segunda mão, comprei The Dying Animal do Philip Roth, em edição de bolso. Baratíssimo.

Dia 26

Passámos a noite num «ryokan», uma espécie de pensão tradicional, que se revelou uma experiência inesquecível.
O recepcionista não falava uma palavra de inglês, mas parecia perceber o que dizíamos. Por isso, lá nos indicou, por escrito, o preço, que era mais ou menos o mesmo que pagávamos no Toyoko-Inn, cerca de 50 euros por noite. Quando lhe perguntámos se podíamos ver o quarto, estendeu-nos uma folha impressa onde se dizia mais ou menos isto: «No Japão é falta de educação pedir para ver os quartos». Tive que me conter para não desatar a rir. Depois, quando acedemos em pagar o preço, estendeu-nos uma outra folha que explicava que tínhamos forçosamente que deixar o quarto até às 11 da manhã e que não poderíamos regressar antes das quatro da tarde.

O quarto não era muito maior do que o do Toyoko Inn e em vez de mobiliário tinha apenas uma mesa baixa no centro e duas almofadas. A um canto estavam dois edredons enrolados que supus imediatamente serem as camas. Em cima da mesa, uma chaleira e duas chávenas. Também a casa de banho era minimal, mas tudo muito asseado e acolhedor.

Logo à noite vamos para Tóquio. Pensámos ir no comboio bala, mas era demasiado caro. Optámos por isso por um autocarro nocturno. Os bancos são reclináveis e poderemos dormir.

Dia 27

O autocarro era confortável, com efeito. Como fomos os primeiros a reservar os bilhetes, ficámos com o melhor lugar, lá em cima no primeiro andar, mesmo em frente à janela, com vista panorâmica. Os assentos transformam-se em camas, e há cobertores, almofadas e até roupões e chinelos para quem quiser. Dorme-se lá melhor do que no avião.
De manhã chovia. Os sinais na estrada são por vezes iluminados e animados. Por todo o lado vi enormes recintos para treinar golf e «hotéis do amor», sempre muito chamativos, com esculturas sugestivas nos telhados e nas empenas e grandes néons apelativos. É o que há mais ao longo do caminho. Pelo menos, assim me pareceu.

Em Tóquio fomos para outro Toyoko Inn, infelizmente um tanto descentrado porque os outros estavam todos cheios. Mas como há metro quase à porta, não nos importámos muito.
Não foi, no entanto, muito fácil dar com o hotel. Tinhamos a morada mas ninguém parecia conhecer a rua. A folha que imprimiramos da Internet dizia que ficava a 500 metros do metro. Já um pouco desesperados, abordámos um polícia que nos apontou uma direcção. Mas não víamos Toyoko Inn em lado nenhum. Por fim, um rapaz que percebeu o nosso desespero, abordou-nos num inglês quase perfeito. Tinha vivido nos Estados Unidos e estava gora de regresso a casa. Com a sua ajuda foi fácil encontrar o hotel. Era ali perto, mas numa rua secundária que ainda não tínhamos percorrido.

Segundo a Wickipédia, a região metropolitana de Tóquio é uma das maiores concentrações urbanas do mundo, com cerca de 30 milhões de habitantes. Em japonês, Tóquio quer dizer «capital do Leste».
O mapa do Metro é impressionante. Uma teia densíssima de linhas coloridas que cobrem toda a superfícia da cidade. Se bem percebi, há duas linhas distintas, que se completam. Cada linha tem uma cor, cada estação um número. Os mapas são muito claros e é facílimo uma pessoa orientar-se. Não temos tido a menor dificuldade nesse aspecto.

O nosso primeiro passeio foi até ao principal templo no centro da cidade, o Senso-ji, também conhecido como Asakusa Kannon. É um dos mais importantes ícones da capital japonesa, com suas lanternas enormes decoradas e o portão laqueado de vermelho na entrada sul. Fundado no século XVII em homenagem a Kannon, a deusa da Piedade, o templo (budista) tem seus portões guardados pelos deuses Raijin, deus do Trovão, e Fujin, deus do Vento. À volta do templo há dezenas, ou mesmo centenas de lojas para turistas, mas desde que chegámos ao Japão, quase não temos visto estrangeiros.

À tarde fomos para Shinjuku. Aí, numa daquelas lojas enormes com equipamentos electrónicos comprei uma nova máquina fotográfica, uma Nikon D200. Não resisti, tanto mais que custa quase metade do que custa na Europa.



Shinjuku é impressionante, com os seus arranha-céus cobertos por néons. O comércio não se limita ao rés-do-chão. Cada andar abriga vários negócios: restaurantes, bares, lojas de roupa, tudo o que se possa imaginar. E, claro, há casas de pachinko por todo o lado.
O pachinko é o jogo nacional. Está por todo o lado e sempre cheio de gente. O pachinko é uma máquina de jogo entre o flipper e a slot-machine, que se joga com berlindes metálicos. É preciso ver para crer. Cada jogador tem aos pés, caixas de plástico cheias de esferas de metal com que vai alimentando a máquina. Impossível perceber como se joga, mas é hipnótico. As máquinas são muito coloridas e piscam emitindo sons maviosos. Tanto quanto sei, tudo o que se ganha são mais esferas de metal que, no final, podes trocar por prendas, pois os prémios em dinheiro estão proibidos.



Para jantar fomos espreitar a «Piss alley», depois de termos passeado por Kabukicho, o «red light district» local. Como o nome indica a «piss alley», cujo verdadeiro nome é shomben yokocho, é uma ruela estreita e mal iluminada (mas não cheira mal). Não fica muito longe da impressionante estação de Shinjuku e abriga dezenas de pequenos bares e restaurantes (a maioria deles não leva mais do que uma dezena de clientes de cada vez) onde se come ao balcão, petiscos deliciosos (mas caros), quase invariavelmente acompanhados por saké. Deliciámo-nos.



Dia 28

A Nikon D200 teve um baptismo de fogo em beleza. De manhã, apanhámos uma festa, com um mercado de rua cheio de arraquinhas de comida. Logo a seguir, deparámos com uma procissão que envolveu alguns milhares de pessoas durante toda a manhã. À tarde, fomos para Harajuku fotografar as celebérrimas «lolitas góticas». Tirei várias centenas de fotografias ao longo do dia, de tal modo que este 28 de Maio de 2006 deve ser a data mais bem documentada de toda a minha vida.



No mercado, deparámos com um sujeito que fazia chupa-chupas com forma de animais – cães, cavalos, cisnes – de uma perfeição espantosa. Num minuto, ou pouco mais, realizava miniaturas que eram imadiatamente devoradas por crianças gulosas. Difícil imaginar objectos artísticos mais comoventes e efémeros do que estes.

Durante a procissão, um dos participantes despiu, de repente, a sua veste tradicional e estendeu-ma, dando-me a entender que gostaria de me ver a substitui-lo durante algum tempo. Assim fiz. Enquanto me fotografava, a Raquel ria a bandeiras despregadas, mas para mim não foi uma experiência muito agradável. O andor era pesadíssimo, eu estava comprimido entre dois outros carregadores suados e a cada passo a trave de madeira esmagava-me um pouco mais o ombro, tanto mais que o avanço se fazia de forma sincopada. Fiquei aliviado quando o sujeito me veio render.



Em Harajuku, mal saímos da estação deparei com uma das tais lolitas góticas. Parecia efectivamente uma boneca de porcelana do tempo da minha bisavó. Cá fora, ocupando toda a ponte que conduz ao parque, e também nas imediações, estavam algumas dezenas de jovens com visuais tão ou mais espectaculares. Umas mais punk, outras mais futuristas, mas todas super-fotogénicas. Algumas pareciam mulheres fatais, outras crianças como só se vêem na banda desenhada. Pelo meio havia rapazes que se faziam passar por raparigas e raparigas que queriam parecer rapazes. Nalguns casos era muito difícil perceber qual o sexo da pessoa que estava a fotografar.
Não há maneira de descrever a fantasia daquela gente, nem os objectos de que se servem em profusão para se afirmar. No conjunto revelam uma imaginação delirante. Era como estar num palco enorme, rodeado de personagens pertencentes a vários filmes diferentes, cada um mais improvável do que o outro.

Dia 29

Esta manhã, acordámos cedíssimo para ir visitar o «Tsukiji fish market», o maior mercado de peixe e marisco do mundo. Impressionante e gigantesco, com efeito. Nunca tinha visto nada parecido. Vi peixes loucos e outros seres ainda mais estranhos que nem sabia que existiam. Fiquei muito impressionado por uns mexilhões maiores que a minha mão, por exemplo. Mas os nossos planos para ir comer o famoso sushi numa das tascas do mercado caiu por terra, pois havia bichas enormes à porta dos restaurantes e teríamos que ali ficar horas à espera de vez.



À tarde, embarcámos num barco que nos permitiu ter outra prespectiva da cidade e que nos deixou num parque lindíssimo. Decididamente, o que faltam aqui são parques. Que inveja!

Dia 30

De manhã, Museu da Fotografia e arredores. Arquitectura moderna e yuppies por todo o lado.
À tarde, visitámos os cenários do Lost in Translation. Ou melhor, o hotel onde estavam hospedados o Bill Murray e a Scarlet Johansson.
O local é magnífico e pudemos percorrê-lo sem que ninguém nos incomodasse. Depois ainda subimos ao cimo de um arranha-céus para observar a cidade lá de cima.
Pelo caminho, vi vários sem-abrigo, o que me deixou incrédulo. Numa sociedade destas, onde tudo parece tão civilizado e bem regulado, não se imagina que possa haver gente a dormir ao relento. É verdade que alguns tinham tendas de campismo, e que estavam confinados a um parque, mas mesmo assim...

Dia 31

Há vários cemitérios em Tóquio. Fomos à procura de um dos principais e deu para perceber que a noção de cemitério aqui é muito diferente da nossa. São parques enormes, tentaculares, com ramificações dentro de jardins particulares. Na verdade, há campas por todo o lado, até nos pátios de alguns condomínios privados. Aqui, vivos e mortos convivem em harmonia. Os mortos zelam pelos vivos, emprestam a sua paz à cidade.



Nas páginas dedicadas aos restaurantes da área, vimos que havia um instalado num Chalet suiço. Quisemos ir ver e nem queríamos acreditar nos nossos olhos. Tanto fora como dentro do chalet a ilusão é perfeita. Trata-se de uma réplica exacta onde a única coisa que destoa são as caras das pessoas (clientes e funcionários). De resto, parece que estamos na Austria, até a comida é igual.

1 de Junho

Para o último dia em Tóquio, voltámos a Harajuku, pois não tínhamos visto o templo, e havia uma grande parte do bairro por onde não tínhamos passado. Mais uma vez, vi várias fotos da Audrey Hepburn, em montras ou em cartazes. Parece haver aqui um culto desta actriz. Talvez ela represente, aos olhos dos japoneses, o protótipo da beleza ocidental. Mais uma prova do seu bom gosto estético.

Dia 2



Osaka! Situada na região de Kansai, Osaka é terceira maior cidade japonesa. O castelo da cidade (na foto) é um dos mais famosos do país e foi aí que nos dirigimos em primeiro lugar. Está no interior de um parque murado e o edifício central tem oito andares. A sua origem remonta ao século XVI e o último restauro data de 1995. O interior abriga um museu. Do último andar pode ver-se o centro da cidade. A vista é magnífica.

De regresso ao centro, fomos descansar para um café (os nossos pés têm sofrido muito nos últimos dias). Na sala, estavam duas jovens a dormir a sono solto. E ninguém lhes chamou a atenção, aqui parece ser uma coisa natural. De resto, também no metro, há sempre gente a dormir.
A esmagadora parte das pessoas que andam de metro fazem uma destas três coisas: ou dormem, ou estão às voltas com o telemóvel (jogando ou navegando na Net) ou lêem, livros de bolso invariavelmente forrados a papel. Para proteger os livros ou para que não se perceba o que estão a ler?

Quando estávamos no café, reparámos que na rua em frente havia uma bicha para uma espécie de quiosque. Cada pessoa que era atendida era substituida por outra, de forma que a fila parecia ter sempre, mais ou menos, o mesmo tamanho. Isso despertou-me a curiosidade e quando saímos do café fomos espreitar. Estavam a vender o que nos pareceu ser um bolo. Toda a gente levava dois ou três e, naturalmente, quisemos provar também. Quando estávamos na bicha, uma menina veio oferecer-nos uma fatia. Era uma espécie de pão de ló delicioso, muito fofinho que sabia subtilmente a cheese-cake. Comprámos dois bolos e posso jurar que foi o melhor pão de ló que comemos na vida.

Um provérbio japonês diz que o Japão é como um ser humano cuja cabeça seria Tóquio, o estômago Osaka e o coração Tóquio. Precisamente as três cidades que visitámos. Coincidência feliz.

Dia 3

De regresso ao Dubai, possso afirmar sem hesitação: as duas viagens que mais gostei até hoje foram à Índia e ao Japão! Como dizia Fernando Pessoa: «Hei de ser quem vai chegar, para ser quem quer partir».

domingo, 22 de Fevereiro de 2009

San Miguel de Allende

Um americano que conheci na Tailândia confidenciou-me que uma das razões que o levava a viajar pelo mundo era o desejo de encontrar um sítio onde lhe apetecesse passar o resto da sua vida. À beira da reforma, o senhor já visitara grande parte da Ásia e da Europa e planeava, no ano seguinte, ir à Austrália. Se hoje voltasse a encontrá-lo, dir-lhe-ia que, provavelmente, não precisava de ir tão longe para encontrar o local perfeito para se fixar. Ali mesmo, na América do Norte, descobri recentemente no México uma pequena cidade onde inúmeros compatriotas seus vivem tranquilamente dos rendimentos. Refiro-me a San Miguel de Allende, que descobri quase por acaso numa viagem de três semanas pelo país de Carlos Fuentes e Chavela Vargas, a meio caminho entre Queretaro e Guanajuato, outras duas cidades cuja visita recomendo vivamente.

Provenientes de Queretaro, chegámos a San Miguel de Allende numa luminosa manhã de Novembro. O apinhado minibus que nos trouxe do terminal de autocarros até ao centro da cidade, por ruelas acidentadas, deixou-nos a poucos metros do hotel que escolhemos no «Guide du Routard». O Parador San Sebastián correspondeu totalmente à descrição do guia: «Muito bom hotel em estilo colonial com um bonito pátio interior que alegram muitas plantas, flores e alguns canários». O quarto era amplo, recentemente renovado e com uma boa casa de banho. E muito barato. Uma das vantagens de viajar pelo México são os preços, extremamente acessíveis (para nós europeus). O minibus, por exemplo, custou cerca de 30 cêntimos e pelo nosso quarto muito confortável não pagámos mais do que 20 euros.



Já eram quase duas da tarde e estava na altura de ir à procura do El Tomato, restaurante que alguém nos aconselhara referindo tratar-se de «um dos melhores restaurantes vegetarianos do mundo». Não era grande exagero: o acolhimento foi amável e o serviço copioso e de qualidade. Todos os produtos eram fresquíssimos e bem confecionados. Um regalo!

Enquanto esperávamos pela comida, um casal que já estava na sobremesa, vendo as nossas máquinas fotográficas em cima da mesa, meteu conversa connosco. Com uma pronúncia que denunciava a sua origem, a senhora perguntou-nos: «Vieram para o workshop de fotografia?». De seguida, sem que precisássemos de o perguntar, explicou-nos que eram de Calgary no Canadá e que vinham todos os anos passar férias em San Miguel onde, aliás, já tinham comprado uma casa que ainda estavam a remodelar e decorar.

Fundada em 1542, por um monge franciscano, numa região de serra árida onde antes apenas havia pastores, San Miguel de Allende fica no «coração do México» como acentua a edilidade local, que faz igualmente questão de sublinhar que a cidade é considerada património histórico do país.

Com somente 120 mil habitantes e situada a 1850 metros de altitude, San Miguel de Allende não tem grandes monumentos, nem museus a propor ao forasteiro. O seu encanto provém simplesmente da atraente harmonia das suas ruas estreitas e empedradas, com os seus palacetes elegantes e frondosos pátios, que lhe dão um charme único e irresistível. Foram, sem dúvida, estas características, aliadas a um clima privilegiado e à afabilidade dos seus habitantes (para já não falar da vida barata), que fizeram com que se fixassem aqui, nos anos 40 do século passado, os primeiros «ianques». Na maioria, eram artistas plásticos que vieram a San Miguel para seguir os cursos de arte mural ministrados pelo grande pintor Siqueiros, amigo e rival de Diego Rivera. Esses pioneiros atraíram seguidores e hoje vivem ali inúmeros estrangeiros que estão a recuperar as casas mais antigas (como o casal canadiano que conhecemos no El Tomato), não apenas para viver mas também para abrir restaurantes de todo o tipo, hóteis de charme, lojas de artesanato, bares atraentes e galerias de arte que poderiam perfeitamente situar-se em Nova Iorque, por exemplo.



Como na maioria das cidades mexicanas, o centro de San Miguel de Allende é o Zócalo, a praça principal que aqui é arborizada e ajardinada. Foi evidentemente por aí que começámos a nossa descoberta da cidade. À direita e à esquerda estão arcadas que abrigam cafés e restaurantes, nos topos encontram-se o museu regional e a igreja. O conjunto é notável e irradia um charme absolutamente irresistível que atrai a toda a hora o mais diverso tipo de pessoas, dos turistas aos vendedores ambulantes, passando por crianças saídas da escola e reformados sem mais nada para fazer senão observar quem aparece. Ao fim do dia, o espectáculo ganha ainda mais animação: começam a chegar os mariachis e os turistas acorrem a ouvi-los e fotografá-los.



Do Zócalo partem ruelas em todas as direcções. Vale a pena percorrê-las uma a uma para apreciar a arquitectura colonial e gozar a atmosfera serena em que banha toda a cidade. Aqui estamos longe da guerra dos cartéis que todos os dias ensanguentam o México. Longe do bulício infernal da capital do país, considerada uma das maiores e mais poluídas cidades do mundo. Tudo aqui é um regalo para os olhos e para o espírito e nem os polícias parecem polícias, mas sim figurantes de algum filme do Zorro, com as suas fardas vistosas e os seus garbosos cavalos.



De todos os monumentos da cidade, o mais importante e incontornável é a «Parroquia», a já citada Igreja de San Miguel Arcángel em face do Zócalo, concebida em 1880 por um pedreiro local chamado Zeferino Gutiérrez, cujas torres cor de rosa lembram vagamente a Sagrada Família de Barcelona. O interior da igreja não é particularmente notável (embora no México todas as igrejas sejam bonitas), mas a devoção das pessoas que a frequentam é verdadeiramente comovente.



Gostámos também de visitar o Museu histórico, instalado na casa natal de Ignacio Allende, o mentor, juntamente com Hidalgo, do movimento independentista mexicano. O Museu conta a história da região desde a época préhispânica até ao vice-reinado espanhol, enfatizando como não podia deixar de ser a fase da independência. Bem organizado, propõe paineis explicativos e mapas didáticos.

Igualmente obrigatória é uma passagem pela Escola de Belas Artes que abriga um importante Centro Cultural. O edifício em tons ocre é o antigo Convento de la Concepción, do séc. XVIII. O grande pátio resguarda árvores e plantas tropicais e as arcadas estão cobertas por cativantes murais, um dos quais de Siqueiros (infelizmente inacabado). As exposições temporárias têm entrada gratuita e é permitido o uso de câmaras fotográficas e máquinas de filmar.



Há outras igrejas e muitos edifícios que atraem a nossa atenção quando deambulamos pela cidade, como a Casa Umaran, uma das mais belas de San Miguel, também chamada Casa de los Perros porque uma das varandas está suportada por cães. Actualmente abriga uma loja de decoração e de arte popular, pelo que a entrada é livre. San Miguel de Allende é, de resto, um paraíso para as compras, sobretudo para quem gosta de velharias, arte e artesanato. Há lojas incrivéis por todo o lado, onde se corre o risco de ficar arruinado tal é a quantidade de objectos aliciantes, a preços módicos. Extremamente tentadoras são as lojas de antiguidades, recheadas de peças religiosas, como esculturas em madeira e ex-votos, por exemplo. Para comprar prendas originais e ainda mais baratas, o melhor é ir espreitar o Mercado e o Mercado de Artesanias, que ficam lado a lado.

quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

Caderno tailandês

A viagem à Tailândia, que teve lugar em Junho de 2002, começou por uma tentativa gorada de ir à Rússia. Era aí que queríamos ir (Moscovo, São Petersburgo e o chamado Triângulo Dourado), mas os imbecis da embaixada em Lisboa, recusaram-se a dar-nos os vistos, porque exigiam confirmações de todos os hoteis onde iríamos pernoitar no país. Como se isso fosse possível para viajantes como nós que vão improvisando os itinerários e as estadias ao sabor do momento. Na própria manhã em que isso sucedeu – e em algum outro momento vou ter que contar a odisseia das bichas junto ao consulado da Rússia em Lisboa – nessa própria manhã, dizia eu, decidimos ir à Tailândia e logo tratámos dos bilhetes na agência de viagem. Nessa mesma manhã, comprei dois livros sobre esse país e foi assim que começaram as férias, ainda em Lisboa, connosco na cama a ler os livros e a planear a viagem.
O que se segue são as páginas de um caderno que fui preenchendo nessas três semanas.

Dia 5 de Junho

O primeiro dia na Tailândia é para esquecer. Muitas horas de voo e um cansaço muito grande! A única coisa boa foi o jantar num restaurante perto do hotel que vinha aconselhado no Lonely Planet.

Dia 6

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Viajar até um país desconhecido é a única forma que conheço de voltar a olhar o mundo como se fosse a primeira vez. É como um regresso à infância. Mal cheguei ao aeroporto, comecei a ver coisas que nunca tinha visto. Cores, cheiros, rostos...

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Na estação de camionetas em Banguecoque, à quel nos dirigimos para viajar até Kho Chang, há 33 guichets para venda de bilhetes, todos ocupados por mulheres que se disputam furiosamente os clientes. Devem ser pagas à comissão, ou têm objectivos de vendas para cumprir, não sei, o que é certo é que nos chamam, todas ao mesmo tempo, com o braço estendido fora das janelinhas, com grandes acenos como se pudessem vender melhor e mais barato do que as concorrentes do lado. O que não é obviamente verdade, até porque, aparentemente, todas têm acesso ao mesmo sistema informático, onde verificaram horários e preços.
Seja como for, pareceu-me vão tentar entendê-las, pois há a maior dificuldade em comunicar. A maioria dos tailandeses com quem tivemos que conversar (no tuque-tuque, no táxi, no restaurante) falam um inglês aproximativo e rudimentar. O taxista que apanhámos para o terminal dos autocarros só sabia dizer «the taxi is good, the taxi is good», e repetiu-o o tempo todo que durou a viagem. Como o obrigámos a vir com o taximetro ligado, e não com um preço combinado previamente, como ele pretendia, nem saiu do carro para nos abrir a bagageira e retirar as mochilas. Para me vingar, também não lhe fechei a mala do carro, obrigando-o finalmente a sair para o fazer ele próprio.

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Chegámos a Ko Chang (uma ilha que ainda não atrai muitos turistas, segundo o Lonely Planet) já à noite. Foram cinco horas de camioneta até Trat (400 km) e depois mais 15 minutos numa carrinha aberta até ao porto, onde tivemos de esperar uma hora pelo barco. Já na ilha, em Tha Dan Kao, apanhámos outra carrinha de caixa aberta (espécie de táxi colectivo) que nos trouxe, com muitos outros passageiros, até Hat Sai Khao, onde fica o White Sand Beach Resort que, segundo os nossos guias (Lonely Planet e Guide du Routad) é o que oferece melhor relação qualidade-preço. Revelou-se, afinal, que o nosso Resort é o último da praia, pelo que tivemos de caminhar uma boa meia-hora pela areia numa escuridão quase total. A certa altura, pensámos mesmo em voltar para trás, mas ainda bem que persistimos. O bungalow de madeira é lindo e fica a escassos metros da água, num local paradisíaco, isolado. Custa apenas 200 bats, ou seja mil escudos por noite.

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Pormenores em que reparei ao longo da viagem:
As inúmeras escolas
Os hospitais
As estradas excelentes
A fruta. Camiões e camiões de fruta exótica, que nunca tinha visto, mas com ar apetitoso.
A floresta tropical, densíssima
Os bonecos nas bombas de gasolina: um manda entrar e o outro, à saída, agradece à boa maneira tailandesa, inclinando a cabeça com as mãos postas como para rezar
Os altares por todo o lado, de todas as cores possíveis

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Na camioneta, serviram uma coca-cola gelada em cada paragem. E no princípio da viagem um bolo, meio-queque, meio-mashmellow. No fim, um toalhete refrescante.

Dia 7

O vento provoca o mar que provoca a praia, numa fúria linda de se ver. Uma praia praticamente só para nós e uns patos que por ali andam em liberdade e que dão vontade de rir. Nas nossas costas, uma verdadeira muralha de verdura. A floresta tropical à tão densa, que não nos atreveríamos nunca a explorá-la.

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A ventoínha toda a noite.
A brisa.
O mosquiteiro com pensos, a tapar os buracos e os rasgões.
A barata, ou baratas que não consigo matar.
As formigas gigantes, castanhas.

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As fotografias que ontem não consegui fazer:
Um altar em cada esquina
As fábricas de altares
As saídas das escolas
Os camiões coloridos
Os desenhos de alguns camiões

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Depois de uma tarde magnífica na praia, às seis horas fomos ver o jogo Inglaterra-Argentina num bar da praia, onde conhecemos o Martin e a Hillary. Ele londrino de gema, ela australiana a viver em Londres. Acabámos por jantar com eles e ir beber um copo num pub muito psicadélico. Há dezenas de bares e restaurantes e todos têm ecrãs gigantes de televisão. A maioria propõe filmes a horas certas. Muitos turistas escolhem o bar, em função do filme que querem ver.

Dia 9

Situada a 8 km da costa, com 30 km de comprimento e 8 de largura, Kho Chang, a Ilha do Elefante (ou Ilha-Elefante?) é a segunda maior da Tailândia. Está quase totalmente coberta por floresta virgem, cerradíssima, com cascatas idílicas (como rezam os prospectos). As praias são magníficas.

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Tentei alugar uma mota para irmos dar um passeio pela ilha, mas caí várias vezes e desisti antes que me matasse. A Raquel riu a bandeiras despregadas. E eu fiquei furioso comigo mesmo por ser tão nabo.

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Ontem, quando voltámos ao nosso quarto, o «nosso» gatinho (um gato selvagem que se afeiçou logo a nós) estava à nossa espera e entrou connosco na cabana. Em boa hora o fez. Viu, antes de nós, uma cobra aos pés da cama e atacou-a imediatamente. Fui ajudá-lo, armado com uma vassoura, e conseguimos expulsar a cobra de casa. A Raquel ainda não estava refeita do susto, quando descobriu uma barata enorme. Tive a maior dificuldade em convencê-la a dormir no bungalow.

Mais tarde

Ayutthaya, depois de uma viagem que parecia nunca mais acabar, tanto mais que tivemos de nos levantar de madrugada para apanhar o barco em Kho Chang.
Jantámos no Malakov, um restaurante todo de madeira, arquitectonicamente lindo, com empregados muito jovens e simpáticos. Também na rua senti várias manifestações de simpatia: muitos sorrisos e alguns acenos discretos.
O hotel custa 500 bats (dois contos e quinhentos). O jantar custou-nos 200 bats e o comboio de Banguecoque para aqui (duas horas de viagem) 15 bats (75 escudos!). Uma pessoa aqui sente-se rica.

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Ayutthaya foi capital do país entre 1350 e 1767. Infelizmente, os invasores birmaneses destruiram tudo o que havia para destruir. Mesmo assim, as ruínas são imponentes e vale a pena passear no meio delas. É o caso do Wat Phra Sanphet, o primeiro monumento que visitámos.

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Aprendi há muito a não procurar imagens, mas a deixá-las vir até mim. É preciso estar muito atento. Vejo melhor o mundo desde que sou fotógrafo.

Dia 10

Fomos fazer uma viagem de barco pelos canais, mas choveu o tempo todo. Mesmo assim, valeu a pena. De resto visitámos mais cinco Wats, entre os quais o Mahathat, que tem o célebre rosto de um buda incrustado nas raízes de uma árvore (a foto aparece invariavelmente em todos os guias da Tailândia).

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A propósito do passeio de barco, vale a pena contar a história da rainha Sunada, a favorita do rei Rama V, que se afogou no rio porque o barco virou e os remadores nada puderam fazer para a jaudar. A lei proíbia-os de tocar membros da família real e, se tivessem tentado agarrar a rainha, teriam sido executados.

Dia 11

Ontem à noite, durante uma batalha campal contra duas lagartixas que impediam a Raquel de ir à casa de banho, parti um espelho. Nada que me tirasse o sono, no entanto, já que dormi, finalmente, que nem um justo.
Esta manhã, tal como planeado, alugámos duas bicicletas aqui mesmo no Hotel para ir dar a volta à ilha. Durante o passeio, tirei três rolos de fotografias: algumas crianças, alguns budas, paisagens e gente na rua. Almoçámos numa esplanada à beira-rio (muito bem) e, no final, a empregada trouxe-nos, com a conta, um desenho que nos representava, a mim e à Raquel, à mesa. Um desenho a lápis bastante conseguido, feito por uma empregada muito jovem, quase uma adolescente, a quem ofereci uma caneta, porque era a única coisa que lhe podia dar na altura, para além de uma generosa gorjeta.

Dia 12

No comboio sentou-se ao nosso lado um jovem tailandês que acabou por meter conversa connosco. Tem um bar em Banguecoque, ou trabalha num bar, não percebi bem. Com a sua ajuda, o velhote que vinha ao meu lado a tentar comunicar comigo, conseguiu finalmente perceber de onde vínhamos e para onde vamos, há quanto tempo estamos na Tailândia e quanto tempo mais pensamos ficar.Quando soube que nos dirigíamos para Kamphaeng Phet, sugeriu que saíssemos em Nakhon Sarvan e aí apanhássemos um autocarro. Revelou-se uma opção válida, embora o autocarro estivesse a cair de podre, com os assentos demasiados reclinados e impossíveis de endireitar. Aliás, tivemos um furo a meio do caminho e tivemos todos de sair do veículo, no meio do calor tórrido, para mudarem o pneu.
Enfim, mais uma viagem esgotante (cinco horas de comboio, mais duas e meia de autocarro).
Já em Kamphaeng Phet ainda tivemos de apanhar um táxi colectivo até ao Phet Hotel. No taxi vi um homem com uma moeda no ouvido, bem enfiada lá dentro. Que pena não ter podido tirar-lhe uma fotografia ou perguntar-lhe porque usava aquela moeda assim.
Junto do hotel estava uma mulher a vender uns fritos com ar delicioso. Quando percebeu o meu interesse, deu-me um a provar e eram simplesmente maravilhosos: uma espécie de mini-fartura, menos enjoativa. Comprámos um pacotinho e, mais tarde, quando regressámos ao hotel do nosso passeio, outro.
Enquanto passeávamos, passámos por um templo onde fotografei jovens monges que varriam o pátio. Todos com o cabelo rapadinho e túnicas cor de laranja, muito fotogénicas na verdade. Há monges muito jovens por todo o lado. Não deixa de ser espantoso.
Numa esplanada onde parámos para beber coca-cola com gelo, um outro sujeito meteu conversa connosco. Era baixinho, calvo e anafado e perguntou num inglês péssimo: «Posso sentar-me e conversar um pouco convosco?».
Fez-nos imensas perguntas e ensinou uns truques de magia à Raquel, explicando-nos que tinha sido pugilista durante vários anos e era agora professor de ginástica numa escola a seis quilómetros dali. Fiquei com vontade de conhecer melhor a sua história, mas, de repente, desculpou-se, afirmou que tinha de voltar para junto dos amigos, e foi-se embora, com muitas vénias. Todos dos dias nos têm acontecido coisas assim tão espantosas, tão inexplicáveis. Balanço entre o desejo de entender tudo e o encanto de não perceber nada.

Dia 13

Toda a manhã a ver templos. Andámos quilómetros para fotografar os 68 meio-elefantes do Wat Chang Rob, o buda de pé e outras maravilhas que fotografámos abundantemente. Pelo caminho vimos míudos a vender pássaros em gaiolas minúsculas e homens a pescar no meio do lodo, enterrados quase até ao pescoço.

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À tarde, o Shopping Center revelou-se uma desilusão: um imenso barracão decadente, cheio de tralha, com meia-dúzia de empregadas sem nada para fazer. Uma delas estava mesmo a dormir em cima de um balcão cheio de soutiens (mais uma foto engraçada que não fiz).
Ainda tivemos tempo de visitar um outro mosteiro, de que esqueci o nome, mas muito bonito, com várias pinturas a descrever episódios da vida de Siddharta.

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No mercado perto do Hotel, uma banca propunha um cão morto e outra um enorme lagarto esquartejado, para além de muitas rãs e também escaravelhos.

Dia 14

A viagem para Shukotai durou apenas uma hora. O nosso hotel é constituído por pequenos bungalows de madeira, parecidos com os de Kho Chang. À guisa de cama, um grande colchão no chão, com direito a mosquiteiro. Na casa de banho, as invariáveis lagartixas e, como o nossa cabana está no meio de um jardim luxuriante, ouvem-se todo o dia e toda a noite, como se estivessem dentro de casa, sapos e outros animais que não consigo identificar. Por 200 bats não se pode exigir mais.
Uma das empregadas fala muito bem inglês (o que é raríssimo aqui) e deu-nos dicas úteis. Como a de visitar um templo a sete quilómteros daqui, cheio de esculturas recriando cenas da mitologia local. Creio que ela lhe chamou «Templo dos Sonhos». Por coincidência, o jantar foi num restaurante chamado Dream Café.

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Segundo um dos meus guias, Sukhothai quer dizer «Crepúsculo da Felicidade», numa alusão a uma era mítica, sem dúvida. Sukhothai foi a primeira capital da Tailândia e possui um Parque Histórico interessantíssimo (que vamos visitar amanhã, antes de partir para Pitsannulok, a caminho de Chinag Mai, penúltima etapa da viagem).

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Uma das coisas em que nenhum turista de visita à Tailândia pode deixar de reparar é na quantidade de monges jovens. Agora sei porquê. A maioria destes monges é ordenada apenas por um curto período de tempo. Na realidade, quase todos os jovens tailandeses passam por isto, para «ganharem "prestígio" para os seus pais e avançarem o seu próprio desenvolvimento espiritual». Um dos rapazes com quem falei afirma: «Fiz quatro anos de sacerdócio: um para o meu pai, outro para a minha mãe, outro para a minha irmã e outro para mim». Adquiriu «prestígio» que se farta e agora é guia turístico.
Segundo um livro que li, existem actualmente cerca de 250 mil monges budistas na Tailândia, que residem em cerca de 30 mil templos. Mas também há aqui hindus, muçulmanos e católicos.

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Descobri dois frutos deliciosos: um chama-se rambutã, o outro, durian. E duas cervejas bem agradáveis: Singha e Chang. Como na canção de Marco Paulo, «não sei de qual gosto mais».

Dia 15

De manhã, fomos deixar as mochilas na «bus station» e fomos até ao Historical Park onde alugámos bicicletas. Bem merdosas, por sinal. A minha tinha o selim tão rijo que ainda sinto dores no rabo.
Para o fim de visita, caiu uma daquelas chuvas torrenciais que chegam sem se fazer anunciar. Em cinco minutos (o tempo que levámos a chegar a um abrigo) ficámos completamente encharcados.

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A Unesco subvencionou o arranjo deste Parque Histórico que cobre uma área de 70 km2, com relvados e pequenos lagos ornamentais. Lá dentro encontram-se pelo menos 20 grandes monumentos espalhados pela floresta. O maior deles é o Wat Mahathat, um templo magnífico dominado por um «chedi» em forma de flor de lotus. A base está decorada com figuras que retratam – segundo parece – discípulos de Buda.

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Em Pitsanulok – onde se encontra o Wat Phra Sri Ratana Mahathat, que o Lonely Planet assegura tratar-se de um monumento «fascinante, a não perder – não ficámos no hotel previsto logo ao lado da Estação (era uma espelunca infecta), mas num outro mais longe que custa 330 bats, com pequeno-almoço incluído. Junto ao rio, deparámos com um espectáculo inesperado e divertido: uma aula de aeróbica em plena rua, participada por largas centenas de pessoas de todas as idades. Mais tarde, o nosso passeio ao longo do rio Nan levou-nos até um restaurante flutuante – também recomendado pelo Lonely Planet – onde comemos muito bem. Estoirados de tanto andar, decidimos ir para a cama cedo, até porque a noite passada quase não consegui dormir por causa de uma bulha entre cães e gatos que toda a noite ladraram, ganiram e miaram, num chinfrim insuportável.

Domingo, 16

Uma velha de cigarro ao canto da boca, com um chapéu esquisitíssimo, puxa um búfalo que a segue relutantemente.
Via-a pela janela do comboio, a caminho de Chiang Mai (onde chegaremos lá para as dez da noite) e voltei a pensar, pela enésima vez nesta viagem: «As melhores fotos são as que não tiramos».
Em vez do prometido ar condicionado, o comboio tem muitas ventoínhas no tecto. Refresca um pouco, mas não é a mesma coisa. No entanto, é bem mais agradável do que o autocarro e, para nossa grande surpresa, serviram-nos almoço e lanche. Uma hospedeira, como nos aviões, zela pelo nosso bem estar. E tudo isto por 1500 paus.

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Se um dia fizer um filme que se passe na Tailândia, este comboio tem que entrar.

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Pela janela do comboio, acabo de ver um arbustro com a forma de um cão a saltar. O Eduardo Mãos-de-tesoura passou por aqui.

Mais tarde

Chiang Mai, finalmente! Acabámos por optar por um hotel mesmo à entrada da «Old City», no «Main Square». Por ser domingo, a rua principal estava vedada ao trânsito e repleta de feirantes. Um verdadeiro mercado nocturno alternativo, muito colorido e divertido, com alguns artistas de circo a animar os transeuntes. Um belíssimo comité de recepção e uma agradável surpresa. O quarto, após negociação, ficou por 400 bats. Tem água quente, duche, ar condionado e até TV por cabo e frigirífico.

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Situada a cerca de 700 km da capital, Chiang Mai é, sem dúvida, uma das principais razões para vir à Tailândia. Todas as pessoas que conheço que já vieram a este país assim o afirmam. A curiosidade é grande e as primeiras impressões confirmam que estamos, de facto, numa cidade muito interessante. Na rua são já visíveis alguns nativos de minorias étnicas (as suas feições não mentem) que aqui vêm vender o seu artesanato, vestidos com vestes tradicionais. De resto, há aqui muito mais estrangeiros do que em Pitsanulok ou Sukhothai.

Dia 17

Primeiro dia em Chiang Mae (ou Mai, tanto faz) e já uma orgia de compras. De manhã, alugámos bicicletas (40 bats por dia) e visitámos os três Wats principais: Phra Singh, Chedi Luang e Chiang Man. Pelo caminho não aprei de tirar fotografias, já perdi a conta ao número de rolos que comprei desde que estou neste país. Lembro-me particularmente de uma menina a comer esparguete verde no meio da rua. Tinha uns olhos inesquecíveis.
Depois do almoço, fiz a vontade à Raquel e fomos para o maior Shopping da cidade, onde comprei uns calções e uma camisa muito engraçada para usar fora das calças, de azul forte com peixes brancos desenhados. À noite, já no «night bazar» comprei uma t-shirt com macacos, um buda pequenino e uma marioneta muito gira, para além de umas calças para o Daniel e umas «coçadeiras» para oferecer aos amigos. A Tailândia é o paraíso das compras, não há nada a fazer.

Dia 18

Um dia calmo. De manhã, fomos reservar os bilhetes para Banguecoque. De hoje a três dias, lá vamos nós às 4 da tarde, em couchette de segunda classe com ar condicionado. Depois, negociámos com um taxi uma ida, amanhã, a uma Escola de Elefantes (o verdadeiro nome é Centro de Treino de Jovens Elefantes), a 37 quilómetros daqui. 1200 bats com a promessa de várias paragens pelo caminho para visitarmos outros locais de interesse.

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O resto do dia foi passado a passear de bicicleta por sítios onde ainda não tínhamos ido. Está a decorrer o Campeonato do Mundo de futebol e não há nenhuma loja, nenhuma tenda, mesmo modesta, que não tenha uma televisão, grande ou pequena. Muitos restaurantes têm mesmo várias. Os cozinheiros trabalham a ver televisão, e também os artesãos e os vendedores de rua. É impressionante. À minha frente, por exemplo, está numa casota (mínima) de câmbios uma rapariga que tem uma tv enorme mesmo junto ao ecrã do computador.

Dia 19

Dormi mal, muito mal mesmo. A preocupação de acordar cedo também não ajudou. Uma hora antes do telemóvel tocar (uso-o como despertador) já eu estava de pé. Ainda não eram sete horas. Como sempre, sonhei imenso no pouco tempo que passei pelas brasas. Lembro-me que sonhei com colegas de trabalho e que eu tocava saxofone muito bem (não foi, de resto, a primeira vez que isto aconteceu e sempre que acontece faz-me feliz).
Às oito e meia em ponto, lá estava o nosso guia à porta, prontíssimo e apressado, pois era imperioso, segundo ele, lá chegarmos antes das 9h45 para assistir ao banho dos elefantes.
Efectivamente um espectáculo digno de ser ver.
Seguiu-se um show com os elefantes que são muito engraçados, dóceis e bem ensinnados. Foram treinados para transportar árvores abatidas mas, agora que esse trabalho já não se justifica, pois há máquinas para o fazer, ensinam-nos a tocar música e a pintar, entre outras habilidades. Os turistas compram os quadros pintados pelos elefantes e cachos enormes de bananas para lhes dar.
Antes de nos virmos embora, visitámos a maternidade dos elefantes, onde estava um recém-nascido e o hospital com várias enfermarias, mas onde só estava um animal.
A propósito dos elefantes, não resisto a citar alguns factos. Na Tailândia, o elefante goza de um estatuto de fazer inveja a qualquer trabalhador português: 3 dias de trabalho, três dias de descanço, três meses de férias e reforma aos 60 anos. Frequentam a escola durante seis anos, comem cerca de 200 quilos de verduras por dia e bebem 240 litros de água.

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No caminho de regresso, parámos em vários locais incriveis. O primeiro era à beira da estrada, onde estão dois tronos de dois reis antigos, o de Lampang e o de Lamphun. Antes guerreavam-se, hoje são venerados como deuses, tanto um como o outro. Os seus tronos estão rodeados de milhares de altares oferecidos pelas pessoas que lá vão pedirem sorte no jogo. Se lhes sai um prémio na lotaria, oferecem um altar ou um animal de barro: elefante, cavalo ou tigre, por exemplo. Alguns dos altares são novinhos em folha, mas também os há muito antigos, já meio em ruínas. Todos estão muito bem decorados, com flores e figurinhas de barro e o conjunto é impressionante. De súbito, apareceu uma cobra viva a nossos pés e o nosso guia aconselhou-nos a sair dali.

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Na etapa seguinte, parámos junto a um mercado na floresta. São os aldeões que vivem na selva que ali vêm vender os seus produtos: fruta, legumes, cogumelos, mas também peixes de rio (que se encontram vivos dentro de sacos de plástico). O mais impressionante, para nós europeus, são os vendedores de lagartos gigantes, insectos vários e rãs de todos os tamanhos. Numa das barracas, uma mulher grelhava sapos para vender como petisco.

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Depois do mercado, fomos a Lampang visitar um grande templo, com gravuras magníficas, das mais bonitas que já vi. Numa banca comprámos um Buda que esconde o rosto entre as mãos. Foi a Raquel que mo ofereceu (na véspera eu tinha-lhe oferecido um fio de prata muito bonito). Quando apareci no mercado, váriosvendedores começaram a chamar-me «Zidane», sem dúvida porque sou careca como ele. «Zidade, Zidane», chamavam, com grandes gestos. Provavelmente, aqui, como na Índia, ser careca é sinal de riqueza. Todos queriam que lhes comprasse qualquer coisa.
Finalmente, antes de nos trazer de regresso ao hotel, o taxista ainda nos levou a visitar uma fábrica de lacas, uma de pratas e outra de sedas. Não há como fugir-lhes!

Dia 20

Outro dia em cheio. Logo pela manhã vieram buscar-nos ao hotel numa carrinha onde já estavam uma senhora e a sua filha. Canadianas. A mãe chama-se Jane e a filha Janice. A seguir fomos buscar outras duas passageiras: duas inglesas chamadas Jane e Allie, mais ou menos com a idade da Raquel. E finalmente, junto dum hotel luxuoso, embarcaram um casal britânico, John e Paula. Ele contabilista, ela esteticista e ambos quarentões.
A aventura propriamente dita começou com o «elephant ridding», um percurso acidentado pela floresta nas costas de um elefante enorme. O nosso «condutor de elefantes» destacava-se dos outros por ser o mais louco. Na realidade, parecia completamente chanfrado. Não parou quieto nem por um segundo. Tão depressa estava em cima do elefante connosco, como descia para nos seguir a pé. Falava sozinho, cantava, metia-se com toda a gente. A certa altura, colocou o nosso elefante à frente da coluna e abandonou-nos. Fizemos, assim, uma boa parte do trajecto sem ele.
Tirando um momento, em que o animal sentiu fome e decidiu ir comer uns arbustros fora do trilho, numa zona bastante perigosa, por ser um declive, correu tudo bem. A sensação de estar lá em cima é fabulosa. Uma pessoa sente-se um rei. E tirando as partes em que se descem declives acentuados (o que aconteceu umas três vezes naquela hora), sentimo-nos muito seguros.
Um fotógrafo local tirou-nos uma foto em cima do elefante, que ficou muito gira.
Abandonados os elefantes, fizemos um percurso a pé, sempre a subir, pelo meio de uma floresta densa, até uma aldeia Mohng. Um sítio inenarrável, com muitas bancas de artesanato e uma tasca infecta sem o menor interesse. Em seguida, voltámos pelo mesmo caminho até ao local onde nos esperava a carrinha, que nos levou a uma outra aldeia na montanha onde almoçámos. Uma comida simples, mas agradável: sopa, arroz vegetariano e melancia.
Seguimos, então, para a aldeia Karen, esta sim, uma verdadeira aldeia de montanha, habitada e viva. Mas, até por isso mesmo, senti-me mal: as pessoas estão ali a fazer a sua vida de todos os dias e os turistas passeiam no meio delas como se estivessem num zoo com as suas câmaras indiscretas, sem possibilidade de comunicação, pois ninguém fala inglês. São, de resto, extremamente pobres: as casas são de madeira, muito rudimentares. A aldeia está mergulhada em lama, com porcos pretos e gatos por todo o lado. É de uma desolação tal que não cheguei a fazer fotografias. Tinha vergonha por eles. É como visitar um zoo humano, é degradante para eles e para nós.
A etapa seguinte foram as «water falls» pelas quais toda a gente esperava ansiosamente, devido à promessa de que era possível lá tomar banho. Efectivamente, todos aproveitámos para nos refrescar e fazer fotografar em fato de banho, debaixo da cascata. Apesar do local ser particularmente escorregadio, foi muito divertido, tal como a descida de rio que se seguiu. As jangadas, de bambu, revelaram-se muito diferentes do que eu tinha imaginado. Muito estreitas e compridas, permitiam quatro passageiros cada uma, mais o condutor. A mim coube-me o papel de segundo condutor, pelo que fiquei de pé o tempo todo, com uma vara enorme na mão, encarregue de ajudar a embarcação a manter-se bem no centro do rio. Um rio não muito largo (uns dez metros de largura), mas cheio de rochedos e outros acidentes de percurso. Os sítios onde dava mais gozo passar eram, naturalmente, os «rápidos», onde por duas ou três vezes estive quase a desequilibrar-me. Mas correu tudo bem.

21 e 22

O comboio para Banguecoque leva 14 longas horas. Ainda por cima, nunca apagam a luz durante a noite. Não consegui dormir quase nada. Por causa da luz, do barulho e do frio (o ar condicionado estava mal regulado).

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O dia foi aproveitado para visitar o Grande Palácio (e o Templo do Buda Esmeralda) e os Wats Phra Kei e Arun (do outro lado do canal). Para visitar o Palácio e o respectivo tempo a Raquel teve que alugar camisa, saia comprida e sandálias. Não se pode andar de calções e ombros descobertos. O sacrifício vale a pena, o local é esplenderoso. Do Buda – uma estátua de 75cm de altura feita de jaspe verde – diz-se que é «o emblema da nação», «a alma da Tailândia». E conta-se que foi descoberto em Chiang Rai, em 1436, quando um raio «destruiu um chedi para revelar a estátua escondida no seu interior».

Dia 23

Li que um em cada oito tailandeses vive em Banguecoque e que mais de 80% dos veículos a motor do país estão aqui registados. Os mesmos números indicam que mais de 50% dos residentes são de origem chinesa. Entre os muitos nomes de Banguecoque figura o de Krung Thep, «Cidade dos Anjos». Também há quem lhe chame «Repositório Supremo das Jóias Divinas».

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Todo o dia no incrível e imenso mercado de Chatuchank. Das 11 da manhã às 7 da tarde, um verdadeiro festival de compras. Nunca tinha comprado tanta coisa num só dia: 5 camisas, 3 t-shirts, um par de chinelos e uns ténis All Star. Também para a Raquel foi uma desbunda. Foi de tal ordem que tivemos que comprar um saco enorme para transportar a tralha toda.

Dia 24

Penúltimo dia (nem quero pensar nisso). Fomos ver o Wat Po (Templo do Buda Deitado), Chinatown e fazer um passeio de barco, melhor dizendo de piroga, pelos canais, os famosos «klongs». Depois ainda tivemos tempo para um mergulho na piscina do hotel e ir ao Central Departement Store, fazer umas últimas compras. No regresso doíam-me tanto os pés que decidi ir fazer finalmente uma massagem para experimentar. Uma hora de massagem aos pés, com um massagista (gay?) que tão depressa me aleijava como me fazia rir!

25 e 26

O último dia foi bem aproveitado. Começámos por dar um mergulho na piscina, ainda antes do pequeno almoço e fomos visitar a lindíssima casa do lendário Jim Thompson, uma obra-prima arquitetónica com um jardim belíssimo e uma decoração de extremo bom gosto. Depois fomos ver o Palácio Vimanmek, que se diz ser «a maior mansão do mundo em teca dourada». Tivemos sorte e vimos lá um magnífico espectáculo de dança tailandesa tradicional («lakhon»).

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Paul Valery dizia que os poemas nunca se acabam, apenas se interrompem. O mesmo se poderia dizer de algumas histórias de amor e das maior parte das viagens. Raramente levei uma viagem até ao fim, até ao ponto de dizer “estou farto deste país, quero ir-me embora”. Mas já estou a pensar no próximo destino. A Raquel quer ir para Nova Iorque.

A prisão de Mandela

A Robben Island é minúscula (cerca de seis quilómetros quadrados) e bastante árida. No entanto, é um dos locais mais visitados pelos turistas que se deslocam à Cidade do Cabo, pois foi ali que Nelson Mandela - que viria a tornar-se, após trinta anos de cativeiro, no primeiro Presidente eleito democraticamente da África do Sul - passou 18 anos da sua vida. Utilizada como prisão de alta segurança, pelo menos desde o século XVII, Robben Island foi declarada «Património da Humanidade» pela UNESCO. Em 2003, na altura em que por lá passei, o local voltou a estar na ordem do dia, graças à acção promovida por Madiba (como o povo chama carinhosamente ao seu ex-presidente) que reuniu na Cidade do Cabo uma plêiade de músicos ilustres (gente como Bono, The Edge, Peter Gabriel, Dave Stewart, Annie Lennox, Brian May e tantos outros), a fim de atrair a atenção do mundo para a sua nova (e urgente) luta: combater o flagelo da SIDA em África.

Visitei «a ilha maldita» na companhia de Indres Naidoo, um dos muitos companheiros de cativeiro de Mandela, que nos explicou: «46664, o número de que toda a gente fala agora, deve ler-se na realidade 466/64, sendo que os últimos dois algarismos indicam o ano em que o nosso líder foi preso». Logo a seguir, acrescenta, sem disfarçar o orgulgo: «Eu era o 885/63, o que quer dizer que fui preso um ano antes».

Este sul-africano de origem indiana, cujo pai foi amigo de Gandhi, assegura que foi apanhado em consequência de uma armadilha montada com a cumplicidade de um colega. Tentava dinamitar uma linha de caminho-de-ferro e ficou ferido por uma bala. Mais tarde, em consequência da tortura e dos maus tratos que sofreu na prisão, ficou surdo de um ouvido e hoje é preciso gritarmos com ele se nos quisermos fazer entender.

Traído por um camarada de partido, Indres Naidoo cumpriu uma pena de dez anos de trabalhos forçados. Com o fim do Apartheid, foi nomeado senador do Parlamento Nacional, mas agora está reformado. Como muitos dos seus antigos companheiros de prisão, parece ter uma necessidade quase doentia de evocar as condições em que viveu em Robben Island.
Antecipando-se à nossa pergunta assegura: «Não, não me importo nada de aqui voltar. Na verdade, penso que enfrentar o passado é uma forma de nos renovarmos.»

A visita guiada começa logo ao sair do barco. No cais estão fotos antigas, muito ampliadas, que documentam as condições em que os presos eram transportados, ligados uns aos outros por cadeias pesadíssimas. Em 1963, quando Indres ali chegou, a prisão tinha um aspecto muito diferente do que tem actualmente.

«Estes edifícios todos foram construídos por nós, ao longo dos anos», explica o nosso anfitrião. «À chegada davam-nos uma colher de pau, um bocado de sabão azul, e um farrapo que fazia de toalha. Os sapatos eram escolhidos ao calhas, por vezes ficávamos com um número 43 para um pé e um 41 para o outro. Com a roupa era a mesma coisa: a um preso alto podiam dar números pequenos e a um baixinho umas calças e uma camisola enormes.»

Nesse tempo, encontravam-se em Robben Island muito presos de delito comum. Ladrões, assassinos, violadores, organizados em «gangs», que se guerreavam constantemente. «As autoridades pensavam que com a sua bestialidade, juntamente com a dos guardas, nos conseguiriam quebrar. Mas como éramos uma centena de presos políticos, eles não se metiam connosco e, na verdade, aconteceu o contrário do que os guardas pretendiam. A nossa determinação e consciência política começou a conquistar adeptos junto dos criminosos, pelo que as autoridades optaram por os retirar pouco a pouco da ilha, que acabou destinada exclusivamente aos presos políticos, sobretudo do ANC e do PAC (Pan-Africanist Congress).»

Num tom calmo, mas vivo, que trai uma real emoção, Indres evoca a brutalidade dos guardas e o médico da prisão, um tal dr. Van den Bergen, que examinava os presos à chegada. «Examinava-nos à distância, obrigando-nos a abrir a boca e a afastar as pernas com um bastão, para nos dar, invariavelmente, como aptos para todo o serviço, mesmo se alguns de nós sofriam de asma, ou de insuficiências cardíacas e respiratórias.» Ao falar do médico, aflora uma ponta de ódio na sua voz. No entanto, afirma que não guarda nenhum rancor aos seus carcereiros, nem mesmo àqueles que o maltrataram. E assegura que nunca procurou revê-los, ou vingar-se de alguma maneira.

Os piores momentos eram passados nas pedreiras. Condenados a trabalhos forçados, todos tinham objectivos a cumprir. «No final do dia, os guardas mediam a quantidade de pedra partida e se não tivéssemos atingido as quotas estipuladas podíamos ser privados de comida.» Entre as cenas que mais o impressionaram, num desses locais, conta-se a de um preso de delito comum que um dia enterraram na terra até ao pescoço. E sobre quem um guarda acabou por urinar, dizendo. «Tens sede? Então toma lá 'whisky' do melhor.»

Muitas histórias deste calibre foram vividas por Indres Naidoo, Nelson Mandela e companheiros. Para conhecer melhor esta realidade, recomenda-se a leitura da autobiografia de Mandela, A Long Way To Freedom. Segundo Indres Naidoo (que também escreveu um livro, que nos recomenda com muito empenho), essa autobiografia foi parcialmente escrita ali mesmo, na cela 5 do Bloco C, em folhas de papel higiénico.

O pequeno barco que liga a Cidade do Cabo à ilha leva mais ou menos meia hora para percorrer os 12 quilómetros. Há visitas guiadas todos os dias, que permitem visitar as várias instalações da prisão e a igreja, mas também o cemitério dos leprosos e o campo onde os presos iam partir pedra. Não é preciso ter muita imaginação, para sentir real compaixão pelos muitos milhares de almas penadas por ali passaram desde o século XVI.

Fotografia e Viagem



Viajar e fotografar são duas das coisas que mais gosto de fazer na vida. Para mim, são prazeres quase inseparáveis um do outro. Do mesmo modo que não me imagino a viajar sem, pelo menos, uma máquina fotográfica, de que cada vez que me disponho a fotografar é como se embarcasse para uma terra estranha. Mesmo em Lisboa, mesmo em casa, quando saio para a rua para fotografar, transformo-me instantaneamente num turista. Turista sim, não tenho medo da palavra. Faz-me rir a conotação negativa que ela ganhou e a presunção com que algumas pessoas reivindicam: «Eu não sou turista, sou um viajante». Esquecem que há mil formas de fazer turismo e outras tantas de ser viajante. Nem todos os turistas andam atrás de postais ilustrados, nem todos os viajantes estão animados das melhores intenções. Além de que para se ser viajante são precisas, pelo menos duas coisas, que poucos têm: muito tempo e muito dinheiro (ou uma profissão que implique viajar, é claro).
Adiante.



A fotografia exerce sobre mim um fascínio da mesma ordem que a viagem. Podia racionalizar à exaustão este paralelo, mas fico-me só pelo facto de ambas implicarem um desejo insaciável de ver e descobrir não se sabe bem o quê. Viajar e fotografar implicam uma atenção extrema e desfechos imprevisíveis. Num caso como no outro nunca sabemos o que vamos ver ou sentir.



Quando acabamos uma viagem, a única coisa que fica são o que compramos e as fotografias. É por isso que são as duas actividades preferidas dos turistas. Tudo o resto (as paisagens magníficas, os templos espectaculares, a gastronomia sofisticada, as conversas de rua) acaba por parecer um sonho, pois se escapa por entre os dedos, como água ou areia. Não fomos feitos para possuir nada: tudo o que podemos fazer é esquecer e sonhar.



A vida é, com efeito, um sonho que podemos fotografar. Em contrapartida, das minhas aventuras oníricas, nunca consegui trazer uma imagem. Quanto muito, algumas palavras.



Como fotógrafo, por vezes gostaria de fotografar o que já não existe. Ou o que ainda não existe. É o que tentamos fazer quando fotografamos ruínas, por exemplo, ou uma paisagem onde virá a ser construído um aeroporto ou um condomínio de luxo. Como seria interessante poder tirar fotos da antiguidade, da idade média e, já agora, do futuro. Viajar no tempo... isso sim, seria viajar.



Não sou muito original: gostaria de ver o mundo todo antes de morrer. Adoraria dar a volta à prisão, como dizia Margueritte Yourcenar que considerava o nosso planeta um enorme presídio. Com toda a razão: aprisionados neste mundo, condenados à morte, esperamos a nossa hora de descobrir a verdade. Ou de simplesmente desaparecer. O castigo é esse: não sabermos o que nos espera. Mas supondo que há vida depois da morte, uau... que viagem!

Fotos (de cima para baixo): Cabo Verde, Egipto, Japão, Holanda, Dubai e Malta

Seychelles à vol d'oiseau

Uma ilha aqui, outra ali, uma montanha luxuriante e nuvens quanto baste. O paraíso afinal é pouca coisa e a beleza é essencialmente uma questão de doseamento. Nem mais, nem menos.

Como dizia Rimbaud, a eternidade é feita de sol e mar. Não era bem isto que ele dizia, mas mesmo assim: se a eternidade existe é esta história de amor entre o sol e o mar.

Aqui estou eu, portanto, feliz de me sentir feliz, tão contente que só consigo escrever disparates. Pessoa dizia que todas as cartas de amor são ridículas. Pois bem, também os textos de viagem o podem ser pelos vistos.

Azul, o mar também pode ser verde, ou prateado, ou mesmo não ter cor. Hoje vi um mar tão transparente que parecia água da torneira.

Onde quer que vás, a montanha, coberta por uma floresta densíssima – variada e selvagem – parece um ser vivo, um gigante petrificado. Um monstro benevolente em cuja carne excrecências verdes irrompem constantemente. São milhões de línguas verdes sequiosas, à procura do sol. De resto, chove copiosamente.

Mil formas, uma única força.

O sol e a chuva parecem envolvidos numa competição sem quartel. Vem a chuva e molha-nos, vem o sol e seca-nos, até que a chuva volte de novo e assim sucessivamente.






Seychelles, 2006