Textos e fotos de Jorge Lima Alves

domingo, 22 de fevereiro de 2009

San Miguel de Allende

Um americano que conheci na Tailândia confidenciou-me que uma das razões que o levava a viajar pelo mundo era o desejo de encontrar um sítio onde lhe apetecesse passar o resto da sua vida. À beira da reforma, o senhor já visitara grande parte da Ásia e da Europa e planeava, no ano seguinte, ir à Austrália. Se hoje voltasse a encontrá-lo, dir-lhe-ia que, provavelmente, não precisava de ir tão longe para encontrar o local perfeito para se fixar. Ali mesmo, na América do Norte, descobri recentemente no México uma pequena cidade onde inúmeros compatriotas seus vivem tranquilamente dos rendimentos. Refiro-me a San Miguel de Allende, que descobri quase por acaso numa viagem de três semanas pelo país de Carlos Fuentes e Chavela Vargas, a meio caminho entre Queretaro e Guanajuato, outras duas cidades cuja visita recomendo vivamente.

Provenientes de Queretaro, chegámos a San Miguel de Allende numa luminosa manhã de Novembro. O apinhado minibus que nos trouxe do terminal de autocarros até ao centro da cidade, por ruelas acidentadas, deixou-nos a poucos metros do hotel que escolhemos no «Guide du Routard». O Parador San Sebastián correspondeu totalmente à descrição do guia: «Muito bom hotel em estilo colonial com um bonito pátio interior que alegram muitas plantas, flores e alguns canários». O quarto era amplo, recentemente renovado e com uma boa casa de banho. E muito barato. Uma das vantagens de viajar pelo México são os preços, extremamente acessíveis (para nós europeus). O minibus, por exemplo, custou cerca de 30 cêntimos e pelo nosso quarto muito confortável não pagámos mais do que 20 euros.



Já eram quase duas da tarde e estava na altura de ir à procura do El Tomato, restaurante que alguém nos aconselhara referindo tratar-se de «um dos melhores restaurantes vegetarianos do mundo». Não era grande exagero: o acolhimento foi amável e o serviço copioso e de qualidade. Todos os produtos eram fresquíssimos e bem confecionados. Um regalo!

Enquanto esperávamos pela comida, um casal que já estava na sobremesa, vendo as nossas máquinas fotográficas em cima da mesa, meteu conversa connosco. Com uma pronúncia que denunciava a sua origem, a senhora perguntou-nos: «Vieram para o workshop de fotografia?». De seguida, sem que precisássemos de o perguntar, explicou-nos que eram de Calgary no Canadá e que vinham todos os anos passar férias em San Miguel onde, aliás, já tinham comprado uma casa que ainda estavam a remodelar e decorar.

Fundada em 1542, por um monge franciscano, numa região de serra árida onde antes apenas havia pastores, San Miguel de Allende fica no «coração do México» como acentua a edilidade local, que faz igualmente questão de sublinhar que a cidade é considerada património histórico do país.

Com somente 120 mil habitantes e situada a 1850 metros de altitude, San Miguel de Allende não tem grandes monumentos, nem museus a propor ao forasteiro. O seu encanto provém simplesmente da atraente harmonia das suas ruas estreitas e empedradas, com os seus palacetes elegantes e frondosos pátios, que lhe dão um charme único e irresistível. Foram, sem dúvida, estas características, aliadas a um clima privilegiado e à afabilidade dos seus habitantes (para já não falar da vida barata), que fizeram com que se fixassem aqui, nos anos 40 do século passado, os primeiros «ianques». Na maioria, eram artistas plásticos que vieram a San Miguel para seguir os cursos de arte mural ministrados pelo grande pintor Siqueiros, amigo e rival de Diego Rivera. Esses pioneiros atraíram seguidores e hoje vivem ali inúmeros estrangeiros que estão a recuperar as casas mais antigas (como o casal canadiano que conhecemos no El Tomato), não apenas para viver mas também para abrir restaurantes de todo o tipo, hóteis de charme, lojas de artesanato, bares atraentes e galerias de arte que poderiam perfeitamente situar-se em Nova Iorque, por exemplo.



Como na maioria das cidades mexicanas, o centro de San Miguel de Allende é o Zócalo, a praça principal que aqui é arborizada e ajardinada. Foi evidentemente por aí que começámos a nossa descoberta da cidade. À direita e à esquerda estão arcadas que abrigam cafés e restaurantes, nos topos encontram-se o museu regional e a igreja. O conjunto é notável e irradia um charme absolutamente irresistível que atrai a toda a hora o mais diverso tipo de pessoas, dos turistas aos vendedores ambulantes, passando por crianças saídas da escola e reformados sem mais nada para fazer senão observar quem aparece. Ao fim do dia, o espectáculo ganha ainda mais animação: começam a chegar os mariachis e os turistas acorrem a ouvi-los e fotografá-los.



Do Zócalo partem ruelas em todas as direcções. Vale a pena percorrê-las uma a uma para apreciar a arquitectura colonial e gozar a atmosfera serena em que banha toda a cidade. Aqui estamos longe da guerra dos cartéis que todos os dias ensanguentam o México. Longe do bulício infernal da capital do país, considerada uma das maiores e mais poluídas cidades do mundo. Tudo aqui é um regalo para os olhos e para o espírito e nem os polícias parecem polícias, mas sim figurantes de algum filme do Zorro, com as suas fardas vistosas e os seus garbosos cavalos.



De todos os monumentos da cidade, o mais importante e incontornável é a «Parroquia», a já citada Igreja de San Miguel Arcángel em face do Zócalo, concebida em 1880 por um pedreiro local chamado Zeferino Gutiérrez, cujas torres cor de rosa lembram vagamente a Sagrada Família de Barcelona. O interior da igreja não é particularmente notável (embora no México todas as igrejas sejam bonitas), mas a devoção das pessoas que a frequentam é verdadeiramente comovente.



Gostámos também de visitar o Museu histórico, instalado na casa natal de Ignacio Allende, o mentor, juntamente com Hidalgo, do movimento independentista mexicano. O Museu conta a história da região desde a época préhispânica até ao vice-reinado espanhol, enfatizando como não podia deixar de ser a fase da independência. Bem organizado, propõe paineis explicativos e mapas didáticos.

Igualmente obrigatória é uma passagem pela Escola de Belas Artes que abriga um importante Centro Cultural. O edifício em tons ocre é o antigo Convento de la Concepción, do séc. XVIII. O grande pátio resguarda árvores e plantas tropicais e as arcadas estão cobertas por cativantes murais, um dos quais de Siqueiros (infelizmente inacabado). As exposições temporárias têm entrada gratuita e é permitido o uso de câmaras fotográficas e máquinas de filmar.



Há outras igrejas e muitos edifícios que atraem a nossa atenção quando deambulamos pela cidade, como a Casa Umaran, uma das mais belas de San Miguel, também chamada Casa de los Perros porque uma das varandas está suportada por cães. Actualmente abriga uma loja de decoração e de arte popular, pelo que a entrada é livre. San Miguel de Allende é, de resto, um paraíso para as compras, sobretudo para quem gosta de velharias, arte e artesanato. Há lojas incrivéis por todo o lado, onde se corre o risco de ficar arruinado tal é a quantidade de objectos aliciantes, a preços módicos. Extremamente tentadoras são as lojas de antiguidades, recheadas de peças religiosas, como esculturas em madeira e ex-votos, por exemplo. Para comprar prendas originais e ainda mais baratas, o melhor é ir espreitar o Mercado e o Mercado de Artesanias, que ficam lado a lado.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Caderno tailandês

A viagem à Tailândia, que teve lugar em Junho de 2002, começou por uma tentativa gorada de ir à Rússia. Era aí que queríamos ir (Moscovo, São Petersburgo e o chamado Triângulo Dourado), mas os imbecis da embaixada em Lisboa, recusaram-se a dar-nos os vistos, porque exigiam confirmações de todos os hoteis onde iríamos pernoitar no país. Como se isso fosse possível para viajantes como nós que vão improvisando os itinerários e as estadias ao sabor do momento. Na própria manhã em que isso sucedeu – e em algum outro momento vou ter que contar a odisseia das bichas junto ao consulado da Rússia em Lisboa – nessa própria manhã, dizia eu, decidimos ir à Tailândia e logo tratámos dos bilhetes na agência de viagem. Nessa mesma manhã, comprei dois livros sobre esse país e foi assim que começaram as férias, ainda em Lisboa, connosco na cama a ler os livros e a planear a viagem.
O que se segue são as páginas de um caderno que fui preenchendo nessas três semanas.

Dia 5 de Junho

O primeiro dia na Tailândia é para esquecer. Muitas horas de voo e um cansaço muito grande! A única coisa boa foi o jantar num restaurante perto do hotel que vinha aconselhado no Lonely Planet.

Dia 6

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Viajar até um país desconhecido é a única forma que conheço de voltar a olhar o mundo como se fosse a primeira vez. É como um regresso à infância. Mal cheguei ao aeroporto, comecei a ver coisas que nunca tinha visto. Cores, cheiros, rostos...

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Na estação de camionetas em Banguecoque, à quel nos dirigimos para viajar até Kho Chang, há 33 guichets para venda de bilhetes, todos ocupados por mulheres que se disputam furiosamente os clientes. Devem ser pagas à comissão, ou têm objectivos de vendas para cumprir, não sei, o que é certo é que nos chamam, todas ao mesmo tempo, com o braço estendido fora das janelinhas, com grandes acenos como se pudessem vender melhor e mais barato do que as concorrentes do lado. O que não é obviamente verdade, até porque, aparentemente, todas têm acesso ao mesmo sistema informático, onde verificaram horários e preços.
Seja como for, pareceu-me vão tentar entendê-las, pois há a maior dificuldade em comunicar. A maioria dos tailandeses com quem tivemos que conversar (no tuque-tuque, no táxi, no restaurante) falam um inglês aproximativo e rudimentar. O taxista que apanhámos para o terminal dos autocarros só sabia dizer «the taxi is good, the taxi is good», e repetiu-o o tempo todo que durou a viagem. Como o obrigámos a vir com o taximetro ligado, e não com um preço combinado previamente, como ele pretendia, nem saiu do carro para nos abrir a bagageira e retirar as mochilas. Para me vingar, também não lhe fechei a mala do carro, obrigando-o finalmente a sair para o fazer ele próprio.

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Chegámos a Ko Chang (uma ilha que ainda não atrai muitos turistas, segundo o Lonely Planet) já à noite. Foram cinco horas de camioneta até Trat (400 km) e depois mais 15 minutos numa carrinha aberta até ao porto, onde tivemos de esperar uma hora pelo barco. Já na ilha, em Tha Dan Kao, apanhámos outra carrinha de caixa aberta (espécie de táxi colectivo) que nos trouxe, com muitos outros passageiros, até Hat Sai Khao, onde fica o White Sand Beach Resort que, segundo os nossos guias (Lonely Planet e Guide du Routad) é o que oferece melhor relação qualidade-preço. Revelou-se, afinal, que o nosso Resort é o último da praia, pelo que tivemos de caminhar uma boa meia-hora pela areia numa escuridão quase total. A certa altura, pensámos mesmo em voltar para trás, mas ainda bem que persistimos. O bungalow de madeira é lindo e fica a escassos metros da água, num local paradisíaco, isolado. Custa apenas 200 bats, ou seja mil escudos por noite.

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Pormenores em que reparei ao longo da viagem:
As inúmeras escolas
Os hospitais
As estradas excelentes
A fruta. Camiões e camiões de fruta exótica, que nunca tinha visto, mas com ar apetitoso.
A floresta tropical, densíssima
Os bonecos nas bombas de gasolina: um manda entrar e o outro, à saída, agradece à boa maneira tailandesa, inclinando a cabeça com as mãos postas como para rezar
Os altares por todo o lado, de todas as cores possíveis

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Na camioneta, serviram uma coca-cola gelada em cada paragem. E no princípio da viagem um bolo, meio-queque, meio-mashmellow. No fim, um toalhete refrescante.

Dia 7

O vento provoca o mar que provoca a praia, numa fúria linda de se ver. Uma praia praticamente só para nós e uns patos que por ali andam em liberdade e que dão vontade de rir. Nas nossas costas, uma verdadeira muralha de verdura. A floresta tropical à tão densa, que não nos atreveríamos nunca a explorá-la.

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A ventoínha toda a noite.
A brisa.
O mosquiteiro com pensos, a tapar os buracos e os rasgões.
A barata, ou baratas que não consigo matar.
As formigas gigantes, castanhas.

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As fotografias que ontem não consegui fazer:
Um altar em cada esquina
As fábricas de altares
As saídas das escolas
Os camiões coloridos
Os desenhos de alguns camiões

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Depois de uma tarde magnífica na praia, às seis horas fomos ver o jogo Inglaterra-Argentina num bar da praia, onde conhecemos o Martin e a Hillary. Ele londrino de gema, ela australiana a viver em Londres. Acabámos por jantar com eles e ir beber um copo num pub muito psicadélico. Há dezenas de bares e restaurantes e todos têm ecrãs gigantes de televisão. A maioria propõe filmes a horas certas. Muitos turistas escolhem o bar, em função do filme que querem ver.

Dia 9

Situada a 8 km da costa, com 30 km de comprimento e 8 de largura, Kho Chang, a Ilha do Elefante (ou Ilha-Elefante?) é a segunda maior da Tailândia. Está quase totalmente coberta por floresta virgem, cerradíssima, com cascatas idílicas (como rezam os prospectos). As praias são magníficas.

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Tentei alugar uma mota para irmos dar um passeio pela ilha, mas caí várias vezes e desisti antes que me matasse. A Raquel riu a bandeiras despregadas. E eu fiquei furioso comigo mesmo por ser tão nabo.

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Ontem, quando voltámos ao nosso quarto, o «nosso» gatinho (um gato selvagem que se afeiçou logo a nós) estava à nossa espera e entrou connosco na cabana. Em boa hora o fez. Viu, antes de nós, uma cobra aos pés da cama e atacou-a imediatamente. Fui ajudá-lo, armado com uma vassoura, e conseguimos expulsar a cobra de casa. A Raquel ainda não estava refeita do susto, quando descobriu uma barata enorme. Tive a maior dificuldade em convencê-la a dormir no bungalow.

Mais tarde

Ayutthaya, depois de uma viagem que parecia nunca mais acabar, tanto mais que tivemos de nos levantar de madrugada para apanhar o barco em Kho Chang.
Jantámos no Malakov, um restaurante todo de madeira, arquitectonicamente lindo, com empregados muito jovens e simpáticos. Também na rua senti várias manifestações de simpatia: muitos sorrisos e alguns acenos discretos.
O hotel custa 500 bats (dois contos e quinhentos). O jantar custou-nos 200 bats e o comboio de Banguecoque para aqui (duas horas de viagem) 15 bats (75 escudos!). Uma pessoa aqui sente-se rica.

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Ayutthaya foi capital do país entre 1350 e 1767. Infelizmente, os invasores birmaneses destruiram tudo o que havia para destruir. Mesmo assim, as ruínas são imponentes e vale a pena passear no meio delas. É o caso do Wat Phra Sanphet, o primeiro monumento que visitámos.

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Aprendi há muito a não procurar imagens, mas a deixá-las vir até mim. É preciso estar muito atento. Vejo melhor o mundo desde que sou fotógrafo.

Dia 10

Fomos fazer uma viagem de barco pelos canais, mas choveu o tempo todo. Mesmo assim, valeu a pena. De resto visitámos mais cinco Wats, entre os quais o Mahathat, que tem o célebre rosto de um buda incrustado nas raízes de uma árvore (a foto aparece invariavelmente em todos os guias da Tailândia).

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A propósito do passeio de barco, vale a pena contar a história da rainha Sunada, a favorita do rei Rama V, que se afogou no rio porque o barco virou e os remadores nada puderam fazer para a jaudar. A lei proíbia-os de tocar membros da família real e, se tivessem tentado agarrar a rainha, teriam sido executados.

Dia 11

Ontem à noite, durante uma batalha campal contra duas lagartixas que impediam a Raquel de ir à casa de banho, parti um espelho. Nada que me tirasse o sono, no entanto, já que dormi, finalmente, que nem um justo.
Esta manhã, tal como planeado, alugámos duas bicicletas aqui mesmo no Hotel para ir dar a volta à ilha. Durante o passeio, tirei três rolos de fotografias: algumas crianças, alguns budas, paisagens e gente na rua. Almoçámos numa esplanada à beira-rio (muito bem) e, no final, a empregada trouxe-nos, com a conta, um desenho que nos representava, a mim e à Raquel, à mesa. Um desenho a lápis bastante conseguido, feito por uma empregada muito jovem, quase uma adolescente, a quem ofereci uma caneta, porque era a única coisa que lhe podia dar na altura, para além de uma generosa gorjeta.

Dia 12

No comboio sentou-se ao nosso lado um jovem tailandês que acabou por meter conversa connosco. Tem um bar em Banguecoque, ou trabalha num bar, não percebi bem. Com a sua ajuda, o velhote que vinha ao meu lado a tentar comunicar comigo, conseguiu finalmente perceber de onde vínhamos e para onde vamos, há quanto tempo estamos na Tailândia e quanto tempo mais pensamos ficar.Quando soube que nos dirigíamos para Kamphaeng Phet, sugeriu que saíssemos em Nakhon Sarvan e aí apanhássemos um autocarro. Revelou-se uma opção válida, embora o autocarro estivesse a cair de podre, com os assentos demasiados reclinados e impossíveis de endireitar. Aliás, tivemos um furo a meio do caminho e tivemos todos de sair do veículo, no meio do calor tórrido, para mudarem o pneu.
Enfim, mais uma viagem esgotante (cinco horas de comboio, mais duas e meia de autocarro).
Já em Kamphaeng Phet ainda tivemos de apanhar um táxi colectivo até ao Phet Hotel. No taxi vi um homem com uma moeda no ouvido, bem enfiada lá dentro. Que pena não ter podido tirar-lhe uma fotografia ou perguntar-lhe porque usava aquela moeda assim.
Junto do hotel estava uma mulher a vender uns fritos com ar delicioso. Quando percebeu o meu interesse, deu-me um a provar e eram simplesmente maravilhosos: uma espécie de mini-fartura, menos enjoativa. Comprámos um pacotinho e, mais tarde, quando regressámos ao hotel do nosso passeio, outro.
Enquanto passeávamos, passámos por um templo onde fotografei jovens monges que varriam o pátio. Todos com o cabelo rapadinho e túnicas cor de laranja, muito fotogénicas na verdade. Há monges muito jovens por todo o lado. Não deixa de ser espantoso.
Numa esplanada onde parámos para beber coca-cola com gelo, um outro sujeito meteu conversa connosco. Era baixinho, calvo e anafado e perguntou num inglês péssimo: «Posso sentar-me e conversar um pouco convosco?».
Fez-nos imensas perguntas e ensinou uns truques de magia à Raquel, explicando-nos que tinha sido pugilista durante vários anos e era agora professor de ginástica numa escola a seis quilómetros dali. Fiquei com vontade de conhecer melhor a sua história, mas, de repente, desculpou-se, afirmou que tinha de voltar para junto dos amigos, e foi-se embora, com muitas vénias. Todos dos dias nos têm acontecido coisas assim tão espantosas, tão inexplicáveis. Balanço entre o desejo de entender tudo e o encanto de não perceber nada.

Dia 13

Toda a manhã a ver templos. Andámos quilómetros para fotografar os 68 meio-elefantes do Wat Chang Rob, o buda de pé e outras maravilhas que fotografámos abundantemente. Pelo caminho vimos míudos a vender pássaros em gaiolas minúsculas e homens a pescar no meio do lodo, enterrados quase até ao pescoço.

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À tarde, o Shopping Center revelou-se uma desilusão: um imenso barracão decadente, cheio de tralha, com meia-dúzia de empregadas sem nada para fazer. Uma delas estava mesmo a dormir em cima de um balcão cheio de soutiens (mais uma foto engraçada que não fiz).
Ainda tivemos tempo de visitar um outro mosteiro, de que esqueci o nome, mas muito bonito, com várias pinturas a descrever episódios da vida de Siddharta.

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No mercado perto do Hotel, uma banca propunha um cão morto e outra um enorme lagarto esquartejado, para além de muitas rãs e também escaravelhos.

Dia 14

A viagem para Shukotai durou apenas uma hora. O nosso hotel é constituído por pequenos bungalows de madeira, parecidos com os de Kho Chang. À guisa de cama, um grande colchão no chão, com direito a mosquiteiro. Na casa de banho, as invariáveis lagartixas e, como o nossa cabana está no meio de um jardim luxuriante, ouvem-se todo o dia e toda a noite, como se estivessem dentro de casa, sapos e outros animais que não consigo identificar. Por 200 bats não se pode exigir mais.
Uma das empregadas fala muito bem inglês (o que é raríssimo aqui) e deu-nos dicas úteis. Como a de visitar um templo a sete quilómteros daqui, cheio de esculturas recriando cenas da mitologia local. Creio que ela lhe chamou «Templo dos Sonhos». Por coincidência, o jantar foi num restaurante chamado Dream Café.

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Segundo um dos meus guias, Sukhothai quer dizer «Crepúsculo da Felicidade», numa alusão a uma era mítica, sem dúvida. Sukhothai foi a primeira capital da Tailândia e possui um Parque Histórico interessantíssimo (que vamos visitar amanhã, antes de partir para Pitsannulok, a caminho de Chinag Mai, penúltima etapa da viagem).

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Uma das coisas em que nenhum turista de visita à Tailândia pode deixar de reparar é na quantidade de monges jovens. Agora sei porquê. A maioria destes monges é ordenada apenas por um curto período de tempo. Na realidade, quase todos os jovens tailandeses passam por isto, para «ganharem "prestígio" para os seus pais e avançarem o seu próprio desenvolvimento espiritual». Um dos rapazes com quem falei afirma: «Fiz quatro anos de sacerdócio: um para o meu pai, outro para a minha mãe, outro para a minha irmã e outro para mim». Adquiriu «prestígio» que se farta e agora é guia turístico.
Segundo um livro que li, existem actualmente cerca de 250 mil monges budistas na Tailândia, que residem em cerca de 30 mil templos. Mas também há aqui hindus, muçulmanos e católicos.

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Descobri dois frutos deliciosos: um chama-se rambutã, o outro, durian. E duas cervejas bem agradáveis: Singha e Chang. Como na canção de Marco Paulo, «não sei de qual gosto mais».

Dia 15

De manhã, fomos deixar as mochilas na «bus station» e fomos até ao Historical Park onde alugámos bicicletas. Bem merdosas, por sinal. A minha tinha o selim tão rijo que ainda sinto dores no rabo.
Para o fim de visita, caiu uma daquelas chuvas torrenciais que chegam sem se fazer anunciar. Em cinco minutos (o tempo que levámos a chegar a um abrigo) ficámos completamente encharcados.

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A Unesco subvencionou o arranjo deste Parque Histórico que cobre uma área de 70 km2, com relvados e pequenos lagos ornamentais. Lá dentro encontram-se pelo menos 20 grandes monumentos espalhados pela floresta. O maior deles é o Wat Mahathat, um templo magnífico dominado por um «chedi» em forma de flor de lotus. A base está decorada com figuras que retratam – segundo parece – discípulos de Buda.

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Em Pitsanulok – onde se encontra o Wat Phra Sri Ratana Mahathat, que o Lonely Planet assegura tratar-se de um monumento «fascinante, a não perder – não ficámos no hotel previsto logo ao lado da Estação (era uma espelunca infecta), mas num outro mais longe que custa 330 bats, com pequeno-almoço incluído. Junto ao rio, deparámos com um espectáculo inesperado e divertido: uma aula de aeróbica em plena rua, participada por largas centenas de pessoas de todas as idades. Mais tarde, o nosso passeio ao longo do rio Nan levou-nos até um restaurante flutuante – também recomendado pelo Lonely Planet – onde comemos muito bem. Estoirados de tanto andar, decidimos ir para a cama cedo, até porque a noite passada quase não consegui dormir por causa de uma bulha entre cães e gatos que toda a noite ladraram, ganiram e miaram, num chinfrim insuportável.

Domingo, 16

Uma velha de cigarro ao canto da boca, com um chapéu esquisitíssimo, puxa um búfalo que a segue relutantemente.
Via-a pela janela do comboio, a caminho de Chiang Mai (onde chegaremos lá para as dez da noite) e voltei a pensar, pela enésima vez nesta viagem: «As melhores fotos são as que não tiramos».
Em vez do prometido ar condicionado, o comboio tem muitas ventoínhas no tecto. Refresca um pouco, mas não é a mesma coisa. No entanto, é bem mais agradável do que o autocarro e, para nossa grande surpresa, serviram-nos almoço e lanche. Uma hospedeira, como nos aviões, zela pelo nosso bem estar. E tudo isto por 1500 paus.

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Se um dia fizer um filme que se passe na Tailândia, este comboio tem que entrar.

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Pela janela do comboio, acabo de ver um arbustro com a forma de um cão a saltar. O Eduardo Mãos-de-tesoura passou por aqui.

Mais tarde

Chiang Mai, finalmente! Acabámos por optar por um hotel mesmo à entrada da «Old City», no «Main Square». Por ser domingo, a rua principal estava vedada ao trânsito e repleta de feirantes. Um verdadeiro mercado nocturno alternativo, muito colorido e divertido, com alguns artistas de circo a animar os transeuntes. Um belíssimo comité de recepção e uma agradável surpresa. O quarto, após negociação, ficou por 400 bats. Tem água quente, duche, ar condionado e até TV por cabo e frigirífico.

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Situada a cerca de 700 km da capital, Chiang Mai é, sem dúvida, uma das principais razões para vir à Tailândia. Todas as pessoas que conheço que já vieram a este país assim o afirmam. A curiosidade é grande e as primeiras impressões confirmam que estamos, de facto, numa cidade muito interessante. Na rua são já visíveis alguns nativos de minorias étnicas (as suas feições não mentem) que aqui vêm vender o seu artesanato, vestidos com vestes tradicionais. De resto, há aqui muito mais estrangeiros do que em Pitsanulok ou Sukhothai.

Dia 17

Primeiro dia em Chiang Mae (ou Mai, tanto faz) e já uma orgia de compras. De manhã, alugámos bicicletas (40 bats por dia) e visitámos os três Wats principais: Phra Singh, Chedi Luang e Chiang Man. Pelo caminho não aprei de tirar fotografias, já perdi a conta ao número de rolos que comprei desde que estou neste país. Lembro-me particularmente de uma menina a comer esparguete verde no meio da rua. Tinha uns olhos inesquecíveis.
Depois do almoço, fiz a vontade à Raquel e fomos para o maior Shopping da cidade, onde comprei uns calções e uma camisa muito engraçada para usar fora das calças, de azul forte com peixes brancos desenhados. À noite, já no «night bazar» comprei uma t-shirt com macacos, um buda pequenino e uma marioneta muito gira, para além de umas calças para o Daniel e umas «coçadeiras» para oferecer aos amigos. A Tailândia é o paraíso das compras, não há nada a fazer.

Dia 18

Um dia calmo. De manhã, fomos reservar os bilhetes para Banguecoque. De hoje a três dias, lá vamos nós às 4 da tarde, em couchette de segunda classe com ar condicionado. Depois, negociámos com um taxi uma ida, amanhã, a uma Escola de Elefantes (o verdadeiro nome é Centro de Treino de Jovens Elefantes), a 37 quilómetros daqui. 1200 bats com a promessa de várias paragens pelo caminho para visitarmos outros locais de interesse.

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O resto do dia foi passado a passear de bicicleta por sítios onde ainda não tínhamos ido. Está a decorrer o Campeonato do Mundo de futebol e não há nenhuma loja, nenhuma tenda, mesmo modesta, que não tenha uma televisão, grande ou pequena. Muitos restaurantes têm mesmo várias. Os cozinheiros trabalham a ver televisão, e também os artesãos e os vendedores de rua. É impressionante. À minha frente, por exemplo, está numa casota (mínima) de câmbios uma rapariga que tem uma tv enorme mesmo junto ao ecrã do computador.

Dia 19

Dormi mal, muito mal mesmo. A preocupação de acordar cedo também não ajudou. Uma hora antes do telemóvel tocar (uso-o como despertador) já eu estava de pé. Ainda não eram sete horas. Como sempre, sonhei imenso no pouco tempo que passei pelas brasas. Lembro-me que sonhei com colegas de trabalho e que eu tocava saxofone muito bem (não foi, de resto, a primeira vez que isto aconteceu e sempre que acontece faz-me feliz).
Às oito e meia em ponto, lá estava o nosso guia à porta, prontíssimo e apressado, pois era imperioso, segundo ele, lá chegarmos antes das 9h45 para assistir ao banho dos elefantes.
Efectivamente um espectáculo digno de ser ver.
Seguiu-se um show com os elefantes que são muito engraçados, dóceis e bem ensinnados. Foram treinados para transportar árvores abatidas mas, agora que esse trabalho já não se justifica, pois há máquinas para o fazer, ensinam-nos a tocar música e a pintar, entre outras habilidades. Os turistas compram os quadros pintados pelos elefantes e cachos enormes de bananas para lhes dar.
Antes de nos virmos embora, visitámos a maternidade dos elefantes, onde estava um recém-nascido e o hospital com várias enfermarias, mas onde só estava um animal.
A propósito dos elefantes, não resisto a citar alguns factos. Na Tailândia, o elefante goza de um estatuto de fazer inveja a qualquer trabalhador português: 3 dias de trabalho, três dias de descanço, três meses de férias e reforma aos 60 anos. Frequentam a escola durante seis anos, comem cerca de 200 quilos de verduras por dia e bebem 240 litros de água.

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No caminho de regresso, parámos em vários locais incriveis. O primeiro era à beira da estrada, onde estão dois tronos de dois reis antigos, o de Lampang e o de Lamphun. Antes guerreavam-se, hoje são venerados como deuses, tanto um como o outro. Os seus tronos estão rodeados de milhares de altares oferecidos pelas pessoas que lá vão pedirem sorte no jogo. Se lhes sai um prémio na lotaria, oferecem um altar ou um animal de barro: elefante, cavalo ou tigre, por exemplo. Alguns dos altares são novinhos em folha, mas também os há muito antigos, já meio em ruínas. Todos estão muito bem decorados, com flores e figurinhas de barro e o conjunto é impressionante. De súbito, apareceu uma cobra viva a nossos pés e o nosso guia aconselhou-nos a sair dali.

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Na etapa seguinte, parámos junto a um mercado na floresta. São os aldeões que vivem na selva que ali vêm vender os seus produtos: fruta, legumes, cogumelos, mas também peixes de rio (que se encontram vivos dentro de sacos de plástico). O mais impressionante, para nós europeus, são os vendedores de lagartos gigantes, insectos vários e rãs de todos os tamanhos. Numa das barracas, uma mulher grelhava sapos para vender como petisco.

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Depois do mercado, fomos a Lampang visitar um grande templo, com gravuras magníficas, das mais bonitas que já vi. Numa banca comprámos um Buda que esconde o rosto entre as mãos. Foi a Raquel que mo ofereceu (na véspera eu tinha-lhe oferecido um fio de prata muito bonito). Quando apareci no mercado, váriosvendedores começaram a chamar-me «Zidane», sem dúvida porque sou careca como ele. «Zidade, Zidane», chamavam, com grandes gestos. Provavelmente, aqui, como na Índia, ser careca é sinal de riqueza. Todos queriam que lhes comprasse qualquer coisa.
Finalmente, antes de nos trazer de regresso ao hotel, o taxista ainda nos levou a visitar uma fábrica de lacas, uma de pratas e outra de sedas. Não há como fugir-lhes!

Dia 20

Outro dia em cheio. Logo pela manhã vieram buscar-nos ao hotel numa carrinha onde já estavam uma senhora e a sua filha. Canadianas. A mãe chama-se Jane e a filha Janice. A seguir fomos buscar outras duas passageiras: duas inglesas chamadas Jane e Allie, mais ou menos com a idade da Raquel. E finalmente, junto dum hotel luxuoso, embarcaram um casal britânico, John e Paula. Ele contabilista, ela esteticista e ambos quarentões.
A aventura propriamente dita começou com o «elephant ridding», um percurso acidentado pela floresta nas costas de um elefante enorme. O nosso «condutor de elefantes» destacava-se dos outros por ser o mais louco. Na realidade, parecia completamente chanfrado. Não parou quieto nem por um segundo. Tão depressa estava em cima do elefante connosco, como descia para nos seguir a pé. Falava sozinho, cantava, metia-se com toda a gente. A certa altura, colocou o nosso elefante à frente da coluna e abandonou-nos. Fizemos, assim, uma boa parte do trajecto sem ele.
Tirando um momento, em que o animal sentiu fome e decidiu ir comer uns arbustros fora do trilho, numa zona bastante perigosa, por ser um declive, correu tudo bem. A sensação de estar lá em cima é fabulosa. Uma pessoa sente-se um rei. E tirando as partes em que se descem declives acentuados (o que aconteceu umas três vezes naquela hora), sentimo-nos muito seguros.
Um fotógrafo local tirou-nos uma foto em cima do elefante, que ficou muito gira.
Abandonados os elefantes, fizemos um percurso a pé, sempre a subir, pelo meio de uma floresta densa, até uma aldeia Mohng. Um sítio inenarrável, com muitas bancas de artesanato e uma tasca infecta sem o menor interesse. Em seguida, voltámos pelo mesmo caminho até ao local onde nos esperava a carrinha, que nos levou a uma outra aldeia na montanha onde almoçámos. Uma comida simples, mas agradável: sopa, arroz vegetariano e melancia.
Seguimos, então, para a aldeia Karen, esta sim, uma verdadeira aldeia de montanha, habitada e viva. Mas, até por isso mesmo, senti-me mal: as pessoas estão ali a fazer a sua vida de todos os dias e os turistas passeiam no meio delas como se estivessem num zoo com as suas câmaras indiscretas, sem possibilidade de comunicação, pois ninguém fala inglês. São, de resto, extremamente pobres: as casas são de madeira, muito rudimentares. A aldeia está mergulhada em lama, com porcos pretos e gatos por todo o lado. É de uma desolação tal que não cheguei a fazer fotografias. Tinha vergonha por eles. É como visitar um zoo humano, é degradante para eles e para nós.
A etapa seguinte foram as «water falls» pelas quais toda a gente esperava ansiosamente, devido à promessa de que era possível lá tomar banho. Efectivamente, todos aproveitámos para nos refrescar e fazer fotografar em fato de banho, debaixo da cascata. Apesar do local ser particularmente escorregadio, foi muito divertido, tal como a descida de rio que se seguiu. As jangadas, de bambu, revelaram-se muito diferentes do que eu tinha imaginado. Muito estreitas e compridas, permitiam quatro passageiros cada uma, mais o condutor. A mim coube-me o papel de segundo condutor, pelo que fiquei de pé o tempo todo, com uma vara enorme na mão, encarregue de ajudar a embarcação a manter-se bem no centro do rio. Um rio não muito largo (uns dez metros de largura), mas cheio de rochedos e outros acidentes de percurso. Os sítios onde dava mais gozo passar eram, naturalmente, os «rápidos», onde por duas ou três vezes estive quase a desequilibrar-me. Mas correu tudo bem.

21 e 22

O comboio para Banguecoque leva 14 longas horas. Ainda por cima, nunca apagam a luz durante a noite. Não consegui dormir quase nada. Por causa da luz, do barulho e do frio (o ar condicionado estava mal regulado).

***

O dia foi aproveitado para visitar o Grande Palácio (e o Templo do Buda Esmeralda) e os Wats Phra Kei e Arun (do outro lado do canal). Para visitar o Palácio e o respectivo tempo a Raquel teve que alugar camisa, saia comprida e sandálias. Não se pode andar de calções e ombros descobertos. O sacrifício vale a pena, o local é esplenderoso. Do Buda – uma estátua de 75cm de altura feita de jaspe verde – diz-se que é «o emblema da nação», «a alma da Tailândia». E conta-se que foi descoberto em Chiang Rai, em 1436, quando um raio «destruiu um chedi para revelar a estátua escondida no seu interior».

Dia 23

Li que um em cada oito tailandeses vive em Banguecoque e que mais de 80% dos veículos a motor do país estão aqui registados. Os mesmos números indicam que mais de 50% dos residentes são de origem chinesa. Entre os muitos nomes de Banguecoque figura o de Krung Thep, «Cidade dos Anjos». Também há quem lhe chame «Repositório Supremo das Jóias Divinas».

***

Todo o dia no incrível e imenso mercado de Chatuchank. Das 11 da manhã às 7 da tarde, um verdadeiro festival de compras. Nunca tinha comprado tanta coisa num só dia: 5 camisas, 3 t-shirts, um par de chinelos e uns ténis All Star. Também para a Raquel foi uma desbunda. Foi de tal ordem que tivemos que comprar um saco enorme para transportar a tralha toda.

Dia 24

Penúltimo dia (nem quero pensar nisso). Fomos ver o Wat Po (Templo do Buda Deitado), Chinatown e fazer um passeio de barco, melhor dizendo de piroga, pelos canais, os famosos «klongs». Depois ainda tivemos tempo para um mergulho na piscina do hotel e ir ao Central Departement Store, fazer umas últimas compras. No regresso doíam-me tanto os pés que decidi ir fazer finalmente uma massagem para experimentar. Uma hora de massagem aos pés, com um massagista (gay?) que tão depressa me aleijava como me fazia rir!

25 e 26

O último dia foi bem aproveitado. Começámos por dar um mergulho na piscina, ainda antes do pequeno almoço e fomos visitar a lindíssima casa do lendário Jim Thompson, uma obra-prima arquitetónica com um jardim belíssimo e uma decoração de extremo bom gosto. Depois fomos ver o Palácio Vimanmek, que se diz ser «a maior mansão do mundo em teca dourada». Tivemos sorte e vimos lá um magnífico espectáculo de dança tailandesa tradicional («lakhon»).

***

Paul Valery dizia que os poemas nunca se acabam, apenas se interrompem. O mesmo se poderia dizer de algumas histórias de amor e das maior parte das viagens. Raramente levei uma viagem até ao fim, até ao ponto de dizer “estou farto deste país, quero ir-me embora”. Mas já estou a pensar no próximo destino. A Raquel quer ir para Nova Iorque.

A prisão de Mandela

A Robben Island é minúscula (cerca de seis quilómetros quadrados) e bastante árida. No entanto, é um dos locais mais visitados pelos turistas que se deslocam à Cidade do Cabo, pois foi ali que Nelson Mandela - que viria a tornar-se, após trinta anos de cativeiro, no primeiro Presidente eleito democraticamente da África do Sul - passou 18 anos da sua vida. Utilizada como prisão de alta segurança, pelo menos desde o século XVII, Robben Island foi declarada «Património da Humanidade» pela UNESCO. Em 2003, na altura em que por lá passei, o local voltou a estar na ordem do dia, graças à acção promovida por Madiba (como o povo chama carinhosamente ao seu ex-presidente) que reuniu na Cidade do Cabo uma plêiade de músicos ilustres (gente como Bono, The Edge, Peter Gabriel, Dave Stewart, Annie Lennox, Brian May e tantos outros), a fim de atrair a atenção do mundo para a sua nova (e urgente) luta: combater o flagelo da SIDA em África.

Visitei «a ilha maldita» na companhia de Indres Naidoo, um dos muitos companheiros de cativeiro de Mandela, que nos explicou: «46664, o número de que toda a gente fala agora, deve ler-se na realidade 466/64, sendo que os últimos dois algarismos indicam o ano em que o nosso líder foi preso». Logo a seguir, acrescenta, sem disfarçar o orgulgo: «Eu era o 885/63, o que quer dizer que fui preso um ano antes».

Este sul-africano de origem indiana, cujo pai foi amigo de Gandhi, assegura que foi apanhado em consequência de uma armadilha montada com a cumplicidade de um colega. Tentava dinamitar uma linha de caminho-de-ferro e ficou ferido por uma bala. Mais tarde, em consequência da tortura e dos maus tratos que sofreu na prisão, ficou surdo de um ouvido e hoje é preciso gritarmos com ele se nos quisermos fazer entender.

Traído por um camarada de partido, Indres Naidoo cumpriu uma pena de dez anos de trabalhos forçados. Com o fim do Apartheid, foi nomeado senador do Parlamento Nacional, mas agora está reformado. Como muitos dos seus antigos companheiros de prisão, parece ter uma necessidade quase doentia de evocar as condições em que viveu em Robben Island.
Antecipando-se à nossa pergunta assegura: «Não, não me importo nada de aqui voltar. Na verdade, penso que enfrentar o passado é uma forma de nos renovarmos.»

A visita guiada começa logo ao sair do barco. No cais estão fotos antigas, muito ampliadas, que documentam as condições em que os presos eram transportados, ligados uns aos outros por cadeias pesadíssimas. Em 1963, quando Indres ali chegou, a prisão tinha um aspecto muito diferente do que tem actualmente.

«Estes edifícios todos foram construídos por nós, ao longo dos anos», explica o nosso anfitrião. «À chegada davam-nos uma colher de pau, um bocado de sabão azul, e um farrapo que fazia de toalha. Os sapatos eram escolhidos ao calhas, por vezes ficávamos com um número 43 para um pé e um 41 para o outro. Com a roupa era a mesma coisa: a um preso alto podiam dar números pequenos e a um baixinho umas calças e uma camisola enormes.»

Nesse tempo, encontravam-se em Robben Island muito presos de delito comum. Ladrões, assassinos, violadores, organizados em «gangs», que se guerreavam constantemente. «As autoridades pensavam que com a sua bestialidade, juntamente com a dos guardas, nos conseguiriam quebrar. Mas como éramos uma centena de presos políticos, eles não se metiam connosco e, na verdade, aconteceu o contrário do que os guardas pretendiam. A nossa determinação e consciência política começou a conquistar adeptos junto dos criminosos, pelo que as autoridades optaram por os retirar pouco a pouco da ilha, que acabou destinada exclusivamente aos presos políticos, sobretudo do ANC e do PAC (Pan-Africanist Congress).»

Num tom calmo, mas vivo, que trai uma real emoção, Indres evoca a brutalidade dos guardas e o médico da prisão, um tal dr. Van den Bergen, que examinava os presos à chegada. «Examinava-nos à distância, obrigando-nos a abrir a boca e a afastar as pernas com um bastão, para nos dar, invariavelmente, como aptos para todo o serviço, mesmo se alguns de nós sofriam de asma, ou de insuficiências cardíacas e respiratórias.» Ao falar do médico, aflora uma ponta de ódio na sua voz. No entanto, afirma que não guarda nenhum rancor aos seus carcereiros, nem mesmo àqueles que o maltrataram. E assegura que nunca procurou revê-los, ou vingar-se de alguma maneira.

Os piores momentos eram passados nas pedreiras. Condenados a trabalhos forçados, todos tinham objectivos a cumprir. «No final do dia, os guardas mediam a quantidade de pedra partida e se não tivéssemos atingido as quotas estipuladas podíamos ser privados de comida.» Entre as cenas que mais o impressionaram, num desses locais, conta-se a de um preso de delito comum que um dia enterraram na terra até ao pescoço. E sobre quem um guarda acabou por urinar, dizendo. «Tens sede? Então toma lá 'whisky' do melhor.»

Muitas histórias deste calibre foram vividas por Indres Naidoo, Nelson Mandela e companheiros. Para conhecer melhor esta realidade, recomenda-se a leitura da autobiografia de Mandela, A Long Way To Freedom. Segundo Indres Naidoo (que também escreveu um livro, que nos recomenda com muito empenho), essa autobiografia foi parcialmente escrita ali mesmo, na cela 5 do Bloco C, em folhas de papel higiénico.

O pequeno barco que liga a Cidade do Cabo à ilha leva mais ou menos meia hora para percorrer os 12 quilómetros. Há visitas guiadas todos os dias, que permitem visitar as várias instalações da prisão e a igreja, mas também o cemitério dos leprosos e o campo onde os presos iam partir pedra. Não é preciso ter muita imaginação, para sentir real compaixão pelos muitos milhares de almas penadas por ali passaram desde o século XVI.

Fotografia e Viagem



Viajar e fotografar são duas das coisas que mais gosto de fazer na vida. Para mim, são prazeres quase inseparáveis um do outro. Do mesmo modo que não me imagino a viajar sem, pelo menos, uma máquina fotográfica, de que cada vez que me disponho a fotografar é como se embarcasse para uma terra estranha. Mesmo em Lisboa, mesmo em casa, quando saio para a rua para fotografar, transformo-me instantaneamente num turista. Turista sim, não tenho medo da palavra. Faz-me rir a conotação negativa que ela ganhou e a presunção com que algumas pessoas reivindicam: «Eu não sou turista, sou um viajante». Esquecem que há mil formas de fazer turismo e outras tantas de ser viajante. Nem todos os turistas andam atrás de postais ilustrados, nem todos os viajantes estão animados das melhores intenções. Além de que para se ser viajante são precisas, pelo menos duas coisas, que poucos têm: muito tempo e muito dinheiro (ou uma profissão que implique viajar, é claro).
Adiante.



A fotografia exerce sobre mim um fascínio da mesma ordem que a viagem. Podia racionalizar à exaustão este paralelo, mas fico-me só pelo facto de ambas implicarem um desejo insaciável de ver e descobrir não se sabe bem o quê. Viajar e fotografar implicam uma atenção extrema e desfechos imprevisíveis. Num caso como no outro nunca sabemos o que vamos ver ou sentir.



Quando acabamos uma viagem, a única coisa que fica são o que compramos e as fotografias. É por isso que são as duas actividades preferidas dos turistas. Tudo o resto (as paisagens magníficas, os templos espectaculares, a gastronomia sofisticada, as conversas de rua) acaba por parecer um sonho, pois se escapa por entre os dedos, como água ou areia. Não fomos feitos para possuir nada: tudo o que podemos fazer é esquecer e sonhar.



A vida é, com efeito, um sonho que podemos fotografar. Em contrapartida, das minhas aventuras oníricas, nunca consegui trazer uma imagem. Quanto muito, algumas palavras.



Como fotógrafo, por vezes gostaria de fotografar o que já não existe. Ou o que ainda não existe. É o que tentamos fazer quando fotografamos ruínas, por exemplo, ou uma paisagem onde virá a ser construído um aeroporto ou um condomínio de luxo. Como seria interessante poder tirar fotos da antiguidade, da idade média e, já agora, do futuro. Viajar no tempo... isso sim, seria viajar.



Não sou muito original: gostaria de ver o mundo todo antes de morrer. Adoraria dar a volta à prisão, como dizia Margueritte Yourcenar que considerava o nosso planeta um enorme presídio. Com toda a razão: aprisionados neste mundo, condenados à morte, esperamos a nossa hora de descobrir a verdade. Ou de simplesmente desaparecer. O castigo é esse: não sabermos o que nos espera. Mas supondo que há vida depois da morte, uau... que viagem!

Fotos (de cima para baixo): Cabo Verde, Egipto, Japão, Holanda, Dubai e Malta

Seychelles à vol d'oiseau

A chegada às Seychelles foi absolutamente espectacular. Nascia o dia e o céu estava pintalgado de cor de rosa, com nuvens sem fim espalhadas sobre o mar. Toneladas de algodão procuravam (sem grande sucesso) esconder as ilhas, algumas minúsculas, como pedaços de terra que tivessem caído do céu ao acaso. Olhando pela estreita janela do avião, pude verificar como o Criador foi generoso no dia em que se lembrou de criar esta paisagem. Era um espectáculo lindo e o avião deslizava pelo ar como num sonho, devagar, muito devagar. Podia ver a pele do mar toda eriçada de prazer e sentia-me como se tivesse entrado noutra dimensão (num mundo ainda mais belo do que aquele que sonhei encontrar). Lembro-me de ter pensado como seria bom ficar ali, a pairar no ar, à janela no avião, a deslizar até ao fim dos tempos entre céu e mar, nas nuvens o tempo todo. Mas quando me virei para a minha companheira, para lhe dizer isso mesmo, senti o avião estremecer e gemer e, logo a seguir, senti o coice do trem de aterragem a abrir, enquanto o piloto avisava: «Cabin crew, prepare for landing». E aí fomos nós, a toda a velocidade, ao encontro da pista de cimento, embora pela janela a impressão que tínhamos era a de que iríamos aterrar no mar. Quando, finalmente, passámos a alfândega e chegámos à rua, chovia a potes. Mais tarde, no hotel, tomei as primeiras notas: “Uma ilha aqui, outra ali, uma montanha luxuriante e nuvens quanto baste. O paraíso afinal é pouca coisa. A beleza é essencialmente uma questão de doseamento. Nem mais, nem menos”. “Como dizia Rimbaud, a eternidade é feita de sol e mar. Não era bem isto que ele dizia, mas mesmo assim: se a eternidade existe é esta história de amor entre o sol e o mar”. “Aqui estou eu, portanto, feliz por me sentir feliz, tão contente que só consigo escrever disparates”. Fernando Pessoa dizia que todas as cartas de amor são ridículas. Pois bem, também os textos de viagem têm o direito de o ser, declaro eu. No próprio dia em que cheguei, verifiquei que em Mahé, onde quer que vás, a montanha está presente, coberta por uma floresta muito densa, variada e selvagem. Parece um ser vivo. Um imenso monstro verde em cujo corpo irrompem constantemente milhares de novas línguas verdes à procura do sol. Sequiosas todas. De resto, choveu copiosamente nos quatro dias que lá estivemos. Rapidamente percebi que toda a gente nas Seychelles fala três línguas: francês, inglês e crioulo. Para além de simpáticas e bem educadas, as pessoas são bonitas e elegantes. Sobretudo as raparigas novas e as velhotas, que se vestem com vestidos floridos e chapéus de outros tempos. Talvez por causa da pesca ou do trabalho ao ar livre, os estragos do tempo são mais visíveis nos homens. A ilha tem um excelente sistema de transportes públicos. Há autocarros com fartura e chegam a todo o lado. Para mais são baratíssimos. Para dar a volta à ilha, gastámos apenas 12 rupias (cerca de dois euros). As estradas, no entanto, são bastante perigosas. Não porque as pessoas conduzam mal e depressa como em Portugal, mas porque as estradas são estreitas e sinuosas, rodeadas de floresta que retiram visibilidade. Para mais, não há bermas nem passeios, pelo que há sempre a possibilidade de atropelar alguém. Durante os quatro dias da nossa permanência em Mahé, o sol e a chuva pareciam envolvidos numa competição sem quartel. Vinha a chuva e molhava-nos, vinha o sol e secava-nos, até que a chuva voltava de novo e assim sucessivamente. Pouco intimidados com isso, fomos andar de barco, para ver os peixes no fundo do mar (graças a um casco transparente) e percorrer as praias lindas de morrer da Ilha do Veado (Cerf Island). A praia estava infestada de pequenos caranguejos que fugiam de nós – a uma velocidade incrível – para dentro de buracos que escavam na areia. Os caranguejos das Seychelles são bichos espantosos: os que vivem na areia são amarelos, os que vivem no meio dos limos são verdes e os que encontramos nas rochas confundem-se também com elas. Os rastos que deixam na areia molhada parecem obras de arte, formando desenhos complexos que fotografei exaustivamente, fascinado como estava por tudo aquilo. Na Ilha do Veado, as praias eram (são) magníficas, mas tinham demasiadas algas, rochas e seres vivos. Ali aprendi que o mar azul (as brochuras turísticas dizem que aqui o mar é cor de safira) também pode ser verde, prateado, ou mesmo não ter cor. Nas Seychelles, o mar é tão transparente que parece saído de uma torneira. O ultimo dia chegou num instante. Quatro dias passam mais depressa do que um só, por vezes. Como para despedida, nessa manhã, alguém espalhou flores junto à piscina do hotel onde nos encontrávamos. Quando saímos do quarto, a minha mulher e eu, deparámos com um pássaro lindo: amarelo, vermelho, azul... o seu pequeno corpo era um festival de cores. De resto, nas Seychelles podemos ver, por todo o lado, peixes e pássaros espantosos. Lembro-me, por exemplo, de ter visto, uma manhã, um cardume inteiro de peixes a saltar em uníssono sobre o mar, como se tivessem ensaiado aquela coreografia centenas de vezes. Ao que se diz, a primeira menção escrita referindo a existência destas ilhas é em mapas portugueses que lhes chamam «os três irmãos» ou «as três irmãs». Mas o primeiro a escrever sobre as Seychelles foi o marinheiro britânico John Jordan, que manteve um diário de viagem em 1609. Nesse texto, já as ilhas aparecem referidas como paradisíacas. Contudo, quem mais aproveitou desta beleza selvagem parece terem sido os piratas, esses «diabos dos mares» que não perdoavam a quem passava por ali. O mais famoso desses flibusteiros foi Olivier Levasseur, mais conhecido como «La Buse». A primeira descrição pormenorizada das Seychelles foi feita por um empregado da Companhia das Índias, em meados do século XVIII. Mas foram os franceses os primeiros a reivindicar a propriedade das ilhas, graças a um tal comandante Picault e ao general Mahé de La Bourdonnais. Picault veio tomar posse das terras em 1742, mais concretamente no dia 21 de Novembro. Desembarcou na ilha principal e chamou-a «Ille d’Abondance». Ao porto, chamou St. Lazare, nome que ainda hoje conserva. As Seychelles ganharam o seu nome actual em homenagem à família Hérault de Séchelles. O domínio francês sobre estas ilhas manteve-se até 1811, ano em que os ingleses as tomaram pela força (um ano antes já tinham “roubado” aos franceses a Reunião e as Maurícias). As Seychelles proclamaram a independência em 1976. Este país insular, constituído por 115 ilhas distribuídas por vários arquipélagos, é hoje o país de África com o maior PIB per capita. Apesar disso, tanto quanto pude testemunhar, as pessoas mantém um nível de vida relativamente modesto.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Regresso à Índia



Nunca me vou esquecer da Índia. Como é que me iria esquecer da Índia, um país onde basta pintar de azul uma pedra à beira do caminho para ela se transformar num deus?
Impossível esquecer Jaisalmer. Udaipur. Jodhpur. Jaipur. Pushkar. Agra. Benares.
Como poderia esquecer Benares?
Nietzsche definia o homem como “aquele que se faz nascer a si mesmo”. De certo modo, ainda que pareça exagero, na Índia foi como se tivesse nascido outra vez. Sim, de algum modo voltei a nascer na Índia.
Não nasci mal cheguei ao aeroporto de Nova Delhi. Não, não foi aí. Não foi assim. Não nasci, ou melhor, não renasci de uma vez só. Foi um processo gradual. Lento. Inconsciente. Nem sequer dei por isso, só agora, quando me deu para escrever sobre a Índia, é que me apercebi disso. Por isso, é urgente voltar agora à Índia. Não fisicamente (isso não é tão urgente, mas também tenho que o fazer), mas através deste texto. Através da memória.
Claro que esta Índia – a Índia onde renasci – só existe na minha cabeça.
É o que faz a sua importância, aliás.



Sempre me pareceu que não nasci neste mundo. Sempre me pareceu que nasci noutro planeta. Não me identifico com os habitantes da Terra. Não tenho nada a ver com esta gente. Talvez o meu planeta de origem tenha alguma semelhança com a Índia. Não sei. Na Índia, por vezes, ver pela primeira vez era reconhecer. Havia na Índia pequenas coisas que me diziam muito. Pequenos objectos, pequenos gestos. Um odor aqui, um olhar ali. As cores e, sobretudo, as árvores. Havia na Índia muitas árvores que me falavam ao coração. Que me emocionavam profundamente. Das quais me sentia irmão. Vão pensar que estou louco, ou que nunca regulei bem da cabeça, mas as árvores da Índia – em certos trajectos que fiz de comboio ou de autocarro – contam-se entre as mais belas que jamais vi. Aliás, o mais bonito na Índia é o campo. Certas planícies, certas florestas são bem mais bonitas que os mais belos palácios de Udaipur, ou que o próprio Taj Mahal, esse orgasmo “congelado” de um príncipe apaixonado por uma ideia onde cabia o amor, a beleza e a morte. Sim, para mim, no fundo o Taj Mahal é um monumento de esperma. A cor não engana e a forma também não, já tive orgasmos bem parecidos com aquele monumento. Nunca tive foi dinheiro para os mandar imortalizar.



Viajar até um país desconhecido é uma forma acessível de ver o mundo pela primeira vez. Nesse sentido, é um regresso à infância. Na Índia voltei aos tempos dos meus primeiros passos no mundo. Tive que reaprender, não tanto a andar, mas a ver e a sentir.
Porém, quando a viagem acaba, tudo se desvanece. Tudo o que se viveu, tudo o que se viu, se sentiu, se saboreou, já não se consegue na verdade descrever. Nem os diários de bordo, nem as fotografias ou as filmagens ajudam realmente, parece que tudo não passou de um sonho. E uma grande parte – a maior parte, melhor dizendo – das nossas recordações já desapareceram, ou vão desaparecer em breve.
Escrevo este texto contra isso. No maior desespero, porque sei que é inútil. E, no entanto, é exactamente o facto de ser inútil que torna este projecto tão importante aos meus olhos. E pouco importa se é bom ou mau. Escrevo-o porque não posso fazer de outro modo. E, sinceramente, só os livros escritos assim, contra tudo e contra todos, contra nós próprios sobretudo, têm algum valor aos meus olhos. Só quem escreve contra o suicídio merece ser lido (já houve evidentemente quem o tivesse afirmado antes de mim).



Estou sempre a voltar à Índia. A lembrar-me da Índia. De cenas que vi. De certos rostos também. Não exactamente dos rostos, mas das características de certos rostos. Os olhos, por exemplo. São muito perturbadores, os olhos dos indianos. Mais do que os olhos, o olhar. Há olhares que parecem capazes de ver dentro de nós.
Em contrapartida, de modo geral, os indianos são perfeitamente opacos. Impossível adivinhar o que estão a pensar, quando estão a olhar para nós.
Não são só os olhos que me vêm à memória. É muito bonito o sorriso dos indianos. Lá, todos os sorrisos são bonitos. Talvez porque são inocentes, espontâneos e desinibidos. Desinteressados também, diga-se o que se disser. Essa é uma das recordações mais gratas. No meio de tanto lixo, tanta miséria, tanta desgraça, tantos sorrisos, tão bonitos. Uma das razões porque gosto tanto da Índia é essa: o facto de lá ter encontrado tanta criança sorridente, tanta mulher bonita, tanto rosto digno. Há, com efeito, no rosto dos indianos, mesmo nos mais pobres, mais doentes, uma dignidade espantosa. Uma nobreza incrível.
Os olhos, o sorriso, as roupas. Recordo ainda as cores magníficas das roupas das mulheres. E os seus utensílios. As bilhas cromadas ou niqueladas que usam. Muitas vezes amachucadas, tão amachucadas como elas próprias. E os cestos cheios de bostas de vaca, tão importantes para elas, porque as “panquecas” que fazem com elas lhes permite cozinhar e aquecer-se.
Para mim, numa viagem os objectos mais insignificantes são tão importantes como os grandes monumentos. Sim, definitivamente, os pequenos objectos de uso quotidiano, o artesanato, os pormenores de decoração, podem ser, para pessoas simples como eu, tão ou mais importantes como a arquitectura de um templo ou o recheio de um museu. Muitas vezes, um simples par de sapatos, ou uma flor silvestre, comove-me tanto ou mais que uma catedral.



Benares ou Varanasi. Em francês é Bénarès, com um acento agudo e outro grave. Em inglês é (ou pode ser) Banaras. Na Índia vi outras versões, como Benarasi, por exemplo. Como se sabe, a cidade deve o nome aos rios Varuna e Asi, que confluem, mais ou menos, naquele local no Ganges. A cidade está construída ao longo do rio, numa só das margens. Em frente, na outra margem, não há nada. Parece uma ilha deserta: só pedras e ervas. E muita lama, parece. O contraste entre as duas margens é brutal. E, por isso, fascinante. Vista do rio, sobretudo ao nascer e ao pôr-do-sol, a cidade é monumental, toda constituída por imponentes palácios e templos, e grandes escadarias que terminam dentro de água, os chamados Gaths. E a decadência daqueles edifícios, longe de lhes diminuir a grandiosidade, dá-lhes uma aura sobre-humana, como se tivessem sido construídos por um povo que já não existe. Ou que partiu para outro planeta.
Por detrás desse cenário de fachada, esconde-se uma verdadeira espelunca. Uma verdadeira lixeira a céu aberto, tentacular, labiríntica. Quilómetros e quilómetros quadrados de ruas miseráveis, de barracas a fingir que são casas, de esgotos a fingir de ruas, onde brincam crianças e passeiam vacas esqueléticas, à mistura com todo o tipo de veículos. Para já não falar dos milhares de deficientes físicos e nos leprosos.
Como todas as cidades da Índia, Benares tem gente a mais, coisas a mais, demasiado barulho e animais. Tantos odores que, por vezes, o ar se torna quase irrespirável.
A cidade parece estar ali desde sempre e diz-se que é a cidade mais antiga do mundo. No entanto, nenhum edifício tem mais de 200 anos. Seja como for, Benares está fora do tempo, ao lado do tempo, numa espécie de “Twilight Zone”, onde tudo pode acontecer e tudo acontece realmente. Sobretudo o pior.
Dir-se-ia que a cidade existe em função da morte. Que é uma espécie de porta para outras vidas. Ou para o Nirvana que é outro nome para o Absoluto.
A mim bateu-me muito. MUITO.
Em particular a Casa da Morte, com os seus velhinhos recurvados, ocultando-se dos olhares, mas de mão estendida na esperança de uma esmola. Foi um homem que me abordou na rua que me conduziu até lá. Percebeu que eu procurava observar o ritual da cremação e desafiou-me a segui-lo para me mostrar um posto de observação privilegiado. E, com efeito, do segundo andar, lá de cima da varanda, via-se tudo muito bem. O ritual todo. O corpo a chegar, carregado por homens em passo de corrida, envolto numa mortalha amarela brilhante. O banho que se segue e a pira funerária. Lembro-me dos pormenores que o homem não se cansava de fornecer. São precisos duzentos quilos de lenha, pelo menos, para o corpo arder. E mesmo assim, muitas vezes, não arde todo. Nos homens costuma ficar parte da caixa toráxica. Nas mulheres são as ancas, segundo ele, que não ardem completamente. Falou também dos que não podem ser cremados: os doidos e as mulheres grávidas, por exemplo. Esses são atirados inteiros para o rio. Ouvia as suas explicações por alto, demasiado absorvido por um tumúlto de sentimentos e sensações estranhíssimos. Mas lembro-me de ter pensado que queimar os corpos mortos é a atitude mais inteligente. E mais bela também. Agrada-me a ideia de me desvanecer no ar.
Quando já me vinha embora, o homem explicou que aquela casa era chamada Casa da Morte porque aquelas pessoas estavam à espera de desaparecer. Ou porque eram demasiado velhos e ninguém queria saber deles, ou porque tinham doenças terminais. E pediam dinheiro para comprar lenha (para se queimarem, literalmente). A madeira custa caro, ao que parece, pois tem que vir de longe, e aquelas pessoas não têm dinheiro para os tais 200 quilos de lenha que são necessários. Abeirei-me de uma senhora envolta num longo xaile. Não lhe via o rosto, mas era de uma magreza extrema. Estava sentada no chão, de encontro a uma parede escura, húmida. Ela sentiu-me e virou-se, mas sem mostrar a cara e, quando lhe estendi uma nota, ela embrulhou a mão no xaile para a receber. Para que a sua pele não tocasse a minha. Percebi que era isso, mas não porque o fazia. Nunca vou esquecer aquele gesto. Levei dias a pensar naquele momento, naquela silhueta franzina, a tapar a mão para que não houvesse contacto físico. Porque era uma intocável? Para não me pegar a sua doença? Porque não era digna de me tocar ou porque não queria sujar a sua mão com o meu dinheiro?



São muitas as histórias de Benares e não sei se me apetece contá-las todas. Estive lá três ou quatro dias, mas foram dos mais intensos da minha vida. Num certo sentido, ainda estou em Benares.
Benares é, evidentemente, um lugar de desgosto. Mas – por mais escandaloso que esta afirmação possa soar – de um desgosto feliz (para não dizer alegre). Porque é a cidade da morte e logo da libertação. Morrer para um hindu é uma oportunidade para se redimir, para fazer melhor da próxima vez. Só espero que estejam certos, também eu tenho razões de sobra para cá voltar outra vez.



O escritor francês Olivier Rolin afirma num livro, com toda a razão, que «a verdade é que há lugares, paisagens, nomes que se ajustam ao desgosto e outros à alegria». Benares é, evidentemente, um lugar de desgosto. Mas – por mais escandaloso que esta afirmação possa soar – de um desgosto feliz (para não dizer alegre). Porque é a cidade da morte e logo da libertação. Morrer para um hindu é uma oportunidade para se redimir, para fazer melhor da próxima vez.

Uma coisa é certa: em poucos lugares do mundo, nos sentimos tão perto do além.

No mesmo livro, Rolin fala das «relações secretas entre escrever e viajar», alegando que «ambas as actividades atestam uma espécie de instabilidade essencial». Nada mais certo: escrevemos para procurar o nosso lugar no mundo e viajamos pela mesma razão. Enfim, alguns de nós, pois há vários tipos de viajantes. Há os que partem para regressar «diferentes», os que partem com a esperança de não mais regressar e os que não chegam a partir, mas que estão na mesma em viagem. E há uma quarta categoria, algo esquizofrénica – e que é a minha, confesso - que reúne todas estas numa só.

(Texto escrito no ano 2000)

Duas semanas em Nova Iorque

1.

Qual é a primeira coisa que fiz quando cheguei a Nova Iorque? Foi comprar a «Time Out», claro, para saber tudo o que havia para ver e ouvir na cidade (é verdade, o bom velho Village Voice, foi completamente ultrapassado como roteiro cultural da Grande Maçã). Tal como já acontece há muitos anos em Londres, a «Time Out – New York» tornou-se na «bíblia» semanal indispensável para saber tudo o que vai acontecer nos próximos dias. Assim, num belo dia 2 de Abril, este vosso criado, de passagem por Nova Iorque, apercebeu-se, de repente, que tanto podia ir ouvir Os Godspeed You! Black Emperor no Bower Ballroom, como o Grant-Lee Phillips no Joe’s Pub, os Heat Brothers no Village Vanguard ou ainda ir ao Harlem assistir à mítica «Amateur Night at The Apollo». Isto para já não falar de dezenas de outros concertos em locais tão lendários e apelativos como a Knitting Factory (que nessa noite prometia quatro projectos diferentes sobre os quais não tínhamos grandes referências), o Blue Note (onde actuava Albita) ou o Iridium (que propunha um Tributo a Lionel Hampton com o Quinteto de Terry Gibbs). No meio de tanta fartura, optámos por ir ouvir John Zorn com uns Masada electrificados no também já mitificado Tonic.
Caso não saibam, «the most important new club for the new music in the world», fica no coração do Lower East Side, um bairro com má fama de Manhattan que se está a transformar num dos locais mais «in» da cidade. A sala, mal se dá por ela, não tem nenhum letreiro à porta e a fachada parece a de um edifício abandonado. Lá dentro, o espaço é relativamente pequeno (mesmo assim maior que o Hot Clube) e a primeira coisa que nos saltou à vista foi a confusão, em cima do palco, atafulhado de tralha. Em pouco mais de dez metros quadrados, estavam um piano de meia-cauda, um outro eléctrico, um órgão Hammond, um sintetizador, uma bateria, um impressionante aparato percussivo, aparelhagens de todo o gênero, colunas, bancos, cabos, fichas... enfim, dir-se-ia não haver lugar para os músicos, tanto mais que se sabia que iam ser sete, os protagonistas do concerto: Zorn (sax), Marc Ribot (guitarra), Cyro Baptista (percussões), Kenny Wollensen (bateria), Jamie Saft (teclados), John Medeski (órgão) e Trevor Dunn (baixo). Um septeto que se revela uma explosiva fábrica de sons, quase uma máquina de guerra. Uma máquina inofensiva, no entanto, que em vez de bombas e balas produz surpresas sonoras e um prazer crescente, à medida que a música nos vai envolvendo, ou que nos vamos envolvendo nela.
Mas, para já, voltemos à sala, que mais parece uma grande garagem ou um pequeno armazém, onde alguém colocou um estrado à guisa de palco e umas quarenta cadeiras, o mais vulgares possível. Só arranja lugar sentado, portanto, quem chega primeiro. Mas a maioria do público está pouco preocupada com isso, aparentemente mais interessada pelo bar que está no extremo oposto do palco. O bar, esse sim, é um senhor bar, um verdadeiro regalo, bem apetrechado e com um balcão espaçoso. Nova Iorque é pródiga nestas incongruências, nestes pormenores insólitos e a música de John Zorn idem, idem, aspas, aspas. Mal entraram em palco (afinal cabiam lá todos), os músicos lançaram-se numa desbunda sónica caótica, com frequentes explosões da bateria, acompanhada por um baixista que parecia ter enlouquecido. A um sinal do líder, porém, o órgão pôs ordem no fugaz estado de sítio, lançando uma linha melódica que julgámos reconhecer, mas logo se transformou noutra coisa e noutra ainda. Tanto o ritmo como a melodia estão constantemente a mudar. Em permanente mutação, a música desenrola-se como uma serpente enfeitiçada por si própria.
Sentado num banco mais alto dos que os outros, Zorn dirige tudo com mão de mestre (e visível prazer). Nada se passa no palco sem o seu consentimento, sem instruções suas. Na realidade, está muito mais preocupado em «puxar» pelos seus companheiros do que em fazer ouvir o seu saxofone. Como Miles Davis, no final da sua vida, quase não intervém, aliás, e mesmo quando o faz, continua a dar ordens aos outros com uma das mãos. Observar a agitação das suas mãos - os seus códigos mudos - é metade do espectáculo. Mas a música é magnífica, até porque todos eles são instrumentistas extraordinários e improvisadores insaciáveis.
Cada tema prolonga-se assim por cerca de vinte minutos a meia-hora e, no entanto, no papel, a música escrita não ocupa mais do que meia-página A-4. Ninguém sabe quando será solicitado para tocar e isso faz parte do jogo (e do gozo). Zorn põe o baterista a dialogar com o percussionista, o guitarrista a afrontar o organista, o baixista a namorar o pianista e por aí fora. Atiça-os uns contra os outros, aproxima-os, separa-os, isola-os, reúne-os a todos num uníssono apoteótico, que afinal se revela não ser uma coda, mas apenas um clímax mais. Quando alguém faz alguma coisa nova ou surpreendente, ou extraordinária, Zorn aponta-o como um exemplo aos outros, com um largo sorriso. De resto, sorri o tempo todo (e nós também).
Depois de dois temas mais lúdicos, com momentos muito intensos e partes mais relaxantes, por vezes a roçar o burlesco, o «maestro» lança uma nova composição com um claro fôlego épico, melodramático. O uníssono inicial tem algo de bélico, quase insuportável. Parece ser uma clara alusão à guerra em curso no Iraque, tanto mais que a bateria ostenta um auto-colante anti-Bush. Será o tema mais curto de todo o set, mas também um dos mais aplaudidos.
Quando saímos para a rua, ainda vimos a levitar, com a certeza absoluta de ter escutado uma das bandas mais excitantes do momento. E vem-nos à memória uma frase que lemos em tempos a propósito de um outro concerto de John Zorn neste mesmo espaço: «Nights like this are what New York is all about».

2.

Quando se começa a falar de Nova Iorque, a dificuldade está em parar. A cidade mais fotogénica do mundo é também a mais generosa para o visitante ávido de novidades. Há ali tanto para ver e fazer que, depois, não se consegue relatar tudo. Nem por sombras. E muito menos numa revista dedicada ao jazz. No entanto, Nova Iorque é a capital mundial do jazz e quem gosta de música improvisada, ou simplesmente de boa música, corre mesmo o risco de sofrer um curto-circuito mental, por excesso de oferta e informação. Por exemplo: só a secção de jazz da Tower Records na Broadway é maior que o departamento de discos de qualquer uma das nossas FNAC. Foi, pelo menos essa a impressão com que fiquei. Isto para já não falar das muitas dezenas de lojas, pequenas, médias e grandes, com discos novos e em segunda mão, onde o coleccionador e o amante de raridades se podem perder (nos vários sentidos da palavra) à vontade. Enfim, não estou a dar novidade nenhuma a ninguém afirmando que existem em Nova Iorque cerca de 100 espaços diferentes – entre teatros, clubes e bares - onde é possível ouvir alguma forma de jazz, todas as noites.
De resto, a própria expressão Big Apple, aplicada a Manhattan, parece ter tido origem nos meios do jazz. Com efeito, há quem defenda que, nos primórdios, os músicos empregavam a palavra «maçã» para designar cidades onde tinham tocado pela primeira vez, pois era como se, devido ao nervoso miudinho, ficassem com um nó na garganta. E como Nova Iorque é o fruto mais apetecido no caminho do sucesso, ficou a Grande Maçã. Há outras teorias para a expressão, mas esta é sem dúvida a que mais nos agrada e nos parece mais plausível.
Claro que a cidade de Martin Scorcese e Woody Allen, não se resume ao jazz, sendo que - tanto como a Estátua da Liberdade, o Empire State Building ou o Edifício da ONU - se impõe uma visita ao Moma, Museum of Modern Art. Como se sabe, o Museu encontra-se fechado para obras, sabendo-se que vai renascer - num projecto do arquitecto Toshio Taniguchi - em 2005. Entretanto, parte do importantíssimo acervo do Museu está, provisoriamente instalada em Queens, onde no mês de Abril se podia ver uma magnífica exposição dedicada a Matisse e Picasso, pondo em relevo os paralelos entre as duas obras aparentemente tão diferentes.
Mais uma vez, exposições é o que não falta em Nova Iorque. Sem querer maçar ninguém, não resisto a falar, mesmo por alto, de uma exposição do fotógrafo Steven Klein que estava patente numa galeria da Wooster Street, por razões que já vão entender. O homem vem do mundo da moda e é conhecido pelo arrojo das suas ideias, mas nada nos preparou para o choque desta exposição centrada na figura de Madonna – a mediática diva pop - e montada com meios inusitados. Os diapositivos resultantes de uma sessão fotográfica que durou, ao que parece mais de oito horas, foram ampliados para tamanhos gigantes e encontravam-se dentro de grandes caixas metálicas, negras. Uma tecnologia designada «x-static pro=cess», permite que as fotos tenham pequenos pormenores animados: uma cortina agitada por uma leve brisa ou as chamas de uma lareira, por exemplo. O efeito é tremendo, tanto mais que os «palcos» que protegem as fotos têm colunas de som por onde sai a voz da própria Madonna, recitando, em «loop», excertos do Livro das Revelações. Em todas as fotos, a cantora assume poses de contorcionista, num cenário de um barroquismo extremado. Espantoso era igualmente era o imponente catálogo – vendido a um preço proibitivo – com mais de 200 fotos impressas num tecido que lembra papel vegetal, onde Madonna parece uma andróide sobrevivente do Blade Runner.
Para regressar ao tema da música afro-americana, não posso deixar de falar das missas negras no Harlem que, infelizmente, muitos visitantes portugueses esquecem, talvez por pensarem que frequentar o bairro ainda é perigoso. Não é. Desde que o carismático Giuliani foi Presidente da Câmara, NY tornou-se numa das cidades mais seguras do mundo. Nós ficámos, aliás, hospedados no Harlem e visitámos todos os outros bairros da megapolis, Brooklyn, Queens e Bronx, nomeadamente, sem o menor sobressalto.
Ir, ao domingo de manhã, a uma missa no Harlem devia ser obrigatório para todos os que gostam minimamente de jazz. Há dezenas de igrejas, mas a mais famosa de todas é, provavelmente, The Abyssian Baptist Church, fundada em 1808. O actual templo só existe, contudo, desde 1923. Ao domingo propõe dois serviços: um às nove e outro às onze horas. O primeiro é preferível, pois o das onze horas é frequentado por mais turistas do que crentes. Do mesmo modo, há a alternativa de assistir à missa numa igreja mais pequena e menos famosa. O coro pode ter menos elementos, o cenário não ser tão grandioso, mas o espírito é o mesmo e a experiência pode revelar-se ainda mais intensa, por razões óbvias. Pela nossa parte, no segundo domingo, optámos pela Second Cannan Baptist Church, na Lennox Avenue, onde a cerimónia começa às 11 e se prolonga até depois da uma da tarde.
As missas baptistas têm pouco a ver com as nossas. Não são apenas um pretexto para rezar e lavar os pecados, mas também para conviver, trocar impressões, informar-se acerca dos mais diversos assuntos e até para dançar. Para além do indispensável Coro feminino e do órgão, alguns templos também cantores solistas e instrumentistas vários para dar mais colorido e força aos vários momentos musicais, que vão alternando com as intervenções, por vezes muito acaloradas, dos pastores e seus acólitos. Em todos os casos, os visitantes ocasionais são convidados a participar nos cânticos (há livros à disposição dos neófitos) e a bater palmas cadenciadas, como se fosse possível resistir a fazê-lo.
A própria assistência é um deslumbramento para os olhos. Toda a gente vem com a sua melhor roupinha, sobretudo as senhoras que rivalizam em elegância e imaginação. Só as mais jovens não trazem chapéu, e alguns são verdadeiramente deslumbrantes. Mas a jóia mais bonita e vulgarizada entre o público não custa um tostão: são os sorrisos de felicidade dos fiéis, genuinamente contentes por estarem em comunidade, unidos por um ideal comum. Quão longe se está ali do tédio e excessivo formalismo das nossas missas, onde – dir-se-ia – Jesus é enterrado todos os domingos. No Harlem, pelo contrário, ele renasce de cada vez e é uma festa vivida e festejada por todos.
Os Cânticos são belíssimos, as vozes profundas, a musicalidade contagiante. E o organista (ou pianista) não pede licença a ninguém para swingar, quando é caso para isso. É impossível uma pessoa – mesmo a mais cínica e incrédula – não sair de lá com a alma purificada, bem disposta para o resto do dia. O jazz, todo o jazz - pelo menos aquele que não esqueceu de onde vem - está ainda hoje impregnado desta espiritualidade, que se pode respirar todos os domingos no Harlem. Se não acreditam, perguntem a qualquer jovem seguidor de John Coltrane ou Albert Ayler. A música não passa de uma estrada que vai dar ao céu.

3.

Se é difícil parar de falar de Nova Iorque, como já afirmei, também não é fácil dizer qual é o principal sentimento que a cidade nos deixa, no regresso a casa. Toda a gente sabe que é uma cidade de extremos e paradoxos. E que é impossível ficar-lhe indiferente. Como já alguém disse, com os seus quase nove milhões de habitantes (dos quais cerca de 30% nasceram no estrangeiro), «Nova Iorque é talvez demasiado pequena para ser um país, mas também é grande demais para ser uma simples cidade».
Gigante em altura, a megapolis é-o também pelo espírito que aqui reina. Nenhum nova-iorquino duvida que vive no próprio coração do mundo, na cidade mais importante do planeta. Mas não esqueçamos os seus aspectos negativos. Pela sua própria desmesura é um local onde as pessoas se sentem quase permanentemente sob pressão, por vezes ao ponto de se tornarem agressivas (não mais do que em Lisboa, no entanto). Como me disse um nova-iorquino que procurava ultrapassar-me numa bicha para apanhar o metro: «estamos em Nova Iorque não precisamos de ser bem-educados». Disse-mo com um sorriso, como quem pede desculpa, mas havia alguma verdade nas suas palavras: «time is money» e a pressa, aqui, justifica alguns atropelos.
A cidade é tão grande e tão diversa que ninguém pode pretender conhecê-la verdadeiramente, nem que fique um mês ou dois de visita. Provavelmente, nem que se viva lá dois ou três anos. É outro dos paradoxos de que falávamos: a cidade mais fotografada e filmada do mundo esconde milhares de segredos arquitectónicos, de lojas loucas, de pequenos jardins surpreendentes. Por outro lado, é a cidade de todas as culturas e etnias. Chineses, italianos, russos, mexicanos, paquistaneses, árabes, africanos, gregos, portugueses... há restaurantes para todos os gostos e não há nada, absolutamente nada, que não se consiga arranjar algures, desde a primeira edição do primeiro álbum de John Coltrane à primeira edição dos Lusíadas (como se sabe, não existe propriamente uma primeira edição dos Lusíadas, mas sim várias, cada uma com algumas variantes, porque na altura os livros eram feitos um a um e não em grandes tiragens como hoje).
Resumindo: uma visita a Nova Iorque é indispensável não somente para quem gosta de jazz (é tal e qual como para um árabe ir a Meca), mas também para quem queira perceber como é que aquela cultura pôde tornar-se dominante em termos mundiais, ao ponto de se ter tornado uma parte importante da nossa cultura também, quer tenhamos consciência disso ou não. Mas cuidado: como disse Paul Morand, o mais cosmopolita e divertido dos escritores franceses, em Nova Iorque «a bagagem mais pesada é uma carteira vazia».

(Texto escrito em 2003)