<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-1590904165947063584</id><updated>2012-01-16T15:17:01.450-08:00</updated><category term='Cabo Verde (S. Nicolau)'/><category term='Seychelles'/><category term='Nova Iorque'/><category term='Japão'/><category term='México'/><category term='Roma'/><category term='Índia'/><category term='Fotografia e viagem'/><category term='China'/><category term='Tailândia'/><category term='Canadá'/><category term='África do Sul (Robben Island)'/><title type='text'>Cadernos de Viagem</title><subtitle type='html'>Textos e fotos de Jorge Lima Alves</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://parentisis.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://parentisis.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Jorge Lima Alves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10491056008163359117</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/ScSqWt2Ha1I/AAAAAAAABCo/Il6SwbfoQcM/S220/L1040628.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>13</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1590904165947063584.post-6600955363575885518</id><published>2010-02-18T10:44:00.000-08:00</published><updated>2012-01-16T15:12:12.509-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roma'/><title type='text'>Caderno romano</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;b&gt;30 de Janeiro de 2010&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Primeira constatação, primeira surpresa: pensava que nunca tinha estado em Roma e afinal já cá tinha vindo várias vezes. Em sonhos, pelo menos. A cidade magnífica onde decorreram alguns dos meus sonhos mais espectaculares, afinal era esta e eu não sabia. Os esmagadores monumentos que não consigo fotografar a dormir, estavam aqui à minha espera. É uma sensação estranha e poderosa. Como Diz Michel Onfray: &lt;em&gt;«Tout voyage voile et dévoile une réminiscence».&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Por isso, apesar do frio e dos chuviscos frequentes, atravessei (atravessámos) a cidade a pé, numa ânsia louca (e descabida) de tudo descobrir imediatamente. Em poucas horas fomos da estação (Termini), onde fica o nosso hotel, até a Trastevere, do outro lado do rio, onde a Raquel queria jantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/S32LvT_NodI/AAAAAAAACpo/-XN3UcZYaQE/s1600-h/DSC_0710.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ct="true" height="266" src="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/S32LvT_NodI/AAAAAAAACpo/-XN3UcZYaQE/s400/DSC_0710.JPG" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;A vista da ponte é magnífica e tirei aí as minhas primeiras fotografias. Na outra margem, dei de caras com a «Casa de Dante». Foi gasolina para a minha já incendiada imaginação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bairro popular por tradição (e a tradição aqui remonta à época dos Césares), o Trastevere é uma espécie de Bairro Alto romano com muitos bares e restaurantes, frequentados sobretudo por estudantes e turistas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de jantar, percorremos longamente as ruas vizinhas e, já esgotados, fomos descansar os pés na Basílica de Santa Maria, a primeira igreja construída em Roma (pelo Papa Calisto III). Uma bela igreja situada numa bela praça, que é o coração do bairro. Na fachada estão fragmentos de lápides e duas «anunciações» do século XV. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ali perto, pudemos visitar também uma bonita farmácia que data do século XVII, com vidros e paredes com deliciosas pinturas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por mais incrível que pareça, depois de um belíssimo jantar no Mario’s, voltámos a pé para o hotel, atravessando todo o centro para ver «Roma by night».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;2º dia, Domingo 31&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de um longo percurso, sem rumo predefinido, fomos dar, sem querer, à famosa Piazza del Campidoglio, desenhada por Miguel Ângelo. O céu, coberto de nuvens cinzentas, deixava passar alguns raios de sol. A luz estava magnífica, «coada», como se alguém tivesse aplicado no céu um filtro polarizador destinado a fazer sobressair os pormenores da arquitectura e das esculturas. Em dias assim, a luz é uma verdadeira lupa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao desembocar naquele local, vindo pelas traseiras, fiquei tão deslumbrado que me lembro de ter pensado: «Esta é, porventura, a mais bonita praça onde já alguma vez estive». Vivi ali um momento mágico, a olhar para aqueles edifícios perfeitos e para aquelas estátuas que emprestam ao local uma vibração muito especial. Para mais, mesmo no centro da praça do Capitólio está a estátua equestre de Marco Aurélio (é uma cópia, pois a verdadeira está protegida dentro de um dos palácios), um pensador que tanto admiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Li algures que a estátua só se salvou porque na Idade Média pensava-se que representava Constantino, o primeiro imperador que protegeu os cristãos. Se não fosse isso, teria sido derretida para fazer sinos, como aconteceu com tantas outras esculturas de bronze.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O largo quadrado está circundado por três palácios, abrigando dois museus que prometi a mim mesmo visitar noutro dia. O quarto lado tem uma balaustrada, de onde se pode ver parte da cidade. Dá para uma escadaria que desce até ao centro, mas não foi por aí que descemos. Circundámos a praça e fomos dar à parte de cima do alvíssimo Monumento a Victtorio Emanuele II, a que alguns romanos chamam, ternamente, «a máquina de escrever», por causa da sua forma muito particular.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descendo para a Piazza Venezia, metemos pela rua dos foros imperiais onde se podem avistar todo o tipo de ruínas. São várias camadas de história que se oferecem aos nossos olhos, pelo que, enquanto caminhava ia pensando: &lt;em&gt;«O tempo reduz tudo a cinzas e pó, só a monumentalidade assegura alguma longevidade. Os imperadores romanos, como os faraós do Egipto sabiam-no por certo».&lt;/em&gt; Contudo, nem mesmo os mais grandiosos monumentos da humanidade resistirão eternamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensando nos milhões de pessoas que tiveram que sofrer para construir estes e outros monumentos que, antes de mais nada, celebram a vaidade de alguns tiranos, enchi-me de tristeza. São, com efeito, necessárias muitas vidas sacrificadas para um instante de grandeza. Veio-me à cabeça um exemplo dos nossos dias: a maior torre do mundo que vi ser construída no Dubai, por milhares de operários indianos que trabalham em regime quase de escravatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À hora do almoço, caiu uma forte carga de água que nos impediu de continuar a passear. Aproveitámos para nos refugiar num restaurante onde comemos uma pizza deliciosa. Mais tarde, já com a barriga cheia, fomos visitar o Coliseu. Observando as ruínas, voltaram os pensamentos sombrios. Pareceu-me ouvir os gritos da multidão, o ruído das armas, os rugidos dos leões, a aflição dos escravos e dos presos. Imaginei o entusiasmo de uns e o terror dos outros. Mentalmente anotei: &lt;em&gt;«Antigamente ia-se ao circo para ver morrer, hoje basta acender a televisão». &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao pé do Coliseu, alguns indianos (estão por toda a parte, tal como os pedintes romenos) vendiam chapéus de chuva. Queriam vendê-los mesmo a quem vinha munido de um, como era o nosso caso. A quem traz um chapéu pequeno, propõem um grande. A quem traz um grande, propõem um pequeno. E são insistentes. Umas verdadeiras chagas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/S32MJQE8CYI/AAAAAAAACpw/0TAFlEA4ysc/s1600-h/DSC_0927.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ct="true" height="400" src="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/S32MJQE8CYI/AAAAAAAACpw/0TAFlEA4ysc/s400/DSC_0927.JPG" width="266" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;No Aventino, um museu mínimo, deparei com meia-dúzia de esculturas, já meio destruídas, mas de eleição: metade de um rosto aqui, um corpo de mulher sem rosto ali, um vestido de pregas acolá e uma cara de menina mais além. Verdadeiros poemas de pedra, de artistas anónimos, que me comoveram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À saída, tomei uma nota no meu caderninho: &lt;em&gt;«Todos poderíamos ser génios nalguma coisa se a escola estivesse vocacionada para descobrir o melhor em cada um de nós. Se a escola não fosse uma fábrica de alienação».&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caminho para o hotel, a minha cabeça não parava. Pensava: &lt;em&gt;«Bichos dotados de alguma inteligência, ardemos como agulhas inconsequentes»&lt;/em&gt;. E depois: &lt;em&gt;«O que seria uma humanidade que vivesse só para o bem? Que vivesse para criar e se proteger? Como seria o mundo se todos quiséssemos o bem de todos? Isso sim, seria magnífico: um mundo de gente simples e inteligente.»&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Mais tarde&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terei de voltar a Roma, parece-me óbvio. Esta cidade não se esgota com uma visita. Aliás, isso não acontece com local nenhum. Com muitas poucas excepções, fico sempre com vontade de voltar aos locais que visito. Mas algumas cidades têm uma maneira muito própria de exigir uma nova visita. Daí as moedas na Fontana di Trevi, um ritual a que poucos escapam. Não deve haver ninguém que não queira regressar a Roma, acho eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não coloquei a mão na Boca da Verdade, nem sequer a fotografei. No local, um letreiro exigia 50 cêntimos a cada turista para o fazer, especificando: «Uma foto por pessoa». Pensei: &lt;em&gt;«Aqui, até as mentiras se pagam».&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Mais tarde&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao jantar (comemos num restaurante ao pé da estação de comboios), uma francesa come os dois jovens empregados com os olhos. Sorri-lhes o tempo todo e faz-lhes olhinhos. A Raquel comenta: «Aquela está com o cio». Eu respondo: «Também uma cidade pode despertar-te um desejo tão forte como o desejo sexual. Ao ponto de a queres possuir. Também eu sinto uma espécie de cio por Roma. Quero ver tudo, ir a todo o lado». A Raquel encolhe os ombros e suspira: «Depois, o corpo é que paga».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;3º Dia, 1 de Fevereiro&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Piazza Navone, Fontana di Trevi, Piazza de Espagna, Gueto… foi aproveitar o sol ao máximo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No bairro judeu, comemos maravilhosamente. Primeiro uns bolos comprados numa pequena padaria, depois um esparguete com marisco de cair para o lado, numa tasca que nem sequer era recomendada pelos nossos guias (como sempre viajamos com um Guide du Routard, desta feita na tradução espanhola, e um Lonely Planet).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na praça de Espanha, a Raquel comprou um par de luvas de cabedal (parece que cada dia que passa está mais frio que o anterior). Quanto a mim, comprei um livro de fotografias do Mario Giacomelli, um dos fotógrafos de que mais aprecio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às cinco da tarde já não podíamos andar mais. Metemo-nos num autocarro e viemos para o hotel, onde acabámos por adormecer, extenuados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando chegou a hora de ir jantar, desabafei: &lt;em&gt;«Só me apetecia ir descalço».&lt;/em&gt; A Raquel riu, percebendo muito bem o que eu estava a sentir. Temos ambos os pés inchados e doem-nos todos os músculos das pernas e das ancas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;4º dia, terça-feira&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jantar no Leoncino, uma pizzaria aconselhada pelo Trotamundos, a versão espanhola do Guide du Routard, que me foi oferecido no dia em que fiz 60 anos. De resto, o exemplar que tenho comigo está assinado por todos os amigos que foram a esse jantar e que me ofereceram cheques de viagem para que eu pudesse, finalmente, conhecer Roma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Leoncino (um restaurante que nunca mais vou esquecer) é frequentado quase exclusivamente por italianos. Do canto onde nos encontramos, vejo várias personagens que poderiam perfeitamente figurar num filme do Fellini. A meu lado, um casal de lésbicas, já meias bêbadas, interrompem de vez em quando a refeição para ir lá fora fumar um cigarro. Uma tem o rosto muito vermelho, a outra ostenta uma cabeça enorme. Ambas feias, têm ar de se amar loucamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa mesa à minha frente está uma falsa loira com lábios injectados com botox. Aquela boca enorme dá-lhe um ar tão lastimável que passo o tempo todo a evitar olhar para ela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Noutra mesa, está uma versão caricatural do Larry David, um dos criadores do Seinfeld e do Curb Your Enthusiasm (duas séries televisivas) e actor principal do novo e divertidíssimo filme de Woody Allen, Whatever Works. Trata-se de um careca já sexagenário, com um resto de cabelo comprido na nuca. Tem óculos de aro grosso e um nariz enorme, tipicamente judeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O próprio empregado que nos serve, também ele sexagenário, é de antologia. Parece o deus Baco vestido com uma bata branca. O seu ar não engana: gosta mais da pinga do que da mãe. Barrigudo, tem um ar bonacheirão e cofia constantemente a barba e o cabelo grisalhos. Ri com frequência e é afável com toda a gente. Sem dúvida que lhe deixarei uma boa gorjeta, tanto mais que as pizzas são óptimas, com massas fininhas e ingredientes frescos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vinho da casa podia ser melhor, mas como vem fresquinho, escorrega com facilidade. Parecia muito e bebemo-lo todo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há anos que ouvia dizer que a Villa Borghese é um dos museus mais bonitos do mundo. Pois bem, é verdade.&lt;br /&gt;Escondido nos jardins de Pincio, o palácio foi construído em 1613 pelo cardeal Scipion Borghese, que ali queria reunir a sua fabulosa colecção de arte. Actualmente, o número de visitantes está restringido a 360 de cada vez, pelo que convém reservar.&lt;br /&gt;Já agora uma observação: apesar de todos os guias de viagem afirmarem que a melhor maneira para chegar ao museu é sair no Metro Flamínio, recomendo antes sair na Piazza de Spagna e seguir pelos corredores subterrâneos que indicam Villa Borghese.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre inúmeras maravilhas (possui obras de Rubens, Ticiano, Dürer, etc), as que mais me marcaram foram duas esculturas de Bernini («O rapto de Proserpina» e «Apolo e Dafne») e dois quadros de Caravaggio («David e Golias» e «A Madona com a Serpente»).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já tinha visto reproduções do «David e Golias», mas ao vivo o quadro tem a força de um murro no estômago. Um jovem David segura pelos cabelos a cabeça degolada de Golias, que tem os olhos e a boca horrivelmente abertos. Na verdade, este Golias é o próprio Michelangelo Merisi (Caravaggio era o nome da sua aldeia natal, que ele adoptou como nome artístico), que viria a falecer pouco tempo depois em circunstâncias nunca completamente esclarecidas (faleceu a 18 de Julho de 1610, aos 37 anos).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com este quadro, pintado propositadamente para oferecer ao Papa, o pintor queria fazer-se perdoar um crime hediondo a fim de regressar finalmente à Pátria. O facto de se ter colocado no lugar do morto é visto como um sinal do seu arrependimento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostei ainda mais d’«A Madona com a Serpente» onde vemos a Virgem segurar no menino (já quase adolescente) sob o olhar atento de uma outra mulher. Jesus está nu e pisa o pé da mãe que por sua vez pisa uma cobra que se contorce sob a pressão. O simbolismo é evidente, mas a mistura de ingenuidade angelical que se desprende das duas figuras santas contrasta com a forte carga erótica representada pelo contacto dos pés, o decote da virgem e a pilinha bem em evidência do seu filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabemos que aos olhos de Caravaggio, Maria representava «a» mulher e que para representar a Virgem Maria escolhia geralmente meretrizes, como no quadro que acabo de descrever. Caravaggio era de resto um «rufia», conhecido por procurar brigas, frequentar o submundo e andar com armas proibidas por lei. Como se sabe, esteve preso por diversas vezes e viria a assassinar um homem (no dia 29 de Maio de 1606), pelo que teve de fugir de Itália e viver exilado até ao fim dos seus dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À tarde, visitámos os Museus Capitolinos (Palácio dos Conservadores e Palácio Novo). No primeiro, estão mais dois belíssimos quadros de Caravaggio, um representando uma cigana que lê a sina a um jovem fidalgo, o outro, São João Baptista. Ou seja, esta noite vou adormecer novamente com os olhos cheios de coisas belas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(Àparte&lt;/em&gt;: nos museus romanos, os cidadãos europeus com mais de 65 anos, ou menos de 18, não pagam.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num jornal que li hoje no metro, o escritor francês Daniel Pennac opina: &lt;em&gt;«O homem constrói porque está vivo, mas escreve livros porque se sabe mortal. Vive em grupo porque é gregário, mas lê porque se sente só».&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mesmo jornal, uma notícia afirma que, no final de 2009, havia qualquer coisa como 212 milhões de desempregados no mundo. Tristemente, eu sou um deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;5º Dia, quarta-feira&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Raquel acordou doente. Doe-lhe a cabeça, está mal disposta e parece febril. Não quis levantar-se, nem para tomar o pequeno-almoço. Recusa-se também a ir ao hospital. &lt;em&gt;«Deixa-me dormir»,&lt;/em&gt; suplica, para logo acrescentar: &lt;em&gt;«Vai tu à Central Montemartini».&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Central é uma extensão dos Museus Capitolinos instalada numa antiga fábrica na margem sul do Tibre. Ali, uma bela colecção de escultura da antiguidade clássica está misturada com maquinaria que data do princípio do século XX. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O espólio da Central Montemartini inclui várias estátuas que ornavam o frontespício do Templo de Apolo Sossiano, por exemplo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/S32MWChyexI/AAAAAAAACp4/bdSfr2QheKY/s1600-h/DSC_1205.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ct="true" height="400" src="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/S32MWChyexI/AAAAAAAACp4/bdSfr2QheKY/s400/DSC_1205.JPG" width="267" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Algumas das esculturas estão muito «comidas pelo tempo». Ou sejam, começaram há muito a desaparecer. Perante estes rostos a que faltam já o nariz, a boca e, nalguns casos, até os olhos, surpreendi-me a pensar nos homens que representam. Queriam que o seu retrato perdurasse, mas não ficará cá memória de ninguém, nem dos imperadores, nem dos filósofos ou simples anónimos. «Tout doit disparaître», como dizem os cartazes de algumas lojas francesas. O tempo tudo devora, como muito bem lembra um poema de Séneca que não resisto a transcrever (numa tradução um bocado atabalhoada do francês):&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Insaciável, o tempo tudo devora e colhe,&lt;br /&gt;Tudo destrói mão poupando nada.&lt;br /&gt;O rio seca, a praia também,&lt;br /&gt;A montanha treme e o cume rui.&lt;br /&gt;Que imposta tudo isto? O próprio céu&lt;br /&gt;Se incendiará por completo subitamente.&lt;br /&gt;A morte tudo aspira: é uma lei, não vale a pena chorar.&lt;br /&gt;Um dia, o mundo deixará de existir.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outras estátuas comovem-nos pela delicadeza das feições, das poses, ou de um detalhe pitoresco. Notáveis as estátuas de jovens efebos, com nádegas e pernas de mulher, mas enfeitados com atributos bem masculinos. A atracção pela androginia e a ambiguidade sexual já vem de longe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À tarde, vista ao Museu Nacional Romano. Mais estátuas, algumas magníficas e muitas moedas. O que mais me encantou foram os frescos, os murais funerários e as pinturas de jardim que enfeitavam as moradias romanas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lindas as figuras femininas e também os animais, que fotografei sem vergonha. Como gostaria de dormir entre paredes pintadas por estes artistas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa outra sala, vi uma reconstituição virtual de uma vivenda romana que me deixou estupefacto. Aquilo sim, era luxo. Os filhos da mãe sabiam viver. Quase constantemente mergulhados em guerras e intrigas palacianas que lhes podiam custar a vida a todo o momento, gozavam a vida ao máximo, não se poupando nenhum prazer. Comiam bem, bebiam melhor, fornicavam que nem coelhos e rodeavam-se de coisas belas. De uma coisa não os podemos acusar: de falta de sentido estético.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(&lt;em&gt;Àparte&lt;/em&gt;: às &lt;strong&gt;bocas de incêndio&lt;/strong&gt;, os italianos chamam &lt;strong&gt;idratante&lt;/strong&gt;.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num jornal gratuito, que apanhei no Metro, leio: &lt;em&gt;«Os italianos são um povo de bloggers».&lt;/em&gt; Segundo a notícia, mais de um milhão de italianos mantém um blogue. 2, 3 milhões lêem-nos e há mesmo quase 700 mil internautas que afirmam informar-se exclusivamente nos blogues. Os dois temas mais procurados neste país são o desporto e a actualidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dos apontamentos que tomei ao longo do dia, destaco este: &lt;em&gt;«Viajar é a minha maneira de viver poeticamente cada minuto que passa.»&lt;/em&gt; E já agora mais um:&lt;em&gt; «De tudo o que vi e ouvi no mundo, o que retive de essencial fui sempre eu. Eu sou o meu futuro. O mundo é o meu caminho: o rio que me há-de levar até ao fim.»&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando cheguei ao quarto, a Raquel acordou. Apeteceu-me dizer-lhe:&lt;em&gt; «A minha casa é onde tu estás.»&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;6º Dia&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Raquel sente-se melhor, por isso, decidiu ir comigo ao Vaticano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Basílica, logo à entrada, está a famosa «Pietá». Protegida por um vidro desde que foi vandalizada, apenas se pode ver ao longe. Com tanta gente a tirar-lhe fotografias, nem dá para ver bem. Para além da monumentalidade, a basílica é realmente bonita. Gostei do púlpito e do baldaquino de Bernini, extremamente original. Diz a Wikipédia: «Trata-se de um alto baldaquino de bronze dourado, de quase 30 metros de altura, construído de 1624 a 1633. De plintos em mármore, que mostram o escudo de armas do papa, erguem-se quatro colunas torcidas que suportam o peso do baldaquino com um globo e uma cruz. O desenho é exuberante, cheio da energia e movimento próprios ao Barroco, a solução ideal para o imenso espaço aberto no interior pelo domo central. Para obter bronze suficiente o papa ordenou derreter bronzes antigos do Panteão, fazendo com isso o povo de Roma dizer: «O que os bárbaros não conseguiram fazer, fizeram os Barberini...»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/S32MeKChmpI/AAAAAAAACqA/X7FAiiXSbxQ/s1600-h/P1070861.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ct="true" height="400" src="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/S32MeKChmpI/AAAAAAAACqA/X7FAiiXSbxQ/s400/P1070861.JPG" width="300" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Dentro do Vaticano, se incluirmos os vários museus, anda-se quilómetros. Nem tudo é digno de atenção, mas só a visita das Estâncias de Rafael e da celebérrima Capela Sixtina já merece os 14 euros que se pagam de entrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As capelas pintadas por Rafael são magníficas. Gostei em particular da que representa o famoso «Incêndio do Borgo». Quanto à Capela Sixtina (ou Sistina) merece toda a sua reputação. Poderíamos ficar horas a admirar tanto o tecto como a parede do altar, que representa o Juízo Final. Estou, contudo, demasiado cansado para escrever sobre o que senti naquele local esmagador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(&lt;em&gt;Àparte&lt;/em&gt;: a famosa guarda suiça do Vaticano existe desde o século XVI. O pitoresco traje que ainda hoje usam foi desenhado por Miguel Ângelo).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;A meio da noite&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabo de ter um dos mais belos sonhos da minha vida. Não me lembro das circunstâncias, mas de repente desatava a cantar e não conseguia mais parar. As palavras jorravam da minha boca sob a forma de canto, como a água da fonte. Sem parar. O meu canto transportava-me cada vez mais alto. Tudo o que eu dizia rimava e era lindo. E a Raquel amava-me cada vez mais por causa disso. Em casa, o pó ia-se acumulando mas nós não nos ralávamos com isso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A certa altura, o sonho tornou-se tão intenso que acordei sobressaltado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na minha cabeça, martelava uma história. Ou melhor, um esboço de história. Os apontamentos que tirei (na casa de banho, para não acordar a Raquel), dizem assim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;«Era uma vez um país onde os espelhos nunca chegaram a ser inventados. Por isso, as mulheres quando se queriam pôr bonitas tinham que se desenhar em cadernos. Assim, quando morriam, os filhos podiam vê-las não como se lembravam delas, mas como elas eram realmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os homens não desenhavam. Faziam a barba uns aos outros e, por isso, nunca se matavam».&lt;/i&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;7º Dia, sexta-feira&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou tão obcecado pelo Caravaggio que hoje decidi dedicar-lhe o dia. Logo de manhã fui à galeria Doria Pamphilj, um belíssimo palácio mesmo no centro da cidade com uma colecção fabulosa de obras de arte. Pieter Brueghel, Durer, Ticiano, El Greco, Tintoreto… estão lá muitos quadros admiráveis, mas o que eu queria ver sobretudo eram os dois Caravaggios: «Descanso na fuga para o Egipto» e «Madalena penitente». As duas obras estão lado a lado e salta à vista que, em ambas, a mulher é a mesma. Até a posição do rosto e expressão são idênticas. Consta que o modelo terá sido uma prostituta. De resto, naquele tempo, o pintor usava quase sempre gente do submundo para os seus quadros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O «Descanso na fuga para o Egipto» é uma obra de juventude. É mais luminoso e alegre que as obras posteriores, mas já tem pormenores geniais. O modo como José descansa os pés, um em cima do outro, por exemplo, e a nudez do anjo que está de costas para nós, tocando violino de olhos fechados. Também Maria e o menino parecem ter os olhos fechados, sem dúvida para apreciar melhor a música, como eu costumo fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para além de José, só o burro tem os olhos abertos. Está lá atrás, meio escondido, como um mirone, talvez perguntando a si próprio porque será que a sua voz nunca chegará ao céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A segunda etapa do meu percurso Caravaggio levou-nos à Igreja S. Luiz dos Franceses que ontem, por ser quinta-feira, estava fechada. Aí esperavam-me três novas pinturas do mestre do «claro-escuro» (como alguns lhe chamam), que evocam três fases da vida de São Mateus. Ornam as paredes de uma capela e só se podem ver ao longe, em más condições. Gostei especialmente do quadro intitulado «A Vocação de S. Mateus», onde Jesus Cristo irrompe na sala onde se encontra o cobrador de impostos. A luz que ilumina os diversos rostos, e muito em particular a um jovem que tem um chapéu com uma pluma na cabeça, empresta à cena um encanto indescritível. Neste, como noutros quadros, Caravaggio comporta-se como um fotógrafo de cena que fosse simultaneamente um encenador genial, pelo modo como dispõe as personagens no quadro e as expressões que lhes coloca no rosto, para já não falar do modo como os ilumina. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A terceira vista foi ao Palácio Barberini onde está o quadro que mais queria ver: «Judite e Holofernes». &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/S32Mm0OVVPI/AAAAAAAACqI/-XmrhyivnjU/s1600-h/DSC_1608.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ct="true" height="266" src="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/S32Mm0OVVPI/AAAAAAAACqI/-XmrhyivnjU/s400/DSC_1608.JPG" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Diz a história que a bela Judite seduziu um general inimigo, cujas tropas cercavam a cidade onde vivia, organizando um banquete em sua honra. Quando ele adormeceu, já bêbado, ela degolou-o com a ajuda de uma criada e expôs a sua cabeça nas muralhas da cidade, para que o exército inimigo debandasse. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este episódio sangrento inspirou muitos artistas, e dado o gosto de Caravaggio pela violência, o tema só podia inspirá-lo. A obra tem uma força estonteante. Dificilmente esquecerei a espada atravessada no pescoço daquele homem barbudo, cujo grito mudo consigo ouvir só de o imaginar. Qualquer dos três rostos em cena é brutal: o da vítima, entre o espanto e a agonia, o da criada carregado de ódio e, sobretudo, o de Judite com um olhar onde se mesclam a determinação e o nojo, mas também (será impressão minha?) um quase imperceptível prazer sádico. Direi mesmo que, pelo menos aos meus olhos, este é de todos as obras de Caravaggio que conheço, a mais poderosamente sexualizada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A seu lado, o «Narciso», outra das suas obras mais emblemática, quase passa despercebida.&lt;br /&gt;O Narciso de Caravaggio não parece apaixonado por si próprio. Vejo nele apenas um adolescente meditativo. Imagino-o a perguntar-se: «Quem é este que vejo? eu? Mas quem sou eu?». &lt;br /&gt;Por mim, respondo: a nossa imagem está sempre a mudar. Como poderíamos nós reconhecer-nos, num espelho ou numa fotografia? O rosto que vi de manh enquanto fazia a barba, não eraexactamente o mesmo que na véspera.&lt;br /&gt;Se olho para fotografias antigas, sou obrigadoa a concluir: «Todas estas imagens mentem, eu não estou verdadeiramente em nenhuma. Mais: nunca estive. Se fui aquele gajo, nem dei por isso».&lt;br /&gt;Na verdade, não tenho uma imagem a que chame minha.&amp;nbsp;Por vezes, penso que a&amp;nbsp;minha imagem está espalhada aos quatro ventos e que&amp;nbsp;cada pessoa que cruzo na rua conhece-a melhor do que eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Sábado, dia de regresso&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de regressar a Lisboa, ainda tivemos tempo de ir a um mercado e visitar as Termas de Caracalla, que se revelaram uma grande decepção. &lt;br /&gt;As ruínas deixam perceber a sua antiga grandiosidade, é verdade, mas só restam parcos vestígios dos mosaicos que cobriam o chão e algumas paredes. Tudo o resto desapareceu.&lt;br /&gt;Vale no entanto a pena lembrar que as termas (construídas entre 212 e 216 a.C.) eram um vastíssimo conjunto de piscinas e ginásios, abertos durante 24 horas e empregando centenas de escravos. Podia receber até 1600 pessoas em simultâneo e, por tuta e meia, qualquer romano tinha acesso a banhos turcos, piscinas de água quente e fria, massagens e tratamentos de beleza. &lt;br /&gt;Nos ginásios praticavam-se vários desportos, como a luta e a esgrima. Os intelectuais preferiam frequentar o auditório, a biblioteca e apreciar as&amp;nbsp;muitas obras de arte que ali se encontravam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As Termas de Caracalla encerraram em 537 d.C., quando se romperam os aquedutos, que tinham 91 quilómetros de extensão com uma capacidade para 80 mil litros de água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/S32MwEswrOI/AAAAAAAACqQ/4LMXugAIVfE/s1600-h/DSC_1659.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ct="true" height="266" src="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/S32MwEswrOI/AAAAAAAACqQ/4LMXugAIVfE/s400/DSC_1659.JPG" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;No avião de regresso, escrevi no meu caderninho: &lt;em&gt;«Escrever, viajar, fotografar: tudo isto remete para a mesma pulsão. Uma pulsão de vida (PARAR É MORRER)».&lt;/em&gt; E lembrei-me de uma frase do filósofo Michel Onfray que reza assim: &lt;em&gt;«Dans le voyage, on découvre seulement ce dont on est porteur».&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1590904165947063584-6600955363575885518?l=parentisis.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default/6600955363575885518'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default/6600955363575885518'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://parentisis.blogspot.com/2010/02/caderno-romano.html' title='Caderno romano'/><author><name>Jorge Lima Alves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10491056008163359117</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/ScSqWt2Ha1I/AAAAAAAABCo/Il6SwbfoQcM/S220/L1040628.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/S32LvT_NodI/AAAAAAAACpo/-XN3UcZYaQE/s72-c/DSC_0710.JPG' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1590904165947063584.post-5689360769314978999</id><published>2009-08-07T15:52:00.000-07:00</published><updated>2012-01-16T15:17:01.473-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Canadá'/><title type='text'>Caderno canadiano</title><content type='html'>&lt;strong&gt;1º dia (18 de Junho, quinta-feira)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegou o dia e já estou no avião. A minha alma parece mais pura que ontem, talvez por estar aberta à aventura. Com a Raquel passa-se provavelmente o mesmo: estamos ambos a fazer uma das coisas que mais gostamos na vida: viajar. Na verdade, estávamos à espera deste momento, desde que viemos do México.&lt;br /&gt;Por mim, diria que cada viagem que faço dá início, por assim dizer, a uma nova etapa na minha vida. &lt;br /&gt;Segundo Thoreau, um rei chinês tinha escrito na sua banheira: «Renovai-vos completamente em cada dia». Em verdade vos digo: é mais fácil fazê-lo quando estamos longe de casa.&lt;br /&gt;Em «Walden», um livro de que tanto gosto, Thoreau lembra ainda, e muito bem, que «o trajecto está preparado para nós, quer viajemos depressa ou devagar». Se alguma coisa aprendi com todas as viagens que fiz é que, com efeito, não vale a pena querer ver tudo, ou ir a todo o lado. Andemos depressa ou devagar, cada viagem traz sempre, de qualquer modo, o seu quinhão de descobertas, desilusões, maravilhas, fotografias e recordações. O viajante não deve ter mais olhos do que barriga, pois por cada coisa que perdemos, ganhamos outra. Tudo está em tudo e o essencial está por toda a parte. A toda a hora. &lt;br /&gt;De mãos vazias o digo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No momento de embarcar para o avião, na Portela, ocorreu-me uma frase de Peter Handke que li recentemente («À Ma Fenêtre Le Matin»): «Mon être-lá est de plus en plus un être lá-bas: je suis emporté vers le lieu où je ne suis pas»).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Mais tarde&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por muito que goste de viajar e de aviões, estar sentado tantas horas num espaço tão exíguo é uma tortura. O meu rabo fala por mim. E as costas confirmam-no. &lt;br /&gt;A meu lado, a Raquel tem frio. Em contrapartida, estou cheio de calor. Só tenho uma t-shirt vestida e estou a transpirar. Muito perto de nós, uma rapariga tem o blusão vestido e está toda encolhida, enquanto o seu namorado está de t-shirt como eu. A cada um a sua temperatura?&lt;br /&gt;Antes do almoço, vi um documentário sobre a «Route 66» (um velho projecto nosso). A reportagem consistia essencialmente numa colecção de entrevistas realizadas ao longo da estrada, penso que por dois franceses. No minúsculo ecrã do avião, desfilaram donos de cafés, lojistas, almas solitárias. Gente de idade avançada na sua maior parte, com histórias dos bons velhos tempos para contar.&lt;br /&gt;Pelo que percebi, a Route 66 já quase não existe. É mais uma lenda que se desfaz. &lt;br /&gt;Há troços da estrada que já não são transitáveis e a sensação de decadência está por todo o lado. O filme deixa a ideia de que a América profunda é uma América esquecida. Envelhecida. Meio abandonada. Já a paisagem ainda é grandiosa. Sobreviverá sem dúvida aos homens que tanto mal lhe têm feito. Tudo indica, porém, que ela própria desaparecerá um dia. É o preço da eternidade.&lt;br /&gt;Numa conversa com o Daniel, ontem à noite, enquanto comíamos uns caracóis numa esplanada de Campolide, a certa altura tive que lhe dizer: «Envelhecer é ir perdendo as certezas. Aos 20 anos sabemos tudo, aos 30 surgem as primeiras dúvidas e aos 60 já não temos a certeza de nada». &lt;br /&gt;Mal tive tempo de acabar a conversa. Tivemos que ir a correr para casa, porque ia passar na televisão a reportagem da Ana Romeu sobre o «Testamento Vital».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Amesterdão, como combinado, a Joana veio ter connosco ao aeroporto. Trouxe o Samuel que vi assim, pela primeira vez, andar pelo seu pé. Ele não me reconheceu e tive alguma dificuldade em fazer-me aceitar. Está muito giro, mas muito irrequieto. O tempo passou a correr, outro avião esperava por nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Muitas horas depois&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Vancouver, deparámos com um quarto horrível, num hotel a sul do centro, não muito longe da Ilha Granville. Feio e claustrofóbico, o tegúrio tinha um sofá-cama verde mal parido, com duas partes separadas por uma cova incómoda. Ainda por cima, uma das «metades» da cama era mais estreita do que a outra.&lt;br /&gt;Apesar de exíguo, o quarto incluía num canto uma espécie de cozinha ridícula, também ela mal concebida, com armários até ao tecto e um frigorífico barulhento. Enfim, um verdadeiro pesadelo, até no preço. O mínimo que se pode dizer é que a relação qualidade-preço era péssima.&lt;br /&gt;(A família Maio teve mais sorte. Teve direito a uma cama verdadeira.)&lt;br /&gt;Antes de jantar, fomos dar um passeio pelas redondezas. Acabámos por comer numa espécie de rodízio de carnes grelhadas, numa atmosfera de saloon para cowboys, frequentada sobretudo por asiáticos. Há, de resto, asiáticos por todo o lado. No autocarro que apanhámos para o hotel, quase toda a gente tinha os olhos em bico. &lt;br /&gt;Já tinha lido algures que hoje em dia a maioria dos emigrantes do Canadá vêm da Ásia. Não levei muito tempo a perceber de que assim é de facto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sexta, 19. Vancouver&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPUt8-QaAI/AAAAAAAAB3Y/SmqG9jLde6E/s1600-h/DSC_6537.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPUt8-QaAI/AAAAAAAAB3Y/SmqG9jLde6E/s400/DSC_6537.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369369066682214402" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar dos chuviscos frequentes, passámos o dia a deambular «downtown», depois de uma passagem pela estação de comboios para comprar os bilhetes para Toronto, já que os nossos guias aconselhavam a fazê-lo com antecedência. Comprados alguns dias antes, os bilhetes ficam mais baratos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPUuezAkgI/AAAAAAAAB3g/LqjIqZvifpI/s1600-h/DSC_6571.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPUuezAkgI/AAAAAAAAB3g/LqjIqZvifpI/s400/DSC_6571.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369369075761844738" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do que vi da cidade até agora, gostei especialmente de Yaletown e da Grandville na zona dos teatros (parte da rua está em obras, o que acentuava o seu carácter cinematográfico). Um dos cartazes que vi anunciava a vinda próxima de Neko Case, uma cantora americana de que gosto muito. Mais um concerto a que não vou poder assistir, com grande pena minha. Resta-me uma consolação: trago por acaso no ipod o seu último álbum (intitulado «Middle Cyclone»). Ainda não o ouvi, mas não perde pela demora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPUvEWt58I/AAAAAAAAB3o/jaNAqbXCUU8/s1600-h/DSC_6747.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPUvEWt58I/AAAAAAAAB3o/jaNAqbXCUU8/s400/DSC_6747.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369369085843728322" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Almoçámos num bistrot e jantámos sushi. &lt;br /&gt;O filho do Luís Maio é doido por sushi, especialmente de salmão. Parece ser a sua comida preferida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sábado, 20. Vancouver&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de virmos, vi um programa na televisão onde se assegurava que Vancouver é, de todas as cidades do mundo, aquela que tem o melhor nível de vida. Passeando pelas ruas do centro, não custa nada acreditar em tal afirmação. Muito cosmopolita, a cidade propõe uma arquitectura globalmente simpática, onde coexistem harmoniosamente arranha-céus modernos e vivendas de madeira. Não se sente stress aqui.&lt;br /&gt;Ao contrário do que sucede em Lisboa, os jornais locais não falam praticamente, nem da crise nem da gripe A.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPWHRl_AaI/AAAAAAAAB4A/__K8UyODvPI/s1600-h/DSC_6975.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPWHRl_AaI/AAAAAAAAB4A/__K8UyODvPI/s400/DSC_6975.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369370601225912738" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passámos a manhã em Granville Island, onde as docas deram lugar a ateliers de artes plásticas e escolas de todo o género. Ali se encontram vários mercados simpáticos (há um kid’s market, um public market e um marine market, por exemplo), restaurantes e cafés, várias galerias de arte, teatros e casas lacustres que muito invejámos. A ilha é um paraíso para as crianças, com vários parques e actividades que lhes estão destinadas. Vi um atelier de teatro cheio de crianças e, noutro local, mais crianças a pintar ou a desenhar em grupo. Aqui até dá vontade de ser pai.&lt;br /&gt;Na Charles H. Scott Gallery, uma das muitas galerias por onde passámos, vimos uma interessante exposição de fotografias de arquitectura de Selwyn Pullan, intitulada «Positioning the New». Constituída por fotografias tiradas entre 1945 e 1975, a mostra foi pretexto para uma discussão (amigável) com o Luís Maio, pois ambos saímos com ideias muito diferentes acerca do trabalho do fotógrafo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao almoço, partilhei sem querer um hambúrguer de salmão com uma gaivota traiçoeira. Surgiu-me pelas costas e arrancou-me um pedaço da sandes, felizmente sem me tocar. Primeiro fiquei furioso, depois desatei a rir, tanto mais que não é a primeira vez que tal me acontece. Uma vez, estava eu na Cidade do Cabo, à espera do teleférico para me levar à Table Mountain, veio um passarão enorme que me levou a sandes que me preparava para comer.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPUvioySoI/AAAAAAAAB3w/kOoUOcGffL4/s1600-h/DSC_6808.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPUvioySoI/AAAAAAAAB3w/kOoUOcGffL4/s400/DSC_6808.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369369093972576898" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da ilha partem ferrys e aquataxis que percorrem o false creek (falso rio) em todas as direcções. Por isso, decidimos ir de barco até à zona do Space Center onde estava a decorrer um «dragon boat festival». A certa altura, o nosso barquito ficou sem bateria e a rapariga que o conduzia (uma loura de compleição atlética) teve que remar e pedir ajuda pelo telemóvel. O Luís tirou-lhe uma foto quando ela estava a remar e a moça não gostou nada. Ralhou com ele, disse que era muito mal-educado por tirar fotos sem pedir autorização.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde fomos à feira da ladra, onde comprei uma máquina fotográfica antiga (uma Brownie Kodak) para a minha colecção. O Luís ofereceu-me um livro de fotografias que eu hesitava em comprar, mais por causa do peso do que por causa do preço (10 dólares): «The Russian Heart: Days of Crisis &amp; Hope», de David C. Turnley.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao fim do dia, passeio pelo West End e pelas praias, antes de jantarmos, numa brasserie, mexilhão e batatas fritas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Domingo, 21. Ilha de Vancouver&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPWHnNsu0I/AAAAAAAAB4I/rqfhNiltrUY/s1600-h/DSC_7065.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPWHnNsu0I/AAAAAAAAB4I/rqfhNiltrUY/s400/DSC_7065.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369370607029631810" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tivemos que acordar bem cedo, para apanhar a camioneta para a Ilha de Vancouver. A viagem de barco é fantástica. A paisagem é maravilhosa, com o mar salpicado de ilhas cobertas por florestas e a luz estava fabulosa, dando ao mar e ao céu cores deslumbrantes. Quem tem máquina não consegue parar de tirar fotografias.&lt;br /&gt;Em Victoria, fomos para o Elm’s Inn, um hotel que vinha muito aconselhado nos nossos guias. O quarto era efectivamente fantástico, muito espaçoso, com uma cama king-size e uma boa casa de banho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPWIFCzZnI/AAAAAAAAB4Q/zLoQBnuJCK4/s1600-h/DSC_7133.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPWIFCzZnI/AAAAAAAAB4Q/zLoQBnuJCK4/s400/DSC_7133.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369370615036995186" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco depois, alugámos um carro na Budget e fomos passear pela costa. A ilha de Vancouver tem sensivelmente o tamanho da Holanda, por isso estava fora de questão irmos a todo o lado em tão pouco tempo. Limitámo-nos, por isso, a visitar duas praias, a French beach e a Botanical beach. &lt;br /&gt;Encontram-se na Ilha de Vancouver muitas árvores com 400 ou mesmo 500 anos. Algumas já existiam quando a Europa estava a sair da Idade Média. É impressionante pensar nisso, enquanto se percorrem os trilhos abertos à beira-mar.&lt;br /&gt;Antes de adormecer, ainda li no «Epoch Times» (um jornal que panhara durante o dia) um inquietante artigo sobre os perigos da nanotecnologia e outro, igualmente muito interessante, sobre os problemas actuais dos aborígenes canadianos, cuja população não pára de crescer. Segundo o jornal, os índios actuais continuam com problemas de adaptação, virando-se frequentemente para o álcool e a delinquência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Segunda, 22. Victoria&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De manhã, passeio de carro até um parque que mal vimos porque o Luís e a Ana quiseram vir-se embora. Queriam visitar os jardins, mas não demos com o sítio. Meio zangados uns com os outros, em Victoria, separámo-nos. &lt;br /&gt;A Raquel e eu deambulámos pelas ruas, sempre tirando fotografias e almoçámos num restaurante simpático chamado Il Paglici, onde os pratos tinham nomes engraçados: «Spaghetti western», por exemplo, ou «Marinade in Manhattan». Havia ainda um «Dish with no name», um «Hemingway short story» e uma «Jane’s addiction».&lt;br /&gt;À tarde, fomos visitar o museu local porque a Raquel tinha curiosidade em ver os quadros de Emily Carr, a pintora mais famosa do Canadá que nasceu em Victoria (1871). Muita da sua pintura pareceu-me influenciada pelos impressionistas franceses, mas estavam patentes outras fases da sua obra mais interessantes. Não fiquei, contudo, especialmente impressionado pelos seus quadros. &lt;br /&gt;No museu estavam outras exposições. Nomeadamente uma de arte japonesa («Edo: arts of Japan’s last Shogun age») e outra intitulada «The Great Landscape» com obras de vários artistas da Columbia Britânica. A exposição que preferi intitulava-se «O Mundo de Pernas Para o Ar» («World Upside Down»), e era composta por obras que não conhecia mas também exemplos retirados do cinema, da banda desenhada, e da literatura.&lt;br /&gt;Na loja do museu comprei uma «reciclagem»; um velho garfo que alguém transformou num improvável insecto de prata. Adorável.&lt;br /&gt;De regresso ao centro, numa loja, onde a Raquel entrou para ver sapatos, ouvi uma cliente queixar-se à empregada: «O sapato aleija-me um pouco o pé. Que pena, gosto tanto deles. Deus não quer que eu compre um par de sapatos hoje». Ao que a vendedora respondeu, para meu grande espanto: «Deixe estar minha senhora, vai ver que amanhã encontra os sapatos perfeitos para si.»&lt;br /&gt;A simpatia dos canadianos continua a surpreender-me!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Terça, 23. Vancouver&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inaugurado em 1889, o Stanley Park é o pulmão da cidade de Vancouver e uma das suas principais atracções. Com os seus 400 hectares, é (como eles dizem) «uma das maiores ilhas de verdura urbana da América do Norte. Situado numa quase-ilha, o parque tem 400 hectares e alberga cortes de ténis, campos de golfe, piscinas, campos de jogos, um comboio em miniatura, um anfiteatro e um aquário.&lt;br /&gt;Para o percorrer, alugámos bicicletas. Começámos por dar a volta toda ao parque (num total de quase nove quilómetros) e acabamos por ir visitar o aquário, que adorámos. Ficámos com uma óptima ideia da biodiversidade do mar nesta zona do globo e deixámo-nos encantar especialmente pelas anémonas. Na parte exterior do Aquário há leões-marinhos, focas, golfinhos e pequenas baleias brancas. Lá dentro estão, para além dos peixes e outros seres marinhos, papagaios, macacos, serpentes, crocodilos e sei lá que mais. No final, felicitei-me por ter visitado o local, que achei no entanto um tanto assustador. O fundo do mar e os seus seres sempre me meteram medo. Lembro-me mesmo da primeira ver que fui ao Aquário Vasco da Gama: nessa noite quase não consegui dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPWIRpYVOI/AAAAAAAAB4Y/Nn-j7h-L768/s1600-h/DSC_7678.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 265px; height: 400px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPWIRpYVOI/AAAAAAAAB4Y/Nn-j7h-L768/s400/DSC_7678.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369370618420024546" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algures no parque, pode ler-se numa placa: «para o uso e prazer das pessoas de todas as cores, credos e costumes». É o que mais gosto em Vancouver: esta ideia de que a cidade pertence a todos. Infelizmente, não é essa a sensação que tenho em Lisboa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quarta, 24. Comboio. Jasper.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Noite no comboio. Como as couchettes são demasiado caras, não tivemos outro remédio senão procurar dormir sentados, como no avião. Passei a noite às voltas, sem conseguir dormir. Tinha dores nas coxas e nas costas e não conseguia deixar de ouvir a buzina do comboio, que não se calava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPXJUQzCVI/AAAAAAAAB4o/86U0ooNeEpU/s1600-h/DSC_7963.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 267px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPXJUQzCVI/AAAAAAAAB4o/86U0ooNeEpU/s400/DSC_7963.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369371735813720402" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando acordei, ou melhor, quando decidi que já não valia a pena procurar o sono, olhei pela janela e percebi que estava no Faroeste. Vi vaquinhas à solta na estrada, cavalos na pradaria e gente a viver em caravanas ou em cabanas de madeira, com carrinhas de caixa aberta à porta, tal e qual como nos filmes.&lt;br /&gt;Mais tarde, entrámos nas montanhas e a paisagem mudou. Fiquei com a cabeça cheia do verde da floresta e dos rios. Na carruagem panorâmica, enquanto deixava que toda a minha mente se impregnasse do que via, ouvia o novo disco de Neko Case e aquela música fazia todo o sentido naquele cenário deslumbrante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPXJ01RWmI/AAAAAAAAB4w/5tz_nzBgEx0/s1600-h/DSC_8014.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 267px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPXJ01RWmI/AAAAAAAAB4w/5tz_nzBgEx0/s400/DSC_8014.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369371744556636770" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São quatro noites de Vancouver a Toronto de comboio. As couchettes são a um preço proibitivo (pelo menos para mim), pelo que tivemos que dormir sentados. Não é muito confortável, nem há a possibilidade de tomar duche (em económica), mas a paisagem que vai desfilando pelas janelas vale todos os sacrifícios. Há, de resto, carruagens panorâmicas, com o tecto envidraçado, para se ver melhor. As refeições a bordo também são bastante boas e relativamente baratas (12 dólares). Na zona do bar, há filmes e concertos, de vez em quando.&lt;br /&gt;Para os ricos, há um outro comboio que liga Vancouver a Jasper, atravessando as Rochosas. Chama-se precisamente Rocky Mountanaieer e só circula entre Maio e Outubro. Como este comboio especial só viaja de dia, para não se perder nada do espectáculo oferecido pelas montanhas (picos de neve, cascatas, canyons, glaciares, florestas a perder de vista, ursos á solta, etc), a viagem inclui uma noite de hotel em Kamloops.&lt;br /&gt;Em Jasper, acabámos no Jasper Inn, um hotel com piscina e jacuzzi, que mal aproveitámos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quinta, 25. Rocky Mountains&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Parque nacional de Jasper é, segundo os guias turísticos, «um dos locais mais notáveis do Canadá». Os guias prometem «vales a perder de vista, cadeias de montanhas acidentadas e lagos puros e cintilantes», para além de glaciares, como o Columbia Icefield.&lt;br /&gt;À saída de Jasper, depois de pagar uma portagem (para andar dentro do parque tem que se pagar um bilhete diário), a primeira etapa foram as Athabasca Falls, umas cascatas impressionantes, rodeadas de montanhas deslumbrantes, com florestas a perder de vista. Mais adiante, novas cascatas ( Sunwapta falls) e mais um bom punhado de fotografias. &lt;br /&gt;A própria estrada é um espectáculo, acho que nunca percorri nenhuma com tanta emoção. Se bem que a primeira vez que atravessei o Atlas em Marrocos, o meu coração deu muitos pulos! Enquanto avançávamos em direcção a Banff, pensava: «Na cidade, fazemos parte do espectáculo. Na montanha, não. O espectáculo está todo fora de nós. Aqui, verdadeiramente, as árvores escondem a floresta».&lt;br /&gt; Aos meus olhos, cada árvore é uma pessoa. São todas tão diferentes umas das outras. Algumas fascinam-me mais do que outras.&lt;br /&gt; Penso em tudo o que a floresta nos esconde e digo para mim próprio: «Não vemos quase nada». Depois, penso: «Ver é sentir e sentir é uma maneira profunda de pensar». Gostaria de pensar como uma montanha.&lt;br /&gt;Mais adiante, depois de um piquenique na estrada, chegámos ao Columbia Icefield, que visitámos naqueles autocarros enormes, iguais aos que circulam na Antártica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPXKiQ9O0I/AAAAAAAAB5A/Bcs2N9TxweQ/s1600-h/DSC_8325.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPXKiQ9O0I/AAAAAAAAB5A/Bcs2N9TxweQ/s400/DSC_8325.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369371756752354114" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante a visita, fiquei a saber que o território que hoje ocupa o Canadá conheceu quatro épocas glaciares. Os glaciares de Athabasca e Columbia faziam outrora parte de um tapete glaciar que corroeu e esculpiu o relevo que hoje vemos nas Rochosas. A certa altura, o glaciar Athabasca cobria um vastíssimo território que ia do Norte até às planícies, para lá mesmo de Calgary. A mais recente época glaciar terminou há apenas 10 mil anos. A maior parte dos glaciares da América do norte está ainda a recuar, pois cada Verão derrete mais neve do que a que cai.&lt;br /&gt;Quando a neve que cai atinge uma profundidade de cerca de 30 metros, as camadas inferiores comprimem-se e transformam-se em gelo. À medida que a neve se vai acumulando, a espessura do gelo aumenta e espalha-se.&lt;br /&gt;Os visitantes não vêem senão uma pequena parte do Glaciar, que continua a mover-se imperceptivelmente, pois o gelo das camadas mais fundas, sob a pressão enorme, torna-se «elástica». As camadas superiores são mais quebradiças e formam, por isso, fendas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPXKdNzZ-I/AAAAAAAAB44/R9eUBNJ0SVk/s1600-h/DSC_8316.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPXKdNzZ-I/AAAAAAAAB44/R9eUBNJ0SVk/s400/DSC_8316.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369371755396949986" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao deslocar-se, o glaciar arrasta tudo o que encontra pelo caminho, rachando as próprias rochas e formando as «moraines».  &lt;br /&gt;O Columbia Icefield, que ocupa 325 metros quadrados, para além de fornecer água em quantidade, refresca a temperatura, tornando os invernos ainda mais rigorosos.&lt;br /&gt;Chegámos a Lake Louise ao final do dia. A Ana Loureiro não quis ficar num Hostel (nossa escolha), porque não tinha quarto de banho privativo, e tivemos que ir para um hotel caro. O problema nas Rochosas, tal como avisava o Guide du Routard, é que em termos de hotéis só se arranja ou chunga ou chique, não há cá meios termos. &lt;br /&gt;Mal acendemos a televisão do quarto do hotel, tivemos a notícia de que morreu o Michael Jackson. Levou-o uma paragem cardíaca aos 50 anos.&lt;br /&gt;Ao jantar, nova discussão com o Luis maio e a Ana. Decidi, por isso, que seria melhor separarmo-nos em dois grupos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sexta, 26. Jasper&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De regresso a Jasper, usámos a carrinha Nissan para ir ao Lake Maligne. De caminho, visitámos o Maligne Canyon e o Medecine Lake, o lago que desaparece. Na estrada, em vários locais, podemos fotografar de perto vários caribus que passeavam na floresta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPZIM5nujI/AAAAAAAAB5Q/b-mynkiDMDE/s1600-h/DSC_8439.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPZIM5nujI/AAAAAAAAB5Q/b-mynkiDMDE/s400/DSC_8439.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369373915680848434" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Maligne Lake é o maior lago das Rochosas canadianas e um dos mais fotografados. Tem mais de 27 quilómetros de extensão e foi um jesuíta belga que o baptizou com esse nome, em 1846. 60 anos mais tarde, a exploradora Mary Schaffer (a primeira mulher a visitar o local) considerou-o uma das paisagens mais espectaculares das Rochosas. Não sei se não é mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPZHrZCeOI/AAAAAAAAB5I/Lc_d19ath28/s1600-h/DSC_8401.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPZHrZCeOI/AAAAAAAAB5I/Lc_d19ath28/s400/DSC_8401.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369373906685819106" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os índios chamavam a Marie Schaffer «Yahe-Weha», que quer dizer «mulher das montanhas». Filha de uma família rica da Pensilvânia, ela casou com um botanista aos 19 anos. Ficou viúva os 30 anos, mas continuou a explorar as Rochosas, com a ajuda de um guia chamado Billy Warren, com quem ela viria a casar mais tarde. &lt;br /&gt;Todos os anos, 7500 quilómetros cubos de água caem sobre esta região, sob a forma de chuva ou de neve. A sua força de erosão é tremenda e o vale do rio Maligne tornou-se profundo e estrito, ganhando a forma de um V.&lt;br /&gt;Não longe do lago podem observar-se os canyons que assim se formaram.&lt;br /&gt;Perto dali está o lago Medicine, que tem a particularidade de desaparecer durante alguns meses. Esse fenómeno assustava os índios e intriga ainda hoje os cientistas. Calcula-se que, quando o lago desaparece, a água do rio continue a sua marcha para o Ártico através de subterrâneos e cavernas cavadas no calcário, pois o rio reaparece perto do Canyon Maligne, a 16 quilómetros dali. Curiosamente, a água leva cerca de 16 horas a percorrer esses 16 quilómetros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPZImakGZI/AAAAAAAAB5Y/jYxuvBj1cyM/s1600-h/DSC_8447.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPZImakGZI/AAAAAAAAB5Y/jYxuvBj1cyM/s400/DSC_8447.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369373922529909138" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já em 1956, um professor francês reconheceu a existência de um rio subterrâneo, mas até hoje ninguém conseguiu localizá-lo exactamente.&lt;br /&gt;Quanto às montanhas que rodeiam o lago, continuam também elas a evoluir. A erosão está a esculpi-las lentamente. Nem as montanhas escapam ao envelhecimento.&lt;br /&gt;A rocha mais antiga que se encontrou no local contém fósseis de conchas com mais de 600 milhões de anos!&lt;br /&gt;Em Jasper resolvemos ficar numa casa particular. A proprietária, com um bebé ao colo fez-nos visitar o quarto e a casa de banho. Depois, de muita conversa, muito simpática, decidiu fazer-nos um desconto, sem que lhe pedíssemos nada.&lt;br /&gt;Às 17h fomos entregar a carrinha. Confusão com os preços, com os quilómetros, com tudo. A senhora era um pouco totó, mas acreditou em tudo o que dissemos.&lt;br /&gt;As pessoas em Jasper são relaxadas, confiantes. Gostam de conversar. Sorriem muito e são muito bem-educadas.&lt;br /&gt;Na lavandaria, uma senhora meteu conversa connosco. Percebeu que precisávamos de ajuda e ensinou-nos a trabalhar com a máquina. Vive em Jasper há 15 anos. Tem dois filhos. Gosta da cidade e não se importa com o frio. Diz que chega a fazer menos 40. Contou-nos que um dia faltou a luz em toda a cidade e os bombeiros andaram de porta em porta a perguntar se estava tudo bem.&lt;br /&gt;Enquanto a máquina lavava a nossa roupa, consultámos a Internet. Pela primeira vez desde que estamos no Canadá. Poucas notícias, mas de monta: um editor quer publicar «Palavra de Músico», o meu livro de entrevistas. Só em 2010, porém.&lt;br /&gt;Nas Rochosas, o tempo está sempre a mudar. Tão depressa está fresco como está calor. Pode chover a potes e daí a nada estar um calor de rachar. Há até um ditado que diz: «Se não gostas do tempo que está, espera cinco minutos.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sábado, 27. Jasper&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;First thing in the morning, just after beakfast, comprámos bilhetes de camioneta para Edmonton e alugámos um Toyota Yaris na Hertz para ir a Pyramid Lake e depois até Miett Hot Springs, onde telefonámos para casa (mami, Daniel, Gina e pais da Raquel). Estavam no local várias famílias menonitas, que tive vergonha de fotografar. Mesmo assim ainda tirei á socapa duas fotos. É irresistível ver as raparigas vestidas como as mães, com os mesmos vestidos, feitos nos mesmos tecidos. &lt;br /&gt;Cada família tinha a sua caravana, mas havia umas mais imponentes do que outras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPZJGSuIGI/AAAAAAAAB5g/VbriTdUsmo4/s1600-h/DSC_8546.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 267px; height: 400px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPZJGSuIGI/AAAAAAAAB5g/VbriTdUsmo4/s400/DSC_8546.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369373931086946402" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À beira dos lagos ou dos carreiros que levam à montanha, há bancos públicos, para uma pessoa descansar ou sentar-se a apreciar a paisagem. Todos têm pequenas placas incrustadas, invocando alguém. Este em que estou sentado neste momento, por exemplo, diz: «À memória de X. que tantas vezes se sentou aqui». Inscrições semelhantes estavam também nos bancos dos parques em Vancouver. Na verdade estão por todo o lado aqui no Canadá. Que bela maneira de evocar os mortos!&lt;br /&gt;No caminho para os diversos sítios pudemos ver vários animais selvagens, em particular caribus e cabras da montanha. Quando vais na estrada e vês carros parados sabes logo que estão animais por perto. Apesar dos cartazes e avisos para não sair do carro, poucos conseguem resistir a aproximar-se dos animais para tirar fotografias. &lt;br /&gt;À tarde, fomos até Mount Edith Cavell, talvez o local mais espectacular onde já estivemos nas Rochosas. Adorei o local, com o seu lago gelado, as rochas todas partidas e o vale magnífico a perder de vista.&lt;br /&gt;De repente, ouvi um troar e pude ver um grande pedaço de gelo vir por ali abaixo, desfazendo-se pelo caminho. &lt;br /&gt;Na hora e meia que ali passámos, pudemos assim ouvir três avalanches.&lt;br /&gt;O alto do Monte fascina. Os índios chamavam-lhe «fantasma branco». Foi em 1916 que o monte ganhou o seu nome actual, em memória de uma enfermeira inglesa executada pelos alemães durante a primeira guerra mundial. &lt;br /&gt;As rochas todas cá em baixo, na base do Monte são os vestígios de uma glaciação recente. Tudo começou, parece, há 400 anos, quando um ligeiro resfriamento da terra fez com que os glaciares crescessem. Mais tarde, quando recuaram, deixaram estes montes de pedra, que aqui chamam «moraines».&lt;br /&gt;Agora, pouco a pouco, a vida está a voltar ao vale devastado pelo glaciar. Árvores crescem um pouco por todo o lado.&lt;br /&gt;No trilho que conduz ao glaciar, um esquilo, de repente, atravessa-se à nossa frente. É lindo e fofo e livre. O seu território é magnífico e imagino-me na sua pele enquanto o observo. &lt;br /&gt;Será que tem predadores? &lt;br /&gt;Uma hora mais tarde, são uns pássaros que chamam a minha atenção. Acho que são quebra-nozes, mas não tenho a certeza. Também eles são bonitos, mas não parecem muito simpáticos uns com os outros. Uma mulher atira-lhes pedaços de bolacha e assustam-se uns aos outros para apanhar os melhores bocados. Tal como os homens, têm que fazer prova de esperteza e mostrar-se mais fortes para conseguir alguma coisa.&lt;br /&gt;Que vida!&lt;br /&gt;Vêm-me à memória os menonitas que vi em Miette Hot Springs. Que gente tão estranha e fascinante. Eram várias famílias e todas tinham o mesmo ar rude e infeliz (impressão minha?).&lt;br /&gt;Eles rosados, robustos, com aquele ar típico de lavradores, de gente que vive da terra e da leitura da Bíblia. Elas com uma touca ou um lenço na cabeça, envergando vestidos simples em tecido barato. Pormenor engraçado: as filhas usam exactamente as mesmas roupas das mães, enquanto os rapazes são reproduções em miniatura dos pais.&lt;br /&gt;Não posso deixar de reparar que a cada família corresponde um jipe ou uma carrinha com uma caravana atrelada. E que há caravanas e carros bem melhores do que outros. Por mais religiosos ou comunistas que sejam os homens, haverá sempre uns mais iguais do que outros. Os menonitas não parecem ser excepção.&lt;br /&gt;Morrerei sem ter compreendido a estupidez humana. Não me parece que haja verdadeira inteligência no mundo e o significado da palavra consciência tem que ser muito relativizada.&lt;br /&gt;Como seria o mundo se a proporção fosse completamente invertida e que as pessoas fossem, na sua maioria, sábias ou santas? Como seria um universo onde o bem e a solidariedade fossem a regra?&lt;br /&gt;Será que num universo paralelo, Deus conduz experiências diferentes? Se existe, é bem provável que tenha criado uma infinidade de universos paralelos com realidades completamente diversas e que se entretenha a fazer comparações.&lt;br /&gt;Estou a delirar! É sem dúvida por influência destas montanhas esmagadoras, destas florestas impressionantes que me rodeiam. A sua grandeza, a sua beleza estimula a minha imaginação. Na verdade, exaltam-me.&lt;br /&gt;De repente, gostaria de ser uma árvore no meio das outras. Ter esquilos a trepar por mim acima, sentir os pássaros a esvoaçar dentro de mim, balançar ao sabor do vento e meditar sem fim. Mas até para ser árvore é preciso ter sorte. Não gostaria de ser uma árvore numa rua de Lisboa, por exemplo. A ser árvore, que fosse aqui nas Rochosas, neste vale aos pés do Monte Edith Cavell, onde o ar é puro e os visitantes se mostram civilizados.&lt;br /&gt;De regresso a Jasper, fomos às compras. Como tínhamos passado frio nos glaciares, comprámos polares. A Raquel comprou também umas sandálias, para substituir as que tinha trazido e entretanto se tinham estragado.&lt;br /&gt;Na loja onde comprei o meu polar, estive á conversa um bom bocado com o vendedor. Percebi que era francês e quis saber como tinha ido ali parar. Quis ainda saber quanto ganhava e como era a sua vida. Ele está em Jasper há 4 anos. Veio até aqui por causa do ski e decidiu aqui ficar. Percebo-o perfeitamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Domingo, 28. Jasper. Edmonton&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passámos a manhã no Jasper Museum Historical Gallery. Ficámos assim com uma ideia do que foi a construção dos caminhos de ferro. O museu evoca o nascimento da cidade, o aparecimento dos primeiros turistas e a criação do parque Natural. Eis os nomes de algumas das exposições patentes: «Jasper's First Tourist James Carnegie», «Earl of Southesk; a Celebration of the Park Warden Centennial 1909- 2009» e «Cowpoke Episodes: Glimpses into the Life and Times of a Canadian Cowboy, Stan (Windy) Carr».&lt;br /&gt;Uma das histórias que o Museu conta é a dos irmãos Brewster (Jim e Bill), que criaram a primeira agência de turismo na zona. Guias profissionais levavam os visitantes ricos a contemplar os magníficos panoramas das Rochosas, no final do século XIX.&lt;br /&gt;Depois do almoço, apanhámos camioneta para Edmonton. Numa das paragens, em Edson, roubei uma fotografia a um cowboy.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPZJn3bXFI/AAAAAAAAB5o/rIrJoTCEepQ/s1600-h/DSC_8717.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPZJn3bXFI/AAAAAAAAB5o/rIrJoTCEepQ/s400/DSC_8717.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369373940099275858" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Edmonton, fomos para o International Youth Hostel, em Old Strathcona, uma espécie de bairro alto com ruas residenciais, tranquilas. O quarto era básico, mas correcto e a casa de banho, fora do quarto, era mesmo estupenda.&lt;br /&gt;Enquanto passeávamos na Whyte Avenue, percebemos vimos um jovem negro ser preso pela polícia. O ambiente em alguns locais é de barra pesada. Há um forte cheiro a erva no ar, e vêem-se vários vagabundos.&lt;br /&gt;Antes de ir para a cama, jantámos muito bem, num restaurante cajun, muito anos 50, com jukeboxes em cada mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Segunda, 29. Edmonton&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1795, a Hudson Bay Company estabaleceu um posto de trocas no local onde actualmente se encontra a cidade. O Forte Edmonton rapidamente se tornou no principal aglomerado da região, tendo posteriormente evoluído para se tornar numa cidade. Hoje é a capital política e universitária da província de Alberta. No centro há uma linha de metropolitano (Light Rail Transit). Para percorrer o resto da cidade, só de autocarro. &lt;br /&gt;Não podíamos deixar de visitar o West End Mall, o maior centro comercial do mundo. A sua superfície equivale a 115 campos de futebol. Para além de 800 lojas, o centro abriga uma praia com palmeiras e ondas, frequentadas por dezenas de pessoas que alugam também umas grandes bóias amarelas de belo efeito. Outras atracções incluem uma pista de gelo, um lago com um barco de piratas e submarinos. Apesar de ser dia de semana, o centro estava cheio de gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPaPOE0nVI/AAAAAAAAB54/HwTtXfsB-G4/s1600-h/DSC_8853.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPaPOE0nVI/AAAAAAAAB54/HwTtXfsB-G4/s400/DSC_8853.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369375135766977874" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPaOy8zgOI/AAAAAAAAB5w/6uFdHEVejW4/s1600-h/DSC_8844.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPaOy8zgOI/AAAAAAAAB5w/6uFdHEVejW4/s400/DSC_8844.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369375128485593314" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Na Whyte Avenue passou por nós um casal de vampiros. Vestidos de preto, usavam correntes de metal e eram ambos muito pálidos. Tinham os olhos maquilhados e a mala dela tinha a forma de um caixão. Um pouco mais à frente, vi passar o Davy Crocket. Vestido a rigor, com o chapéu de castor e o fato de pele. Tinha a barba esbranquiçada e aparentava ter uns 50 anos.&lt;br /&gt;Durante o dia, tinha visto outras personagens engraçadas. Estou a lembrar-me, nomeadamente, de duas sudanesas muito elegantes e um adolescente japonês completamente andrógino (impossível decidir se era rapaz ou rapariga).&lt;br /&gt;Edmonton é, ao que parece, a terra dos festivais. Segundo um jornal local, um de cada dois dias do ano um é passado segundo o signo de um qualquer festival. Há festivais de cinema, de música, de teatro, de literatura, etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Terça, 30. Comboio, Winnipeg&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos de regresso ao comboio, para a última etapa que nos vai levar a Toronto. Uma vez mais, conseguimos apanhar lugares duplos, que nos permitem formar, com o banco da frente, uma espécie de cama. Mas uma cama com altos e baixos e um buraco muito incómodo mesmo a meio.&lt;br /&gt;Em tais condições, a noite foi horrível. Não encontrava posição para dormir e o comboio apitava constantemente, sem dúvida para assustar os animais selvagens que podem estar na linha. Adormecia, acordava, voltava a adormecer para acordar de novo. Sonhos soltos, breves, inquietantes.&lt;br /&gt;De manhã, o Luís descobriu que dormíamos a poucos metros deles e ficou espantadíssimo. Fomos tomar um café e foi como se nada se tivesse passado. &lt;br /&gt;O comboio avança lentamente, com muitas paragens. Antes de chegarmos a Winnipeg (palavra que significa águas turvas), houve uma «jam-session» no wagon-restaurante com uma banda folk. Um trio de guitarra, cavaquinho e banjo com um repertório composto por canções simples, tocadas com genuíno prazer. No final, um velho negro (com longas rastas brancas) sacou de uma harpa de beiços e entoou um blues à maneira. Um momento mágico!&lt;br /&gt;A certa altura, um senhor de idade (a quem faltavam dois dedos na mão direita) meteu conversa com a Raquel para se queixar da violência que assola agora as cidades canadianas. Xenófobo, advoga a pena de morte. Diz preocupar-se pelo futuro do seu país «invadido pelos asiáticos». Em Edmonton, afirma ele, «há agora uma média de um homicídio por semana».&lt;br /&gt;Jorge Luis Borges dizia que a América era a Europa no exílio. Quando o afirmou ainda não se falava de globalização. Hoje somos quase todos exilados, «estranhos» na nossa própria terra. &lt;br /&gt;Lá fora, a paisagem é agora monótona. É uma planície sem fim, onde de vez em quando se vêem pequenas aglomerações, muito pobres. «Como fazem as pessoas para viver aqui?», pergunta-me a Raquel.&lt;br /&gt;No céu, as nuvens emprestam à paisagem um ar «dramático».&lt;br /&gt;Em Winnipeg, aproveitámos a paragem de três horas para (depois de comer qualquer coisa à pressa) dar uma volta pelo centro. Dada a hora (cerca das oito da noite), as ruas estavam quase desertas, mas vimos muitos e belos edifícios. Dá para perceber porque é que a cidade era considerada, no princípio do século XX, a Chicago canadiana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPaPvkgO_I/AAAAAAAAB6A/8tfl_ZJmnw4/s1600-h/DSC_8962.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPaPvkgO_I/AAAAAAAAB6A/8tfl_ZJmnw4/s400/DSC_8962.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369375144758230002" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O espaço aqui não vale nada. Há espaço com fartura, não é preciso economizá-lo.&lt;br /&gt;Nas ruas, um forte cheiro a erva. Passámos por várias pessoas visivelmente pedradas.&lt;br /&gt;Na estação, estava um cowboy a preceito. Vinha buscar a família e estava vestido como se tivesse o cavalo à porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quarta, 1. Comboio&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto mais cansado, menos consigo dormir. Acordo cheio de dores. Nas ancas, nas pernas, nos ombros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPaQGGEDqI/AAAAAAAAB6I/4hpKseQcHCo/s1600-h/DSC_9009.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPaQGGEDqI/AAAAAAAAB6I/4hpKseQcHCo/s400/DSC_9009.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369375150804569762" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje é dia do Canadá. Por isso, à tarde, ofereceram-nos uma fatia de um bolo que reproduzia a bandeira do país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quinta, 2, Toronto&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPb3oF_l-I/AAAAAAAAB6Y/kza4ogdigRE/s1600-h/DSC_9083.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPb3oF_l-I/AAAAAAAAB6Y/kza4ogdigRE/s400/DSC_9083.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369376929457608674" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A casa dos pais da Raquel fica longe do Centro, depois de High Park. Para lá chegar, sai-se no metro Runnymede e apanha-se o autocarro 79. Nos transportes públicos usam-se aqui umas moedinhas chamadas «tokens» e tem que se pedir «transfers» para passar do metro para o autocarro, ou vice-versa.&lt;br /&gt;O mapa do metro é muito simples. Na prática só há quatro linhas. E quatro direcções: Norte, Sul, este, oeste.&lt;br /&gt;Nos subúrbios, vi muitos velhos, quase todos emigrantes. No centro, vi sobretudo arranha-céus.&lt;br /&gt;Nas casas de banho, encontrei secadores potentíssimos. Em 12 segundos as mãos ficam secas. Também os autoclismos são potentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sexta, 3. Toronto&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15º dia de viagem. Nunca me senti tão alheado do tempo. Tão alheado da passagem dos dias. Anoto: «Numa viagem só conta o futuro. O passado transforma-se em fotografias. Tudo o que vivi está agora em cartões de memória».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPaQj6T8pI/AAAAAAAAB6Q/gKzJgXK4Xjc/s1600-h/DSC_9061.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPaQj6T8pI/AAAAAAAAB6Q/gKzJgXK4Xjc/s400/DSC_9061.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369375158808343186" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os highlights do dia foram a visita à Art Gallery of Ontario (AGO) e ao Kesington Market.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPb3_1XzMI/AAAAAAAAB6g/d5JShZ_nfzU/s1600-h/DSC_9213.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPb3_1XzMI/AAAAAAAAB6g/d5JShZ_nfzU/s400/DSC_9213.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369376935830342850" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O Museu de Artes Plásticas de Toronto foi fundado em 1900 e é um dos maiores da América do Norte. O edifício foi recentemente ampliado e redesenhado pelo arquitecto Frank Gehry (natural da cidade). O resultado é deveras curioso, tanto por fora (a fachada é toda envidraçada formando uma espécie de onda giigante) como por dentro, com as suas vigas e escadarias monumentais em madeira.&lt;br /&gt;Enquanto espaço museológico só tem um defeito: à força de querer ter de tudo, só dá um cheirinho de cada coisa. Há arte africana, desenhos e fotografia, escultura e pintura e estão lá, evidentemente, os mais importantes artistas do Canadá, mas igualmente obras de Auguste Rodin, Claude Monet, Edgar Degas, Paul Cézanne, Vincent van Gogh, Pablo Picasso e René Magritte, entre outros.&lt;br /&gt;O escultor Henry Moore está muito representado, tendo direito a uma sala própria, pois doou ao estado canadiano algumas centenas de obras. &lt;br /&gt;Neste momento, o AGO tem patente uma grande (e bastante interessante) exposição dedicada ao surrealismo, intitulada «Surreal Things».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sábado, 4. Toronto&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De manhã, no Mocca (Museum of Contemporary Canadian Art), vimos uma exposição intitulada «Pulp Fiction», que reúne obras, dos anos 60 e 70, de artistas canadianos como Marc Bell, Tasha Brotherton, Mark DeLong, Barry Doupe, Shayne Ehman, Liz Garlicki, James Kirkpatrick, Amy Lockhart, Jason McLean, Jennie O'Keefe, Seth Scriver, The Lions e Peter Thompson.&lt;br /&gt;Depois andámos a passear pela Queen Street, antes de ir visitar Richmond e muito particularmente o edifício com o nº 401. Uma antiga fábrica que abriga hoje 140 agentes culturais e empresas na área da cultura. É um espaço incrível, com muitas galerias e algumas lojas de design e/ou artesanato onde vimos coisas super-interessantes. &lt;br /&gt;Às seis horas fomos ao encontro da Jane, uma antiga colega do liceu da Raquel. Já não se viam há 20 anos.&lt;br /&gt;Ela e o marido, um português chamado Dave, levaram-nos a jantar no Mandarim, um buffet chinês. Depois fomos até casa deles, onde ele me mostrou uma banda desenhada em que anda a trabalhar. Na verdade, ele desenha muito bem, mas a história, que gira em torno de equipas de hóquei rivais, é de uma violência inacreditável.&lt;br /&gt;O Dave trabalha para a BMW (não percebi se é mecânico ou vendedor), mas do que gosta mesmo é de desenhar. A Jane é grega. Ou melhor, filha de gregos. Quando falei ao Dave no filme «My Big Fat Greek Wedding», ele exclamou: «É a história da minha vida!»&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Domingo, 5. Toronto&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começámos o dia por uma visita à Destilaria. Trata-se de uma antiga destilaria de uísque que abriga hoje um complexo de restaurantes, cafés, lojas de decoração, ateliês e galerias de arte. A área circundante tornou-se num bairro chique. &lt;br /&gt;Numa das muitas galerias que ali há (Clark &amp; Faria), vimos uma exposição do Douglas Copeland. Não sabia que também era artista plástico, mas a verdade é que tinha expostas algumas obras interessantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPb4pjOynI/AAAAAAAAB6w/-M1paPSeFgg/s1600-h/DSC_9574.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPb4pjOynI/AAAAAAAAB6w/-M1paPSeFgg/s400/DSC_9574.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369376947028544114" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Aquele que o Toronto Star classifica como «this country's best-known cultural multi-tasker: novelist, playwright, actor, TV producer, screenwriter, furniture designer and – oh, right – artist» tinha ali expostas, entre outras coisas, um conjunto de obras inspiradas no retrato da Marilyn Monroe do Andy Wharol a que chamou «Matricídio». Sobre os desenhos da Marilyn ele cola, por exemplo, etiquetas de cerveja. &lt;br /&gt;Havia também uma série de esculturas feitas com cubos com letras coloridas normalmente usadas para ensinar as crianças a compor palavras. Empilhados uns nos outros, os cubos coloridos formavam frases irreverentes como «Quit Your Job», «Fuck off» ou «Define Normal», por exemplo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPb5PktLwI/AAAAAAAAB64/H9rxd0fnxbw/s1600-h/DSC_9591.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPb5PktLwI/AAAAAAAAB64/H9rxd0fnxbw/s400/DSC_9591.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369376957235277570" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Entre humor e ternura, Coupland surge assim como um especialista do ready-made, capaz de sacar novos sentidos e direcções de obras alheias, ou até de objectos correntes. Há um lado cínico naquilo que faz, mas o que vemos também está impregnado de uma subtil nostalgia, parece-me.&lt;br /&gt;Quando saímos dali, percebemos por acaso que estava a decorrer uma Feira da ladra no St. Lawrence Market. Ali  comprámos uma placa de madeira muito engraçada onde se lê «Bred &amp; Breakfast», com flores em volta. Um objecto tão piroso que se torna engraçado e que não sei muito bem onde vamos colocar. A Raquel comprou ainda uma mala de mão amarela muito gira, em segunda mão, por apenas 5 dólares. &lt;br /&gt;O passeio continuou em Yorkville, onde ambos comprámos jeans em saldo na GAP e onde comemos uns gelados caseiros muito bons. O cone é feito na altura, à nossa frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPb4cHpKiI/AAAAAAAAB6o/UdQXQS0NIio/s1600-h/DSC_9499.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPb4cHpKiI/AAAAAAAAB6o/UdQXQS0NIio/s400/DSC_9499.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369376943423171106" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, depois de uma passagem pelo festival de jazz, fomos ver o Corso Italiano, uma festa de rua onde encontrámos muitos portugueses. De resto, há naquela rua uma «Portugueses Bookshop» e uma agência de viagens  com um painel indicador na montra onde se pode ler: «Portugal 5149 km».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPcnEbnTaI/AAAAAAAAB7I/WoRHZn7zEQU/s1600-h/DSC_9778.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPcnEbnTaI/AAAAAAAAB7I/WoRHZn7zEQU/s400/DSC_9778.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369377744518335906" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Segunda, 6. Niagara&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPUtQLLZZI/AAAAAAAAB3Q/TTMAzTKA9yQ/s1600-h/DSC_0007.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPUtQLLZZI/AAAAAAAAB3Q/TTMAzTKA9yQ/s400/DSC_0007.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5369369054656816530" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As cataratas do Niagara são, como se sabe, umas das atracções turísticas mais populares da América do Norte (fala-se de cerca de 14 milhões de visitantes anuais). Para mim era impensável estar ali tão perto e não dar lá um salto, apesar do Oscar Wilde ter escrito que «o Niagara é a segunda grande decepção da recém-casada».&lt;br /&gt;A mim não me decepcionaram. As cataratas são bonitas e imponentes. &lt;br /&gt;O seu ressoar ouve-se à distância, de modo que, muito antes de as vermos, já as estamos a ouvir. &lt;br /&gt;A primeira com que deparei foi logo a seguir à ponte que liga o Canadá e os Estados Unidos. Chamam-lhe «Véu de Casamento», fica do lado americano e tem 64 metros de altura por 340 de largura.&lt;br /&gt;A segunda catarata (dita da Ferradura) é menos alta (50 metros), mas mais larga (800 metros), debitando uma média de 170 mil metros cúbicos de água por minuto.&lt;br /&gt;Do lado americano (onde não fomos) as cataratas só podem ser vistas de lado. Por isso, mais vale vê-las em território canadiano. &lt;br /&gt;As cataratas podem ser vistas de frente, de cima (helicóptero), de baixo, de lado e até por detrás. Contei pelo menos 15 agências que propõem diversos modos de gozar o espectáculo, porém, para mim, a melhor maneira de as sentir é embarcar num dos vários «Maid of the Mist» (Noivas da Névoa), barcos que lembram os antigos cacilheiros e que levam as pessoas até muito perto do local onde toda aquela água cai, com um ribombar colossal elevando no ar uma verdadeira coluna de névoa. &lt;br /&gt;O mínimo que posso dizer é que nunca esquecerei os momentos em que estive envolto em bruma, som e fúria, aos pés da Deusa, sentindo no rosto as suas lágrimas torrenciais. Ouvi com o corpo todo o pranto feliz que lhe dá existência, e aquela molha (apesar do impermeável que nos fornecem, ficamos completamente encharcados) lavou partes da minha alma que nem eu sabia existirem. Foi como se tivesse sido baptizado de novo, desta vez pela própria natureza. Durante alguns momentos não havia barco, nem pessoas, só eu e aquele remoinho compulsivo dentro de mim, cobrindo-me de carícias molhadas. Foi um dos momentos mais eufóricos da minha vida.&lt;br /&gt;Também a Raquel, a Ana e o Daniel pareciam em êxtase. Quanto ao Luís, quando lhe perguntei o que tinha achado, limitou-se a responder com ar blasé: «Foi engraçado!».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Terça, 7. Toronto&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tal como planeado, o dia foi dedicado a compras de última hora. Por mim, comprei um filtro para a minha lente 18-200mm e um livro do Douglas Coupeland: «Souvenir of Canada».&lt;br /&gt;O dia esteve quase sempre cinzento e doíam-me as costas e a perna direita.&lt;br /&gt;A certa altura, num Centro Comercial, assisti a uma cena curiosa. Um grupo de adolescentes encontrou-se ali, a poucos metros do local onde eu esperava a Raquel e pude ver que todos eles se abraçaram. Rapazes e raparigas. Nada de beijinhos. De repente, percebi que nunca vi ninguém beijar-se na face e lembrei-me que a Jane, a amiga da Raquel, ficou muito surpreendida quando eu a cumprimentei com dois beijos á boa maneira portuguesa. &lt;br /&gt;O último dia em Toronto passou a correr e eu só pensava: «Logo à noite vamos voltar para a selva. Para Merdeiras». Pensei: «Todo o país se transformou no Expresso. Saí do Expresso mas continuo preso da mesma mentalidade, da mesma mediocridade». Foi um pensamento arrepiante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Mais tarde&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mallamé afirmava que tudo acaba num livro. Desde há algum tempo, as minhas viagens acabam efectivamente por resultar em livros. Mas em livros que faço só para mim, com fotos e textos.&lt;br /&gt;Mais uma vez o digo: o ideal seria a viagem não ter fim. Mas isso é impossível. Na vida só há uma coisa interminável: a ideia da morte. Seja como for, de uma coisa tenho eu a certeza: a minha viagem é inédita. Nunca ninguém a fez antes de mim. Há tantos caminhos como viajantes. Este foi o Canadá que encontrei. Ou que me encontrou a mim. Quanto a este texto, não é para ser lido, mas sim relido. Acho eu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1590904165947063584-5689360769314978999?l=parentisis.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default/5689360769314978999'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default/5689360769314978999'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://parentisis.blogspot.com/2009/08/caderno-canadiano.html' title='Caderno canadiano'/><author><name>Jorge Lima Alves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10491056008163359117</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/ScSqWt2Ha1I/AAAAAAAABCo/Il6SwbfoQcM/S220/L1040628.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SoPUt8-QaAI/AAAAAAAAB3Y/SmqG9jLde6E/s72-c/DSC_6537.JPG' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1590904165947063584.post-464587682449538918</id><published>2009-03-04T08:05:00.000-08:00</published><updated>2009-03-19T11:43:52.148-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Japão'/><title type='text'>Caderno japonês</title><content type='html'>&lt;strong&gt;23 de Maio de 2006&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece parvo, mas o meu primeiro encanto no Japão foram as fardas das raparigas da limpeza, na estação de Osaka. Muito jovens, vestidas com cores coloridas, pouco tinham que fazer. De resto, à nossa volta, tudo parecia impecável. Quanto muito havia uns jornais para recolher ou uma garrafa de plástico deixada por algum passageiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo me pareceu imediatamente encantador. Tudo muito clean, muito bem iluminado, com cores que chamam a atenção sem ferir a vista. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A paisagem, que vimos através das janelas do comboio, era incrivelmente nova ao meu olhar. Estava do outro lado do mundo e sentia-o em cada centímetro da minha pele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kyoto revelou-se fascinante logo ao primeiro contacto. Para onde quer que me volte, só me apetece felicitar-me por ter vindo. É como estar a viver um sonho maior que a vida. Um filme em três dimensões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os templos. As flores de papel. Os cheiros, a água, as multidões de estudantes por todo o lado. Tudo é mais do que alguma vez esperei encontrar. Mais e melhor. Mais bonito e mais forte. Os meus olhos nunca me pareceram tão grandes, o meu coração raramente se sentiu tão compensado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Kyoto é tudo minúsculo. As casas, os carros, as próprias pessoas. Menos os parques.  Os parques são imensos, com templos e santuários lá dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na rua, apesar dos chuviscos constantes, o encantamento é permanente. Alguns peões, homens e mulheres, novos e velhos, usam máscaras de cirurgião, sem dúvida para se proteger da poluição. Ou será porque estão constipados e não nos querem pegar a doença? Como ninguém fala inglês, é impossível esclarecer o que quer que seja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/Sa6p2l7XHwI/AAAAAAAAAw0/92mTFSHkd-g/s1600-h/DSC_1310.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 266px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/Sa6p2l7XHwI/AAAAAAAAAw0/92mTFSHkd-g/s400/DSC_1310.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5309367766075514626" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algumas senhoras continuam a usar o tradicional quimono de seda.  Gueishas? Nas costas têm sempre uma pequena almofada a que chamam «obi». Pergunto-me para que serve. A Raquel chama-me a atenção para as pernas tortas das raparigas. Mas as mulheres, qualquer que seja a sua idade, vestem-se com uma elegância que me deixa comovido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando lhes dirigimos a palavra, os japoneses ficam muito atrapalhados, deveras desolados por não nos entenderem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também os taxis são muito elegantes, com os assentos cobertos de renda e condutores de luvas brancas. Os símbolos que os identificam como táxis sobre os tejadilhos são também engraçadíssimos. Uns ostentam um trevo, outros uma estrela ou um coração. Podem ter muitas formas e muitas cores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/Sa6oayNmASI/AAAAAAAAAv0/Is7GOMJgv74/s1600-h/DSC_0448.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 266px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/Sa6oayNmASI/AAAAAAAAAv0/Is7GOMJgv74/s400/DSC_0448.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5309366188825248034" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta luz faz as árvores parecer mais bonitas, ou são as árvores que de tão bonitas fazem parecer a luz mais transparente e luminosa do que em Portugal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta manhã visitámos o famoso templo das Águas, o Kiyomizu-dera, um dos mais vistados da cidade. Um dos locais privilegiados do Templo é uma varanda de madeira suspensa de onde se pode apreciar uma floresta magnífica e parte da cidade ao longe. A sua construção data de 778, quando um monge visionário encontrou uma fonte cuja água tinha virtudes curativas. Os japoneses, principalmente os adolescentes, fazem bicha para beber um pouco de água e rir uns dos outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De vez em quando, um grupo de estudantes faz questão de ser fotografado na nossa companhia. Sempre que lhes apontam uma máquina fotográfica, os japoneses sorriem e fazem V com os dedos. Peace and love? Vitória? Vá-se lá saber. Em todo o caso, é um tique que todos partilham.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 24&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal chegámos ao aeroporto de Osaka, fomos ao posto de turismo à procura de um hotel. Perguntaram-nos que tipo de hotel queríamos e quanto é que estávamos dispostos a pagar. Optámos por um Toyoko-Inn, que fica no centro da cidade. Custa mais ou menos o que estávamos dispostos a pagar e serve perfeitamente, apesar do quarto mínusculo mal ter espaço para a cama. Também a casa de banho é mínima, mas tem tudo o que é preciso e mais ainda, com repuxos na sanita e outros gadgets que nem sabemos para que servem. É um business hotel, como aqui lhes chamam e o atendimento é super-profissional, a cargo de meninas novas impecavelmente fardadas e perfumadas. Na recepção há prendas para dar aos hóspedes: gravatas, canetas, chaveiros e sei lá que mais. Escolhi uma «lanterna-robot» para ler no escuro, se for necessário. É um objecto curioso. Prateado, parece uma caneta, gorda e achatada. Quando se carrega num botão, desdobra-se e acende-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tal como prometiam os nossos guias, a estação de comboios de Kyoto impressiona. Foi reconstruída por ocasião do 1.200º aniversário da decisão, por parte do imperador Kanmu, de aaqui instalar a capital do país em 794. Imponente, nas suas linhas futuristas, o imponente edifício abriga um hotel de luxo e uma sala de espectáculos, para além de um centro comercial. &lt;br /&gt;A escada rolante parece conduzir ao céu. Lá em cima, há um terraço ajardinado de onde se pode observar a cidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encantam-me as fardas das estudantes que me lembram invariavelmente o Araki. Mas encantam-me ainda mais os vestidos das monjas, com as suas blusas brancas e longas saias vermelhas. A estas vestais nipónicas chamam «miko». Antigamente, eram «as virgens do templo» e passavam por ser ou feiticeiras ou adivinhas, não percebi bem. Geralmente eram filhas dos sacerdotes e ajudavam-nos nalgumas tarefas. Hoje são principalmente voluntárias ou mesmo trabalhadoras contratadas a prazo. Infelizmente, ainda não tivemos ocasião para assistir às suas danças cerimoniais, que imagino muito sensuais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/Sa6obLr-wBI/AAAAAAAAAv8/Yj44VgvqQDA/s1600-h/DSC_0596.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/Sa6obLr-wBI/AAAAAAAAAv8/Yj44VgvqQDA/s400/DSC_0596.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5309366195663585298" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A maioria dos japoneses consideram-se tanto xintoístas quanto budistas. Tanto quanto sei, o Xintoísmo é uma religião politeísta nativa do Japão, que passou por um processo sincrético com religiões e filosofias vindas do exterior como o Taoísmo, o Confucionismo e o Budismo.&lt;br /&gt;As pessoas vão aos templos para rezar, mas também para pedir favores aos deuses. A maioria escreve os seus desejos em papelinhos que depois dobram de forma a parecer flores e decoram árvores artificiais com eles. Ao longe parecem arburstos floridos. É lindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Japão é de longe o país mais civilizado do mundo. Nunca estive num local mais aprazível e sereno, onde as pessoas são um exemplo de civilidade e elegância. Quando nos dirigimos a uma pessoa para lhe pedir uma informação, chega a ser embaraçoso, pois não sabem comunicar connosco, mas querem ajudar-nos a todo o custo. Procuram genuinamente compreender-nos e sente-se que seriam capazes de tudo para nos agradar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As casas, as ruas, os carros, está tudo irrepreensivel. Como chove, há baldes e recipientes em todo o lado para apanhar a água da chuva, como se fazia no Congo. Não que falte aqui: trata-se apenas de poupar um bem essencial. Os autoclismos, por exemplo, têm uma torneira para que lavemos as mãos na água que vai encher o depósito. É simplesmente genial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kyoto, que na altura se chamava Heian-kio, foi a capital do Japão entre 794 e1868 (Kyoto quer dizer cidade-capital). Hoje tem cerca de milhão e meio de habitantes e é uma das cidades mais bonitas do mundo, rodeada de florestas e fontes de água. É também a cidade do Japão que tem mais templos e santuários. E pensar que os americanos ainda ponderaram deitar aqui uma bomba atómica!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando era miúdo, havia uma expressão que dizia: «Vai lá for a ver se estou.» Era uma maneira de nos mandar à fava. Vim até ao Japão ver se lá estava. E não é que estou mesmo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 25&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora Kyoto seja pelo menos tão grande como Lisboa, nunca tivemos que apanhar um transporte. Temos percorrido a cidade toda a pé e vamos continuar a fazê-lo porque é a melhor maneira de ver tudo como deve ser. Ontem à noite ainda percorremos a parte mais moderna da cidade (as grandes avenidas pejadas de lojas e restaurantes chiques), hoje de manhã passeámos ao longo dos canais, em bairros mais antigos onde há muitas casas de madeira. É lindo e bucólico. As casas parecem saídas de um conto de fadas. Por todo o lado reina uma calma infinita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas nossas deambulações, passámos em frente de vários «love hotel». Já tinha lido sobre eles. Destinados aos namorados e aos amantes ocasionais, estão abertos 24 horas por dia e não têm propriamente recepção. Tudo se passa de modo anónimo e podem ser alugados à hora. Há diversos tipos de quartos, que remetem para os mais diversos imaginários e fantasias. Estamos muito tentados a ir experimentar um, um dia destes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao fim do dia, passeio no bairro Pontocho, situado numa ilha e que parece ser o centro de diversão nocturna. Numa livraria, cheia de livros em segunda mão, comprei &lt;strong&gt;The Dying Animal&lt;/strong&gt; do Philip Roth, em edição de bolso. Baratíssimo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 26&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passámos a noite num «ryokan», uma espécie de pensão tradicional, que se revelou uma experiência inesquecível. &lt;br /&gt;O recepcionista não falava uma palavra de inglês, mas parecia perceber o que dizíamos. Por isso, lá nos indicou, por escrito, o preço, que era mais ou menos o mesmo que pagávamos no Toyoko-Inn, cerca de 50 euros por noite. Quando lhe perguntámos se podíamos ver o quarto, estendeu-nos uma folha impressa onde se dizia mais ou menos isto: «No Japão é falta de educação pedir para ver os quartos». Tive que me conter para não desatar a rir. Depois, quando acedemos em pagar o preço, estendeu-nos uma outra folha que explicava que tínhamos forçosamente que deixar o quarto até às 11 da manhã e que não poderíamos regressar antes das quatro da tarde. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O quarto não era muito maior do que o do Toyoko Inn e em vez de mobiliário tinha apenas uma mesa baixa no centro e duas almofadas. A um canto estavam dois edredons enrolados que supus imediatamente serem as camas. Em cima da mesa, uma chaleira e duas chávenas. Também a casa de banho era minimal, mas tudo muito asseado e acolhedor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo à noite vamos para Tóquio. Pensámos ir no comboio bala, mas era demasiado caro. Optámos por isso por um autocarro nocturno. Os bancos são reclináveis e poderemos dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 27&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O autocarro era confortável, com efeito. Como fomos os primeiros a reservar os bilhetes, ficámos com o melhor lugar, lá em cima no primeiro andar, mesmo em frente à janela, com vista panorâmica. Os assentos transformam-se em camas, e há cobertores, almofadas e até roupões e chinelos para quem quiser. Dorme-se lá melhor do que no avião.&lt;br /&gt;De manhã chovia. Os sinais na estrada são por vezes iluminados e animados. Por todo o lado vi enormes recintos para treinar golf e «hotéis do amor», sempre muito chamativos, com esculturas sugestivas nos telhados e nas empenas e grandes néons apelativos. É o que há mais ao longo do caminho. Pelo menos, assim me pareceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Tóquio fomos para outro Toyoko Inn, infelizmente um tanto descentrado porque os outros estavam todos cheios. Mas como há metro quase à porta, não nos importámos muito.&lt;br /&gt;Não foi, no entanto, muito fácil dar com o hotel. Tinhamos a morada mas ninguém parecia conhecer a rua. A folha que imprimiramos da Internet dizia que ficava a 500 metros do metro. Já um pouco desesperados, abordámos um polícia que nos apontou uma direcção. Mas não víamos Toyoko Inn em lado nenhum. Por fim, um rapaz que percebeu o nosso desespero, abordou-nos num inglês quase perfeito. Tinha vivido nos Estados Unidos e estava gora de regresso a casa. Com a sua ajuda foi fácil encontrar o hotel. Era ali perto, mas numa rua secundária que ainda não tínhamos percorrido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo a Wickipédia, a região metropolitana de Tóquio é uma das maiores concentrações urbanas do mundo, com cerca de 30 milhões de habitantes. Em japonês, Tóquio quer dizer «capital do Leste».&lt;br /&gt;O mapa do Metro é impressionante. Uma teia densíssima de linhas coloridas que cobrem toda a superfícia da cidade. Se bem percebi, há duas linhas distintas, que se completam. Cada linha tem uma cor, cada estação um número. Os mapas são muito claros e é facílimo uma pessoa orientar-se. Não temos tido a menor dificuldade nesse aspecto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O nosso primeiro passeio foi até ao principal templo no centro da cidade, o Senso-ji, também conhecido como Asakusa Kannon. É um dos mais importantes ícones da capital japonesa, com suas lanternas enormes decoradas e o portão laqueado de vermelho na entrada sul. Fundado no século XVII em homenagem a Kannon, a deusa da Piedade, o templo (budista) tem seus portões guardados pelos deuses Raijin, deus do Trovão, e Fujin, deus do Vento. À volta do templo há dezenas, ou mesmo centenas de lojas para turistas, mas desde que chegámos ao Japão, quase não temos visto estrangeiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À tarde fomos para Shinjuku. Aí, numa daquelas lojas enormes com equipamentos electrónicos comprei uma nova máquina fotográfica, uma Nikon D200. Não resisti, tanto mais que custa quase metade do que custa na Europa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/Sa6qURd4-2I/AAAAAAAAAxU/dM7Wb1zbgIM/s1600-h/DSC_1721.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 266px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/Sa6qURd4-2I/AAAAAAAAAxU/dM7Wb1zbgIM/s400/DSC_1721.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5309368275979271010" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Shinjuku é impressionante, com os seus arranha-céus cobertos por néons. O comércio não se limita ao rés-do-chão. Cada andar abriga vários negócios: restaurantes, bares, lojas de roupa, tudo o que se possa imaginar. E, claro, há casas de pachinko por todo o lado. &lt;br /&gt;O pachinko é o jogo nacional. Está por todo o lado e sempre cheio de gente. O pachinko é uma máquina de jogo entre o flipper e a slot-machine, que se joga com berlindes metálicos. É preciso ver para crer. Cada jogador tem aos pés, caixas de plástico cheias de esferas de metal com que vai alimentando a máquina. Impossível perceber como se joga, mas é hipnótico. As máquinas são muito coloridas e piscam emitindo sons maviosos. Tanto quanto sei, tudo o que se ganha são mais esferas de metal que, no final, podes trocar por prendas, pois os prémios em dinheiro estão proibidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/Sa6p3LZxFLI/AAAAAAAAAw8/NiR1boyOYhQ/s1600-h/DSC_1317.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 268px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/Sa6p3LZxFLI/AAAAAAAAAw8/NiR1boyOYhQ/s400/DSC_1317.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5309367776135156914" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para jantar fomos espreitar a «Piss alley», depois de termos passeado por Kabukicho, o «red light district» local. Como o nome indica a «piss alley», cujo verdadeiro nome é shomben yokocho, é uma ruela estreita e mal iluminada (mas não cheira mal). Não fica muito longe da impressionante estação de Shinjuku e abriga dezenas de pequenos bares e restaurantes (a maioria deles não leva mais do que uma dezena de clientes de cada vez) onde se come ao balcão, petiscos deliciosos (mas caros), quase invariavelmente acompanhados por saké. Deliciámo-nos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/Sa6qUVqUviI/AAAAAAAAAxM/9nWlDdMeFBs/s1600-h/DSC_1686.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/Sa6qUVqUviI/AAAAAAAAAxM/9nWlDdMeFBs/s400/DSC_1686.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5309368277105163810" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 28&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Nikon D200 teve um baptismo de fogo em beleza. De manhã, apanhámos uma festa, com um mercado de rua cheio de arraquinhas de comida. Logo a seguir, deparámos com uma procissão que envolveu alguns milhares de pessoas durante toda a manhã. À tarde, fomos para Harajuku fotografar as celebérrimas «lolitas góticas». Tirei várias centenas de fotografias ao longo do dia, de tal modo que este 28 de Maio de 2006 deve ser a data mais bem documentada de toda a minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/Sa6npS95hfI/AAAAAAAAAvM/-IAME81Br8Q/s1600-h/DSC_0043.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 268px; height: 400px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/Sa6npS95hfI/AAAAAAAAAvM/-IAME81Br8Q/s400/DSC_0043.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5309365338624329202" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mercado, deparámos com um sujeito que fazia chupa-chupas com forma de animais – cães, cavalos, cisnes – de uma perfeição espantosa. Num minuto, ou pouco mais, realizava miniaturas que eram imadiatamente devoradas por crianças gulosas. Difícil imaginar objectos artísticos mais comoventes e efémeros do que estes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante a procissão, um dos participantes despiu, de repente, a sua veste tradicional e estendeu-ma, dando-me a entender que gostaria de me ver a substitui-lo durante algum tempo. Assim fiz. Enquanto me fotografava, a Raquel ria a bandeiras despregadas, mas para mim não foi uma experiência muito agradável. O andor era pesadíssimo, eu estava comprimido entre dois outros carregadores suados e a cada passo a trave de madeira esmagava-me um pouco mais o ombro, tanto mais que o avanço se fazia de forma sincopada. Fiquei aliviado quando o sujeito me veio render.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/Sa6np79NZEI/AAAAAAAAAvc/7OZ9w-L4bKQ/s1600-h/DSC_0366.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 268px; height: 400px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/Sa6np79NZEI/AAAAAAAAAvc/7OZ9w-L4bKQ/s400/DSC_0366.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5309365349627290690" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Harajuku, mal saímos da estação deparei com uma das tais lolitas góticas. Parecia efectivamente uma boneca de porcelana do tempo da minha bisavó. Cá fora, ocupando toda a ponte que conduz ao parque, e também nas imediações, estavam algumas dezenas de jovens com visuais tão ou mais espectaculares. Umas mais punk, outras mais futuristas, mas todas super-fotogénicas. Algumas pareciam mulheres fatais, outras crianças como só se vêem na banda desenhada. Pelo meio havia rapazes que se faziam passar por raparigas e raparigas que queriam parecer rapazes. Nalguns casos era muito difícil perceber qual o sexo da pessoa que estava a fotografar.&lt;br /&gt;Não há maneira de descrever a fantasia daquela gente, nem os objectos de que se servem em profusão para se afirmar. No conjunto revelam uma imaginação delirante. Era como estar num palco enorme, rodeado de personagens pertencentes a vários filmes diferentes, cada um mais improvável do que o outro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 29&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta manhã, acordámos cedíssimo para ir visitar o «Tsukiji fish market», o maior mercado de peixe e marisco do mundo. Impressionante e gigantesco, com efeito. Nunca tinha visto nada parecido. Vi peixes loucos e outros seres ainda mais estranhos que nem sabia que existiam. Fiquei muito impressionado por uns mexilhões maiores que a minha mão, por exemplo. Mas os nossos planos para ir comer o famoso sushi numa das tascas do mercado caiu por terra, pois havia bichas enormes à porta dos restaurantes e teríamos que ali ficar horas à espera de vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/Sa6obU4WfPI/AAAAAAAAAwE/NdbAbKH-_NM/s1600-h/DSC_0630.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 268px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/Sa6obU4WfPI/AAAAAAAAAwE/NdbAbKH-_NM/s400/DSC_0630.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5309366198131391730" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À tarde, embarcámos num barco que nos permitiu ter outra prespectiva da cidade e que nos deixou num parque lindíssimo. Decididamente, o que faltam aqui são parques. Que inveja! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 30&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De manhã, Museu da Fotografia e arredores. Arquitectura moderna e yuppies por todo o lado.&lt;br /&gt;À tarde, visitámos os cenários do &lt;strong&gt;Lost in Translation&lt;/strong&gt;. Ou melhor, o hotel onde estavam hospedados o Bill Murray e a Scarlet Johansson. &lt;br /&gt;O local é magnífico e pudemos percorrê-lo sem que ninguém nos incomodasse. Depois ainda subimos ao cimo de um arranha-céus para observar a cidade lá de cima.&lt;br /&gt;Pelo caminho, vi vários sem-abrigo, o que me deixou incrédulo. Numa sociedade destas, onde tudo parece tão civilizado e bem regulado, não se imagina que possa haver gente a dormir ao relento. É verdade que alguns tinham tendas de campismo, e que estavam confinados a um parque, mas mesmo assim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 31&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há vários cemitérios em Tóquio. Fomos à procura de um dos principais e deu para perceber que a noção de cemitério aqui é muito diferente da nossa. São parques enormes, tentaculares, com ramificações dentro de jardins particulares. Na verdade, há campas por todo o lado, até nos pátios de alguns condomínios privados. Aqui, vivos e mortos convivem em harmonia. Os mortos zelam pelos vivos, emprestam a sua paz à cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/Sa6pSw_bqCI/AAAAAAAAAwk/-cgc-BE6uxA/s1600-h/DSC_0922.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 268px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/Sa6pSw_bqCI/AAAAAAAAAwk/-cgc-BE6uxA/s400/DSC_0922.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5309367150570088482" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas páginas dedicadas aos restaurantes da área, vimos que havia um instalado num Chalet suiço. Quisemos ir ver e nem queríamos acreditar nos nossos olhos. Tanto fora como dentro do chalet a ilusão é perfeita. Trata-se de uma réplica exacta onde a única coisa que destoa são as caras das pessoas (clientes e funcionários). De resto, parece que estamos na Austria, até a comida é igual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;1 de Junho&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para o último dia em Tóquio, voltámos a Harajuku, pois não tínhamos visto o templo, e havia uma grande parte do bairro por onde não tínhamos passado. Mais uma vez, vi várias fotos da Audrey Hepburn, em montras ou em cartazes. Parece haver aqui um culto desta actriz. Talvez ela represente, aos olhos dos japoneses, o protótipo da beleza ocidental. Mais uma prova do seu bom gosto estético.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 2&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/Sa6qUiHPH6I/AAAAAAAAAxc/z_WEDaK66Io/s1600-h/DSC_1757.JPG"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/Sa6qUiHPH6I/AAAAAAAAAxc/z_WEDaK66Io/s400/DSC_1757.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5309368280447655842" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Osaka! Situada na região de Kansai, Osaka é terceira maior cidade japonesa. O castelo da cidade (na foto) é um dos mais famosos do país e foi aí que nos dirigimos em primeiro lugar. Está no interior de um parque murado e o edifício central tem oito andares. A sua origem remonta ao século XVI e o último restauro data de 1995.  O interior abriga um museu. Do último andar pode ver-se o centro da cidade. A vista é magnífica. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De regresso ao centro, fomos descansar para um café (os nossos pés têm sofrido muito nos últimos dias). Na sala, estavam duas jovens a dormir a sono solto. E ninguém lhes chamou a atenção, aqui parece ser uma coisa natural. De resto, também no metro, há sempre gente a dormir. &lt;br /&gt;A esmagadora parte das pessoas que andam de metro fazem uma destas três coisas: ou dormem, ou estão às voltas com o telemóvel (jogando ou navegando na Net) ou lêem, livros de bolso invariavelmente forrados a papel. Para proteger os livros ou para que não se perceba o que estão a ler? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando estávamos no café, reparámos que na rua em frente havia uma bicha para uma espécie de quiosque. Cada pessoa que era atendida era substituida por outra, de forma que a fila parecia ter sempre, mais ou menos, o mesmo tamanho. Isso despertou-me a curiosidade e quando saímos do café fomos espreitar. Estavam a vender o que nos pareceu ser um bolo. Toda a gente levava dois ou três e, naturalmente, quisemos provar também. Quando estávamos na bicha, uma menina veio oferecer-nos uma fatia. Era uma espécie de pão de ló delicioso, muito fofinho que sabia subtilmente a cheese-cake. Comprámos dois bolos e posso jurar que foi o melhor pão de ló que comemos na vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um provérbio japonês diz que o Japão é como um ser humano cuja cabeça seria Tóquio, o estômago Osaka e o coração Tóquio. Precisamente as três cidades que visitámos. Coincidência feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 3&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De regresso ao Dubai, possso afirmar sem hesitação: as duas viagens que mais gostei até hoje foram à Índia e ao Japão! Como dizia Fernando Pessoa: «Hei de ser quem vai chegar, para ser quem quer partir».&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1590904165947063584-464587682449538918?l=parentisis.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default/464587682449538918'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default/464587682449538918'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://parentisis.blogspot.com/2009/03/caderno-japones.html' title='Caderno japonês'/><author><name>Jorge Lima Alves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10491056008163359117</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/ScSqWt2Ha1I/AAAAAAAABCo/Il6SwbfoQcM/S220/L1040628.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/Sa6p2l7XHwI/AAAAAAAAAw0/92mTFSHkd-g/s72-c/DSC_1310.JPG' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1590904165947063584.post-2539962657414910435</id><published>2009-02-22T08:18:00.000-08:00</published><updated>2009-03-04T09:37:11.994-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='México'/><title type='text'>San Miguel de Allende</title><content type='html'>Um americano que conheci na Tailândia confidenciou-me que uma das razões que o levava a viajar pelo mundo era o desejo de encontrar um sítio onde lhe apetecesse passar o resto da sua vida. À beira da reforma, o senhor já visitara grande parte da Ásia e da Europa e planeava, no ano seguinte, ir à Austrália. Se hoje voltasse a encontrá-lo, dir-lhe-ia que, provavelmente, não precisava de ir tão longe para encontrar o local perfeito para se fixar. Ali mesmo, na América do Norte, descobri recentemente no México uma pequena cidade onde inúmeros compatriotas seus vivem tranquilamente dos rendimentos. Refiro-me a San Miguel de Allende, que descobri quase por acaso numa viagem de três semanas pelo país de Carlos Fuentes e Chavela Vargas, a meio caminho entre Queretaro e Guanajuato, outras duas cidades cuja visita recomendo vivamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Provenientes de Queretaro, chegámos a San Miguel de Allende numa luminosa manhã de Novembro. O apinhado minibus que nos trouxe do terminal de autocarros até ao centro da cidade, por ruelas acidentadas, deixou-nos a poucos metros do hotel que escolhemos no «Guide du Routard». O Parador San Sebastián correspondeu totalmente à descrição do guia: «Muito bom hotel em estilo colonial com um bonito pátio interior que alegram muitas plantas, flores e alguns canários». O quarto era amplo, recentemente renovado e com uma boa casa de banho. E muito barato. Uma das vantagens de viajar pelo México são os preços, extremamente acessíveis (para nós europeus). O minibus, por exemplo, custou cerca de 30 cêntimos e pelo nosso quarto muito confortável não pagámos mais do que 20 euros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SaF-VKcBz5I/AAAAAAAAAms/z4BC6mqyplg/s1600-h/DSC_4628.JPG"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SaF-VKcBz5I/AAAAAAAAAms/z4BC6mqyplg/s400/DSC_4628.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5305660738063421330" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já eram quase duas da tarde e estava na altura de ir à procura do El Tomato, restaurante que alguém nos aconselhara referindo tratar-se de «um dos melhores restaurantes vegetarianos do mundo». Não era grande exagero: o acolhimento foi amável e o serviço copioso e de qualidade. Todos os produtos eram fresquíssimos e bem confecionados. Um regalo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto esperávamos pela comida, um casal que já estava na sobremesa, vendo as nossas máquinas fotográficas em cima da mesa, meteu conversa connosco. Com uma pronúncia que denunciava a sua origem, a senhora perguntou-nos: «Vieram para o workshop de fotografia?». De seguida, sem que precisássemos de o perguntar, explicou-nos que eram de Calgary no Canadá e que vinham todos os anos passar férias em San Miguel onde, aliás, já tinham comprado uma casa que ainda estavam a remodelar e decorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fundada em 1542, por um monge franciscano, numa região de serra árida onde antes apenas havia pastores, San Miguel de Allende fica no «coração do México» como acentua a edilidade local, que faz igualmente questão de sublinhar que a cidade é considerada património histórico do país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com somente 120 mil habitantes e situada a 1850 metros de altitude, San Miguel de Allende não tem grandes monumentos, nem museus a propor ao forasteiro. O seu encanto provém simplesmente da atraente harmonia das suas ruas estreitas e empedradas, com os seus palacetes elegantes e frondosos pátios, que lhe dão um charme único e irresistível. Foram, sem dúvida, estas características, aliadas a um clima privilegiado e à afabilidade dos seus habitantes (para já não falar da vida barata), que fizeram com que se fixassem aqui, nos anos 40 do século passado, os primeiros «ianques». Na maioria, eram artistas plásticos que vieram a San Miguel para seguir os cursos de arte mural ministrados pelo grande pintor Siqueiros, amigo e rival de Diego Rivera. Esses pioneiros atraíram seguidores e hoje vivem ali inúmeros estrangeiros que estão a recuperar as casas mais antigas (como o casal canadiano que conhecemos no El Tomato), não apenas para viver mas também para abrir restaurantes de todo o tipo, hóteis de charme, lojas de artesanato, bares atraentes e galerias de arte que poderiam perfeitamente situar-se em Nova Iorque, por exemplo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SaF-VKOa0KI/AAAAAAAAAmk/dNsRZt2abpo/s1600-h/DSC_4531.JPG"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SaF-VKOa0KI/AAAAAAAAAmk/dNsRZt2abpo/s400/DSC_4531.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5305660738006339746" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como na maioria das cidades mexicanas, o centro de San Miguel de Allende é o Zócalo, a praça principal que aqui é arborizada e ajardinada. Foi evidentemente por aí que começámos a nossa descoberta da cidade. À direita e à esquerda estão arcadas que abrigam cafés e restaurantes, nos topos encontram-se o museu regional e a igreja. O conjunto é notável e irradia um charme absolutamente irresistível que atrai a toda a hora o mais diverso tipo de pessoas, dos turistas aos vendedores ambulantes, passando por crianças saídas da escola e reformados sem mais nada para fazer senão observar quem aparece. Ao fim do dia, o espectáculo ganha ainda mais animação: começam a chegar os mariachis e os turistas acorrem a ouvi-los e fotografá-los.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SaF7MbwpdUI/AAAAAAAAAmM/LZVIE8FT-Ak/s1600-h/DSC_4635.JPG"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 266px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SaF7MbwpdUI/AAAAAAAAAmM/LZVIE8FT-Ak/s400/DSC_4635.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5305657289559602498" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do Zócalo partem ruelas em todas as direcções. Vale a pena percorrê-las uma a uma para apreciar a arquitectura colonial e gozar a atmosfera serena em que banha toda a cidade.  Aqui estamos longe da guerra dos cartéis que todos os dias ensanguentam o México. Longe do bulício infernal da capital do país, considerada uma das maiores e mais poluídas cidades do mundo. Tudo aqui é um regalo para os olhos e para o espírito e nem os polícias parecem polícias, mas sim figurantes de algum filme do Zorro, com as suas fardas vistosas e os seus garbosos cavalos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SaF7MZqicxI/AAAAAAAAAmE/D_ZdxrpJboo/s1600-h/DSC_4537.JPG"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 266px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SaF7MZqicxI/AAAAAAAAAmE/D_ZdxrpJboo/s400/DSC_4537.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5305657288997106450" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De todos os monumentos da cidade, o mais importante e incontornável é a «Parroquia», a já citada Igreja de San Miguel Arcángel em face do Zócalo, concebida em 1880 por um pedreiro local chamado Zeferino Gutiérrez, cujas torres cor de rosa lembram vagamente a Sagrada Família de Barcelona. O interior da igreja não é particularmente notável (embora no México todas as igrejas sejam bonitas), mas a devoção das pessoas que a frequentam é verdadeiramente comovente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SaF7MDSqr8I/AAAAAAAAAl8/m22uzpuv8ZQ/s1600-h/DSC_4493.JPG"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SaF7MDSqr8I/AAAAAAAAAl8/m22uzpuv8ZQ/s400/DSC_4493.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5305657282991402946" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostámos também de visitar o Museu histórico, instalado na casa natal de Ignacio Allende, o mentor, juntamente com Hidalgo, do movimento independentista mexicano. O Museu conta a história da região desde a época préhispânica até ao vice-reinado espanhol, enfatizando como não podia deixar de ser a fase da independência. Bem organizado, propõe paineis explicativos e mapas didáticos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Igualmente obrigatória é uma passagem pela Escola de Belas Artes que abriga um importante Centro Cultural. O edifício em tons ocre é o antigo Convento de la Concepción, do séc. XVIII. O grande pátio resguarda árvores e plantas tropicais e as arcadas estão cobertas por cativantes murais, um dos quais de Siqueiros (infelizmente inacabado). As exposições temporárias têm entrada gratuita e é permitido o uso de câmaras fotográficas e máquinas de filmar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SaF7jKx8cwI/AAAAAAAAAmc/qilV5hwPwqQ/s1600-h/DSC_4779.JPG"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SaF7jKx8cwI/AAAAAAAAAmc/qilV5hwPwqQ/s400/DSC_4779.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5305657680138629890" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Há outras igrejas e muitos edifícios que atraem a nossa atenção quando deambulamos pela cidade, como a Casa Umaran, uma das mais belas de San Miguel, também chamada Casa de los Perros porque uma das varandas está suportada por cães. Actualmente abriga uma loja de decoração e de arte popular, pelo que a entrada é livre. San Miguel de Allende é, de resto, um paraíso para as compras, sobretudo para quem gosta de velharias, arte e artesanato. Há lojas incrivéis por todo o lado, onde se corre o risco de ficar arruinado tal é a quantidade de objectos aliciantes, a preços módicos. Extremamente tentadoras são as lojas de antiguidades, recheadas de peças religiosas, como esculturas em madeira e ex-votos, por exemplo. Para comprar prendas originais e ainda mais baratas, o melhor é ir espreitar o Mercado e o Mercado de Artesanias, que ficam lado a lado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1590904165947063584-2539962657414910435?l=parentisis.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default/2539962657414910435'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default/2539962657414910435'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://parentisis.blogspot.com/2009/02/san-miguel-de-allende.html' title='San Miguel de Allende'/><author><name>Jorge Lima Alves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10491056008163359117</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/ScSqWt2Ha1I/AAAAAAAABCo/Il6SwbfoQcM/S220/L1040628.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SaF-VKcBz5I/AAAAAAAAAms/z4BC6mqyplg/s72-c/DSC_4628.JPG' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1590904165947063584.post-857530661750017402</id><published>2009-02-19T09:17:00.000-08:00</published><updated>2009-02-20T09:52:35.399-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tailândia'/><title type='text'>Caderno tailandês</title><content type='html'>A viagem à Tailândia, que teve lugar em Junho de 2002, começou por uma tentativa gorada de ir à Rússia. Era aí que queríamos ir (Moscovo, São Petersburgo e o chamado Triângulo Dourado), mas os imbecis da embaixada em Lisboa, recusaram-se a dar-nos os vistos, porque exigiam confirmações de todos os hoteis onde iríamos pernoitar no país. Como se isso fosse possível para viajantes como nós que vão improvisando os itinerários e as estadias ao sabor do momento. Na própria manhã em que isso sucedeu – e em algum outro momento vou ter que contar a odisseia das bichas junto ao consulado da Rússia em Lisboa – nessa própria manhã, dizia eu, decidimos ir à Tailândia e logo tratámos dos bilhetes na agência de viagem. Nessa mesma manhã, comprei dois livros sobre esse país e foi assim que começaram as férias, ainda em Lisboa, connosco na cama a ler os livros e a planear a viagem.&lt;br /&gt;O que se segue são as páginas de um caderno que fui preenchendo nessas três semanas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 5 de Junho&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro dia na Tailândia é para esquecer. Muitas horas de voo e um cansaço muito grande! A única coisa boa foi o jantar num restaurante  perto do hotel que vinha aconselhado no Lonely Planet.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 6&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viajar até um país desconhecido é a única forma que conheço de voltar a olhar o mundo como se fosse a primeira vez. É como um regresso à infância. Mal cheguei ao aeroporto, comecei a ver coisas que nunca tinha visto. Cores, cheiros, rostos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na estação de camionetas em Banguecoque, à quel nos dirigimos para viajar até Kho Chang, há 33 guichets para venda de bilhetes, todos ocupados por mulheres que se disputam furiosamente os clientes. Devem ser pagas à comissão, ou têm objectivos de vendas para cumprir, não sei, o que é certo é que nos chamam, todas ao mesmo tempo, com o braço estendido fora das janelinhas, com grandes acenos como se pudessem vender melhor e mais barato do que as concorrentes do lado. O que não é obviamente verdade, até porque, aparentemente, todas têm acesso ao mesmo sistema informático, onde verificaram horários e preços.&lt;br /&gt;Seja como for, pareceu-me vão tentar entendê-las, pois há a maior dificuldade em comunicar. A maioria dos tailandeses com quem tivemos que conversar (no tuque-tuque, no táxi, no restaurante) falam um inglês aproximativo e rudimentar. O taxista que apanhámos para o terminal dos autocarros só sabia dizer «the taxi is good, the taxi is good», e repetiu-o o tempo todo que durou a viagem. Como o obrigámos a vir com o taximetro ligado, e não com um preço combinado previamente, como ele pretendia, nem saiu do carro para nos abrir a bagageira e retirar as mochilas. Para me vingar, também não lhe fechei a mala do carro, obrigando-o finalmente a sair para o fazer ele próprio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegámos a Ko Chang (uma ilha que ainda não atrai muitos turistas, segundo o Lonely Planet) já à noite. Foram cinco horas de camioneta até Trat (400 km) e depois mais 15 minutos numa carrinha aberta até ao porto, onde tivemos de esperar uma hora pelo barco. Já na ilha, em Tha Dan Kao, apanhámos outra carrinha de caixa aberta (espécie de táxi colectivo) que nos trouxe, com muitos outros passageiros, até Hat Sai Khao, onde fica o White Sand Beach Resort que, segundo os nossos guias (Lonely Planet e Guide du Routad) é o que oferece melhor relação qualidade-preço. Revelou-se, afinal, que o nosso Resort é o último da praia, pelo que tivemos de caminhar uma boa meia-hora pela areia numa escuridão quase total. A certa altura, pensámos mesmo em voltar para trás, mas ainda bem que persistimos. O bungalow de madeira é lindo e fica a escassos metros da água, num local paradisíaco, isolado. Custa apenas 200 bats, ou seja mil escudos por noite. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pormenores em que reparei ao longo da viagem:&lt;br /&gt;   As inúmeras escolas&lt;br /&gt;   Os hospitais&lt;br /&gt;   As estradas excelentes&lt;br /&gt;   A fruta. Camiões e camiões de fruta exótica, que nunca tinha visto, mas com ar apetitoso.&lt;br /&gt;   A floresta tropical, densíssima&lt;br /&gt;   Os bonecos nas bombas de gasolina: um manda entrar e o outro, à saída, agradece à boa maneira tailandesa, inclinando a cabeça com as mãos postas como para rezar&lt;br /&gt;   Os altares por todo o lado, de todas as cores possíveis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na camioneta, serviram uma coca-cola gelada em cada paragem. E no princípio da viagem um bolo, meio-queque, meio-mashmellow. No fim, um toalhete refrescante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 7&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vento provoca o mar que provoca a praia, numa fúria linda de se ver. Uma praia praticamente só para nós e uns patos que por ali andam em liberdade e que dão vontade de rir. Nas nossas costas, uma verdadeira muralha de verdura. A floresta tropical à tão densa, que não nos atreveríamos nunca a explorá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ventoínha toda a noite.&lt;br /&gt;A brisa.&lt;br /&gt;O mosquiteiro com pensos, a tapar os buracos e os rasgões.&lt;br /&gt;A barata, ou baratas que não consigo matar.&lt;br /&gt;As formigas gigantes, castanhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As fotografias que ontem não consegui fazer:&lt;br /&gt;   Um altar em cada esquina&lt;br /&gt;   As fábricas de altares&lt;br /&gt;   As saídas das escolas&lt;br /&gt;   Os camiões coloridos&lt;br /&gt;   Os desenhos de alguns camiões&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de uma tarde magnífica na praia, às seis horas fomos ver o jogo Inglaterra-Argentina num bar da praia, onde conhecemos o Martin e a Hillary. Ele londrino de gema, ela australiana a viver em Londres. Acabámos por jantar com eles e ir beber um copo num pub muito psicadélico. Há dezenas de bares e restaurantes e todos têm ecrãs gigantes de televisão. A maioria propõe filmes a horas certas. Muitos turistas escolhem o bar, em função do filme que querem ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 9&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Situada a 8 km da costa, com 30 km de comprimento e 8 de largura, Kho Chang, a Ilha do Elefante (ou Ilha-Elefante?) é a segunda maior da Tailândia. Está quase totalmente coberta por floresta virgem, cerradíssima, com cascatas idílicas (como rezam os prospectos). As praias são magníficas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentei alugar uma mota para irmos dar um passeio pela ilha, mas caí várias vezes e desisti antes que me matasse. A Raquel riu a bandeiras despregadas. E eu fiquei furioso comigo mesmo por ser tão nabo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem, quando voltámos ao nosso quarto, o «nosso» gatinho (um gato selvagem que se afeiçou logo a nós) estava à nossa espera e entrou connosco na cabana. Em boa hora o fez. Viu, antes de nós, uma cobra aos pés da cama e atacou-a imediatamente. Fui ajudá-lo, armado com uma vassoura, e conseguimos expulsar a cobra de casa. A Raquel ainda não estava refeita do susto, quando descobriu uma barata enorme. Tive a maior dificuldade em convencê-la a dormir no bungalow.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Mais tarde&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ayutthaya, depois de uma viagem que parecia nunca mais acabar, tanto mais que tivemos de nos levantar de madrugada para apanhar o barco em Kho Chang. &lt;br /&gt;Jantámos no Malakov, um restaurante todo de madeira, arquitectonicamente lindo, com empregados muito jovens e simpáticos. Também na rua senti várias manifestações de simpatia: muitos sorrisos e alguns acenos discretos.&lt;br /&gt;O hotel custa 500 bats (dois contos e quinhentos). O jantar custou-nos 200 bats e o comboio de Banguecoque para aqui (duas horas de viagem) 15 bats (75 escudos!). Uma pessoa aqui sente-se rica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ayutthaya foi capital do país entre 1350 e 1767. Infelizmente, os invasores birmaneses destruiram tudo o que havia para destruir. Mesmo assim, as ruínas são imponentes e vale a pena passear no meio delas. É o caso do Wat Phra Sanphet, o primeiro monumento que visitámos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aprendi há muito a não procurar imagens, mas a deixá-las vir até mim. É preciso estar muito atento.  Vejo melhor o mundo desde que sou fotógrafo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 10&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fomos fazer uma viagem de barco pelos canais, mas choveu o tempo todo. Mesmo assim, valeu a pena. De resto visitámos mais cinco Wats, entre os quais o Mahathat, que tem o célebre rosto de um buda incrustado nas raízes de uma árvore (a foto aparece invariavelmente em todos os guias da Tailândia).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A propósito do passeio de barco, vale a pena contar a história da rainha Sunada, a favorita do rei Rama V, que se afogou no rio porque o barco virou e os remadores nada puderam fazer para a jaudar. A lei proíbia-os de tocar membros da família real e, se tivessem tentado agarrar a rainha, teriam sido executados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 11&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem à noite, durante uma batalha campal contra duas lagartixas que impediam a Raquel de ir à casa de banho, parti um espelho. Nada que me tirasse o sono, no entanto, já que dormi, finalmente, que nem um justo.&lt;br /&gt;Esta manhã, tal como planeado, alugámos duas bicicletas aqui mesmo no Hotel para ir dar a volta à ilha. Durante o passeio, tirei três rolos de fotografias: algumas crianças, alguns budas, paisagens e gente na rua. Almoçámos numa esplanada à beira-rio (muito bem) e, no final, a empregada trouxe-nos, com a conta, um desenho que nos representava, a mim e à Raquel, à mesa. Um desenho a lápis bastante conseguido, feito por uma empregada muito jovem, quase uma adolescente, a quem ofereci uma caneta, porque era a única coisa que lhe podia dar na altura, para além de uma generosa gorjeta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 12&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No comboio sentou-se ao nosso lado um jovem tailandês que acabou por meter conversa connosco. Tem um bar em Banguecoque, ou trabalha num bar, não percebi bem. Com a sua ajuda, o velhote que vinha ao meu lado a tentar comunicar comigo, conseguiu finalmente perceber de onde vínhamos e para onde vamos, há quanto tempo estamos na Tailândia e quanto tempo mais pensamos ficar.Quando soube que nos dirigíamos para Kamphaeng Phet, sugeriu que saíssemos em Nakhon Sarvan e aí apanhássemos um autocarro. Revelou-se uma opção válida, embora o autocarro estivesse a cair de podre, com os assentos demasiados reclinados e impossíveis de endireitar. Aliás, tivemos um furo a meio do caminho e tivemos todos de sair do veículo, no meio do calor tórrido, para mudarem o pneu.&lt;br /&gt;Enfim, mais uma viagem esgotante (cinco horas de comboio, mais duas e meia de autocarro). &lt;br /&gt;Já em Kamphaeng Phet ainda tivemos de apanhar um táxi colectivo até ao Phet Hotel. No taxi vi um homem com uma moeda no ouvido, bem enfiada lá dentro. Que pena não ter podido tirar-lhe uma fotografia ou perguntar-lhe porque usava aquela moeda assim.&lt;br /&gt;Junto do hotel estava uma mulher a vender uns fritos com ar delicioso. Quando percebeu o meu interesse, deu-me um a provar e eram simplesmente maravilhosos: uma espécie de mini-fartura, menos enjoativa. Comprámos um pacotinho e, mais tarde, quando regressámos ao hotel do nosso passeio, outro.&lt;br /&gt;Enquanto passeávamos, passámos por um templo onde fotografei jovens monges que varriam o pátio. Todos com o cabelo rapadinho e túnicas cor de laranja, muito fotogénicas na verdade. Há monges muito jovens por todo o lado. Não deixa de ser espantoso.&lt;br /&gt;Numa esplanada onde parámos para beber coca-cola com gelo, um outro sujeito meteu conversa connosco. Era baixinho, calvo e anafado e perguntou num inglês péssimo: «Posso sentar-me e conversar um pouco convosco?».&lt;br /&gt;Fez-nos imensas perguntas e ensinou uns truques de magia à Raquel, explicando-nos que tinha sido pugilista durante vários anos e era agora professor de ginástica numa escola a seis quilómetros dali. Fiquei com vontade de conhecer melhor a sua história, mas, de repente, desculpou-se, afirmou que tinha de voltar para junto dos amigos, e foi-se embora, com muitas vénias. Todos dos dias nos têm acontecido coisas assim tão espantosas, tão inexplicáveis. Balanço entre o desejo de entender tudo e o encanto de não perceber nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 13&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda a manhã a ver templos. Andámos quilómetros para fotografar os 68 meio-elefantes do Wat Chang Rob, o buda de pé e outras maravilhas que fotografámos abundantemente. Pelo caminho vimos míudos a vender pássaros em gaiolas minúsculas e homens a pescar no meio do lodo, enterrados quase até ao pescoço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À tarde, o Shopping Center revelou-se uma desilusão: um imenso barracão decadente, cheio de tralha, com meia-dúzia de empregadas sem nada para fazer. Uma delas estava mesmo a dormir em cima de um balcão cheio de soutiens (mais uma foto engraçada que não fiz).&lt;br /&gt;Ainda tivemos tempo de visitar um outro mosteiro, de que esqueci o nome, mas muito bonito, com várias pinturas a descrever episódios da vida de Siddharta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mercado perto do Hotel, uma banca propunha um cão morto e outra um enorme lagarto esquartejado, para além de muitas rãs e também escaravelhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 14&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A viagem para Shukotai durou apenas uma hora. O nosso hotel é constituído por pequenos bungalows de madeira, parecidos com os de Kho Chang. À guisa de cama, um grande colchão no chão, com direito a mosquiteiro. Na casa de banho, as invariáveis lagartixas e, como o nossa cabana está no meio de um jardim luxuriante, ouvem-se todo o dia e toda a noite, como se estivessem dentro de casa, sapos e outros animais que não consigo identificar. Por 200 bats não se pode exigir mais.&lt;br /&gt;Uma das empregadas fala muito bem inglês (o que é raríssimo aqui) e deu-nos dicas úteis. Como a de visitar um templo a sete quilómteros daqui, cheio de esculturas recriando cenas da mitologia local. Creio que ela lhe chamou «Templo dos Sonhos». Por coincidência, o jantar foi num restaurante chamado Dream Café.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo um dos meus guias, Sukhothai quer dizer «Crepúsculo da Felicidade», numa alusão a uma era mítica, sem dúvida. Sukhothai foi a primeira capital da Tailândia e possui um Parque Histórico interessantíssimo (que vamos visitar amanhã, antes de partir para Pitsannulok, a caminho de Chinag Mai, penúltima etapa da viagem).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma das coisas em que nenhum turista de visita à Tailândia pode deixar de reparar é na quantidade de monges jovens. Agora sei porquê. A maioria destes monges é ordenada apenas por um curto período de tempo. Na realidade, quase todos os jovens tailandeses passam por isto, para «ganharem "prestígio" para os seus pais e avançarem o seu próprio desenvolvimento espiritual». Um dos rapazes com quem falei afirma: «Fiz quatro anos de sacerdócio: um para o meu pai, outro para a minha mãe, outro para a minha irmã e outro para mim». Adquiriu «prestígio» que se farta e agora é guia turístico. &lt;br /&gt;Segundo um livro que li, existem actualmente cerca de 250 mil monges budistas na Tailândia, que residem em cerca de 30 mil templos. Mas também há aqui hindus, muçulmanos e católicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descobri dois frutos deliciosos: um chama-se rambutã, o outro, durian. E duas cervejas bem agradáveis: Singha e Chang. Como na canção de Marco Paulo, «não sei de qual gosto mais».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 15&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De manhã, fomos deixar as mochilas na «bus station» e fomos até ao Historical Park onde alugámos bicicletas. Bem merdosas, por sinal. A minha tinha o selim tão rijo que ainda sinto dores no rabo.&lt;br /&gt;Para o fim de visita, caiu uma daquelas chuvas torrenciais que chegam sem se fazer anunciar. Em cinco minutos (o tempo que levámos a chegar a um abrigo) ficámos completamente encharcados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Unesco subvencionou o arranjo deste Parque Histórico que cobre uma área de 70 km2, com relvados e pequenos lagos ornamentais. Lá dentro encontram-se pelo menos 20 grandes monumentos espalhados pela floresta. O maior deles é o Wat Mahathat, um templo magnífico dominado por um «chedi» em forma de flor de lotus. A base está decorada com figuras que retratam – segundo parece – discípulos de Buda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Pitsanulok – onde se encontra o Wat Phra Sri Ratana Mahathat, que o Lonely Planet assegura tratar-se de um monumento «fascinante, a não perder – não ficámos no hotel previsto logo ao lado da Estação (era uma espelunca infecta), mas num outro mais longe que custa 330 bats, com pequeno-almoço incluído. Junto ao rio, deparámos com um espectáculo inesperado e divertido: uma aula de aeróbica em plena rua, participada por largas centenas de pessoas de todas as idades. Mais tarde, o nosso passeio ao longo do rio Nan levou-nos até um restaurante flutuante – também recomendado pelo Lonely Planet – onde comemos muito bem. Estoirados de tanto andar, decidimos ir para a cama cedo, até porque a noite passada quase não consegui dormir por causa de uma bulha entre cães e gatos que toda a noite ladraram, ganiram e miaram, num chinfrim insuportável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Domingo, 16&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma velha de cigarro ao canto da boca, com um chapéu esquisitíssimo, puxa um búfalo que a segue relutantemente. &lt;br /&gt;Via-a pela janela do comboio, a caminho de Chiang Mai (onde chegaremos lá para as dez da noite) e voltei a pensar, pela enésima vez nesta viagem: «As melhores fotos são as que não tiramos».&lt;br /&gt;Em vez do prometido ar condicionado, o comboio tem muitas ventoínhas no tecto. Refresca um pouco, mas não é a mesma coisa. No entanto, é bem mais agradável do que o autocarro e, para nossa grande surpresa, serviram-nos almoço e lanche. Uma hospedeira, como nos aviões, zela pelo nosso bem estar. E tudo isto por 1500 paus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se um dia fizer um filme que se passe na Tailândia, este comboio tem que entrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela janela do comboio, acabo de ver um arbustro com a forma de um cão a saltar. O Eduardo Mãos-de-tesoura passou por aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Mais tarde&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chiang Mai, finalmente! Acabámos por optar por um hotel mesmo à entrada da «Old City», no «Main Square». Por ser domingo, a rua principal estava vedada ao trânsito e repleta de feirantes. Um verdadeiro mercado nocturno alternativo, muito colorido e divertido, com alguns artistas de circo a animar os transeuntes. Um belíssimo comité de recepção e uma agradável surpresa. O quarto, após negociação, ficou por 400 bats. Tem água quente, duche, ar condionado e até TV por cabo e frigirífico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Situada a cerca de 700 km da capital, Chiang Mai é, sem dúvida, uma das principais razões para vir à Tailândia. Todas as pessoas que conheço que já vieram a este país assim o afirmam. A curiosidade é grande e as primeiras impressões confirmam que estamos, de facto, numa cidade muito interessante. Na rua são já visíveis alguns nativos de minorias étnicas (as suas feições não mentem) que aqui vêm vender o seu artesanato, vestidos com vestes tradicionais. De resto, há aqui muito mais estrangeiros do que em Pitsanulok ou Sukhothai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 17&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro dia em Chiang Mae (ou Mai, tanto faz) e já uma orgia de compras. De manhã, alugámos bicicletas (40 bats por dia) e visitámos os três Wats principais: Phra Singh, Chedi Luang e Chiang Man. Pelo caminho não aprei de tirar fotografias, já perdi a conta ao número de rolos que comprei desde que estou neste país. Lembro-me particularmente de uma menina a comer esparguete verde no meio da rua. Tinha uns olhos inesquecíveis.&lt;br /&gt;Depois do almoço, fiz a vontade à Raquel e fomos para o maior Shopping da cidade, onde comprei uns calções e uma camisa muito engraçada para usar fora das calças, de azul forte com peixes brancos desenhados. À noite, já no «night bazar» comprei uma t-shirt com macacos, um buda pequenino e uma marioneta muito gira, para além de umas calças para o Daniel e umas «coçadeiras» para oferecer aos amigos. A Tailândia é o paraíso das compras, não há nada a fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 18&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia calmo. De manhã, fomos reservar os bilhetes para Banguecoque. De hoje a três dias, lá vamos nós às 4 da tarde, em couchette de segunda classe com ar condicionado. Depois, negociámos com um taxi uma ida, amanhã, a uma Escola de Elefantes (o verdadeiro nome é Centro de Treino de Jovens Elefantes), a 37 quilómetros daqui. 1200 bats com a promessa de várias paragens pelo caminho para visitarmos outros locais de interesse. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resto do dia foi passado a passear de bicicleta por sítios onde ainda não tínhamos ido. Está a decorrer o Campeonato do Mundo de futebol e não há nenhuma loja, nenhuma tenda, mesmo modesta, que não tenha uma televisão, grande ou pequena. Muitos restaurantes têm mesmo várias. Os cozinheiros trabalham a ver televisão, e também os artesãos e os vendedores de rua. É impressionante. À minha frente, por exemplo, está numa casota (mínima) de câmbios uma rapariga que tem uma tv enorme mesmo junto ao ecrã do computador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 19&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dormi mal, muito mal mesmo. A preocupação de acordar cedo também não ajudou. Uma hora antes do telemóvel tocar (uso-o como despertador) já eu estava de pé. Ainda não eram sete horas. Como sempre, sonhei imenso no pouco tempo que passei pelas brasas. Lembro-me que sonhei com colegas de trabalho e que eu tocava saxofone muito bem (não foi, de resto, a primeira vez que isto aconteceu e sempre que acontece faz-me feliz).&lt;br /&gt;Às oito e meia em ponto, lá estava o nosso guia à porta, prontíssimo e apressado, pois era imperioso, segundo ele, lá chegarmos antes das 9h45 para assistir ao banho dos elefantes. &lt;br /&gt;Efectivamente um espectáculo digno de ser ver.&lt;br /&gt;Seguiu-se um show com os elefantes que são muito engraçados, dóceis e bem ensinnados. Foram treinados para transportar árvores abatidas mas, agora que esse trabalho já não se justifica, pois há máquinas para o fazer, ensinam-nos a tocar música e a pintar, entre outras habilidades. Os turistas compram os quadros pintados pelos elefantes e cachos enormes de bananas para lhes dar.&lt;br /&gt;Antes de nos virmos embora, visitámos a maternidade dos elefantes, onde estava um recém-nascido e o hospital com várias enfermarias, mas onde só estava um animal.&lt;br /&gt;A propósito dos elefantes, não resisto a citar alguns factos. Na Tailândia, o elefante goza de um estatuto de fazer inveja a qualquer trabalhador português: 3 dias de trabalho, três dias de descanço, três meses de férias e reforma aos 60 anos. Frequentam a escola durante seis anos, comem cerca de 200 quilos de verduras por dia e bebem 240 litros de água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caminho de regresso, parámos em vários locais incriveis. O primeiro era à beira da estrada, onde estão dois tronos de dois reis antigos, o de Lampang e o de Lamphun. Antes guerreavam-se, hoje são venerados como deuses, tanto um como o outro. Os seus tronos estão rodeados de milhares de altares oferecidos pelas pessoas que lá vão pedirem sorte no jogo. Se lhes sai um prémio na lotaria, oferecem um altar ou um animal de barro: elefante, cavalo ou tigre, por exemplo. Alguns dos altares são novinhos em folha, mas também os há muito antigos, já meio em ruínas. Todos estão muito bem decorados, com flores e figurinhas de barro e o conjunto é impressionante. De súbito, apareceu uma cobra viva a nossos pés e o nosso guia aconselhou-nos a sair dali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na etapa seguinte, parámos junto a um mercado na floresta. São os aldeões que vivem na selva que ali vêm vender os seus produtos: fruta, legumes, cogumelos, mas também peixes de rio (que se encontram vivos dentro de sacos de plástico). O mais impressionante, para nós europeus, são os vendedores de lagartos gigantes, insectos vários e rãs de todos os tamanhos. Numa das barracas, uma mulher grelhava sapos para vender como petisco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois do mercado, fomos a Lampang visitar um grande templo, com gravuras magníficas, das mais bonitas que já vi. Numa banca comprámos um Buda que esconde o rosto entre as mãos. Foi a Raquel que mo ofereceu (na véspera eu tinha-lhe oferecido um fio de prata muito bonito). Quando apareci no mercado, váriosvendedores começaram a chamar-me «Zidane», sem dúvida porque sou careca como ele. «Zidade, Zidane», chamavam, com grandes gestos. Provavelmente, aqui, como na Índia, ser careca é sinal de riqueza. Todos queriam que lhes comprasse qualquer coisa.&lt;br /&gt;Finalmente, antes de nos trazer de regresso ao hotel, o taxista ainda nos levou a visitar uma fábrica de lacas, uma de pratas e outra de sedas. Não há como fugir-lhes!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 20&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro dia em cheio. Logo pela manhã vieram buscar-nos ao hotel numa carrinha onde já estavam uma senhora e a sua filha. Canadianas. A mãe chama-se Jane e a filha Janice. A seguir fomos buscar outras duas passageiras: duas inglesas chamadas Jane e Allie, mais ou menos com a idade da Raquel. E finalmente, junto dum hotel luxuoso, embarcaram um casal britânico, John e Paula. Ele contabilista, ela esteticista e ambos quarentões.&lt;br /&gt;A aventura propriamente dita começou com o «elephant ridding», um percurso acidentado pela floresta nas costas de um elefante enorme. O nosso «condutor de elefantes» destacava-se dos outros por ser o mais louco. Na realidade, parecia completamente chanfrado. Não parou quieto nem por um segundo. Tão depressa estava em cima do elefante connosco, como descia para nos seguir a pé. Falava sozinho, cantava, metia-se com toda a gente. A certa altura, colocou o nosso elefante à frente da coluna e abandonou-nos. Fizemos, assim, uma boa parte do trajecto sem ele.&lt;br /&gt;Tirando um momento, em que o animal sentiu fome e decidiu ir comer uns arbustros fora do trilho, numa zona bastante perigosa, por ser um declive, correu tudo bem. A sensação de estar lá em cima é fabulosa. Uma pessoa sente-se um rei. E tirando as partes em que se descem declives acentuados (o que aconteceu umas três vezes naquela hora), sentimo-nos muito seguros.&lt;br /&gt;Um fotógrafo local tirou-nos uma foto em cima do elefante, que ficou muito gira.&lt;br /&gt;Abandonados os elefantes, fizemos um percurso a pé, sempre a subir, pelo meio de uma floresta densa, até uma aldeia Mohng. Um sítio inenarrável, com muitas bancas de artesanato e uma tasca infecta sem o menor interesse. Em seguida, voltámos pelo mesmo caminho até ao local onde nos esperava a carrinha, que nos levou a uma outra aldeia na montanha onde almoçámos. Uma comida simples, mas agradável: sopa, arroz vegetariano e melancia.&lt;br /&gt;Seguimos, então, para a aldeia Karen, esta sim, uma verdadeira aldeia de montanha, habitada e viva. Mas, até por isso mesmo, senti-me mal: as pessoas estão ali a fazer a sua vida de todos os dias e os turistas passeiam no meio delas como se estivessem num zoo com as suas câmaras indiscretas, sem possibilidade de comunicação, pois ninguém fala inglês. São, de resto, extremamente pobres: as casas são de madeira, muito rudimentares. A aldeia está mergulhada em lama, com porcos pretos e gatos por todo o lado. É de uma desolação tal que não cheguei a fazer fotografias. Tinha vergonha por eles. É como visitar um zoo humano, é degradante para eles e para nós.&lt;br /&gt;A etapa seguinte foram as «water falls» pelas quais toda a gente esperava ansiosamente, devido à promessa de que era possível lá tomar banho. Efectivamente, todos aproveitámos para nos refrescar e fazer fotografar em fato de banho, debaixo da cascata. Apesar do local ser particularmente escorregadio, foi muito divertido, tal como a descida de rio que se seguiu. As jangadas, de bambu, revelaram-se muito diferentes do que eu tinha imaginado. Muito estreitas e compridas, permitiam quatro passageiros cada uma, mais o condutor. A mim coube-me o papel de segundo condutor, pelo que fiquei de pé o tempo todo, com uma vara enorme na mão, encarregue de ajudar a embarcação a manter-se bem no centro do rio. Um rio não muito largo (uns dez metros de largura), mas cheio de rochedos e outros acidentes de percurso. Os sítios onde dava mais gozo passar eram, naturalmente, os «rápidos», onde por duas ou três vezes estive quase a desequilibrar-me. Mas correu tudo bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;21 e 22&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O comboio para Banguecoque leva 14 longas horas. Ainda por cima, nunca apagam a luz durante a noite. Não consegui dormir quase nada. Por causa da luz, do barulho e do frio (o ar condicionado estava mal regulado).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia foi aproveitado para visitar o Grande Palácio (e o Templo do Buda Esmeralda) e os Wats Phra Kei e Arun (do outro lado do canal). Para visitar o Palácio e o respectivo tempo a Raquel teve que alugar camisa, saia comprida e sandálias. Não se pode andar de calções e ombros descobertos. O sacrifício vale a pena, o local é esplenderoso. Do Buda – uma estátua de 75cm de altura feita de jaspe verde – diz-se que é «o emblema da nação», «a alma da Tailândia». E conta-se que foi descoberto em Chiang Rai, em 1436, quando um raio «destruiu um chedi para revelar a estátua escondida no seu interior».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 23&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Li que um em cada oito tailandeses vive em Banguecoque e que mais de 80% dos veículos a motor do país estão aqui registados. Os mesmos números indicam que mais de 50% dos residentes são de origem chinesa. Entre os muitos nomes de Banguecoque figura o de Krung Thep, «Cidade dos Anjos». Também há quem lhe chame «Repositório Supremo das Jóias Divinas».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todo o dia no incrível e imenso mercado de Chatuchank. Das 11 da manhã às 7 da tarde, um verdadeiro festival de compras. Nunca tinha comprado tanta coisa num só dia: 5 camisas, 3 t-shirts, um par de chinelos e uns ténis All Star. Também para a Raquel foi uma desbunda. Foi de tal ordem que tivemos que comprar um saco enorme para transportar a tralha toda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 24&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Penúltimo dia (nem quero pensar nisso). Fomos ver o Wat Po (Templo do Buda Deitado), Chinatown e fazer um passeio de barco, melhor dizendo de piroga, pelos canais, os famosos «klongs». Depois ainda tivemos tempo para um mergulho na piscina do hotel e ir ao Central Departement Store, fazer umas últimas compras. No regresso doíam-me tanto os pés que decidi ir fazer finalmente uma massagem para experimentar. Uma hora de massagem aos pés, com um massagista (gay?) que tão depressa me aleijava como me fazia rir!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;25 e 26&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O último dia foi bem aproveitado. Começámos por dar um mergulho na piscina, ainda antes do pequeno almoço e fomos visitar a lindíssima casa do lendário Jim Thompson, uma obra-prima arquitetónica com um jardim belíssimo e uma decoração de extremo bom gosto. Depois fomos ver o Palácio Vimanmek, que se diz ser «a maior mansão do mundo em teca dourada». Tivemos sorte e vimos lá um magnífico espectáculo de dança tailandesa tradicional («lakhon»).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paul Valery dizia que os poemas nunca se acabam, apenas se interrompem. O mesmo se poderia dizer de algumas histórias de amor e das maior parte das viagens. Raramente levei uma viagem até ao fim, até ao ponto de dizer “estou farto deste país, quero ir-me embora”. Mas já estou a pensar no próximo destino. A Raquel quer ir para Nova Iorque.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1590904165947063584-857530661750017402?l=parentisis.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default/857530661750017402'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default/857530661750017402'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://parentisis.blogspot.com/2009/02/caderno-tailandes.html' title='Caderno tailandês'/><author><name>Jorge Lima Alves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10491056008163359117</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/ScSqWt2Ha1I/AAAAAAAABCo/Il6SwbfoQcM/S220/L1040628.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1590904165947063584.post-5333509001401813886</id><published>2009-02-19T07:58:00.000-08:00</published><updated>2009-03-04T09:37:42.813-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='África do Sul (Robben Island)'/><title type='text'>A prisão de Mandela</title><content type='html'>A Robben Island é minúscula (cerca de seis quilómetros quadrados) e bastante árida. No entanto, é um dos locais mais visitados pelos turistas que se deslocam à Cidade do Cabo, pois foi ali que Nelson Mandela - que viria a tornar-se, após trinta anos de cativeiro, no primeiro Presidente eleito democraticamente da África do Sul - passou 18 anos da sua vida. Utilizada como prisão de alta segurança, pelo menos desde o século XVII, Robben Island foi declarada «Património da Humanidade» pela UNESCO. Em 2003, na altura em que por lá passei, o local voltou a estar na ordem do dia, graças à acção promovida por Madiba (como o povo chama carinhosamente ao seu ex-presidente) que reuniu na Cidade do Cabo uma plêiade de músicos ilustres (gente como Bono, The Edge, Peter Gabriel, Dave Stewart, Annie Lennox, Brian May e tantos outros), a fim de atrair a atenção do mundo para a sua nova (e urgente) luta: combater o flagelo da SIDA em África.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Visitei «a ilha maldita» na companhia de Indres Naidoo, um dos muitos companheiros de cativeiro de Mandela, que nos explicou: «46664, o número de que toda a gente fala agora, deve ler-se na realidade 466/64, sendo que os últimos dois algarismos indicam o ano em que o nosso líder foi preso». Logo a seguir, acrescenta, sem disfarçar o orgulgo: «Eu era o 885/63, o que quer dizer que fui preso um ano antes». &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este sul-africano de origem indiana, cujo pai foi amigo de Gandhi, assegura que foi apanhado em consequência de uma armadilha montada com a cumplicidade de um colega. Tentava dinamitar uma linha de caminho-de-ferro e ficou ferido por uma bala. Mais tarde, em consequência da tortura e dos maus tratos que sofreu na prisão, ficou surdo de um ouvido e hoje é preciso gritarmos com ele se nos quisermos fazer entender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Traído por um camarada de partido, Indres Naidoo cumpriu uma pena de dez anos de trabalhos forçados. Com o fim do Apartheid, foi nomeado senador do Parlamento Nacional, mas agora está reformado. Como muitos dos seus antigos companheiros de prisão, parece ter uma necessidade quase doentia de evocar as condições em que viveu em Robben Island. &lt;br /&gt;Antecipando-se à nossa pergunta assegura: «Não, não me importo nada de aqui voltar. Na verdade, penso que enfrentar o passado é uma forma de nos renovarmos.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A visita guiada começa logo ao sair do barco. No cais estão fotos antigas, muito ampliadas, que documentam as condições em que os presos eram transportados, ligados uns aos outros por cadeias pesadíssimas. Em 1963, quando Indres ali chegou, a prisão tinha um aspecto muito diferente do que tem actualmente.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;«Estes edifícios todos foram construídos por nós, ao longo dos anos», explica o nosso anfitrião. «À chegada davam-nos uma colher de pau, um bocado de sabão azul, e um farrapo que fazia de toalha. Os sapatos eram escolhidos ao calhas, por vezes ficávamos com um número 43 para um pé e um 41 para o outro. Com a roupa era a mesma coisa: a um preso alto podiam dar números pequenos e a um baixinho umas calças e uma camisola enormes.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse tempo, encontravam-se em Robben Island muito presos de delito comum. Ladrões, assassinos, violadores, organizados em «gangs», que se guerreavam constantemente. «As autoridades pensavam que com a sua bestialidade, juntamente com a dos guardas, nos conseguiriam quebrar. Mas como éramos uma centena de presos políticos, eles não se metiam connosco e, na verdade, aconteceu o contrário do que os guardas pretendiam. A nossa determinação e consciência política começou a conquistar adeptos junto dos criminosos, pelo que as autoridades optaram por os retirar pouco a pouco da ilha, que acabou destinada exclusivamente aos presos políticos, sobretudo do ANC e do PAC (Pan-Africanist Congress).»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num tom calmo, mas vivo, que trai uma real emoção, Indres evoca a brutalidade dos guardas e o médico da prisão, um tal dr. Van den Bergen, que examinava os presos à chegada. «Examinava-nos à distância, obrigando-nos a abrir a boca e a afastar as pernas com um bastão, para nos dar, invariavelmente, como aptos para todo o serviço, mesmo se alguns de nós sofriam de asma, ou de insuficiências cardíacas e respiratórias.» Ao falar do médico, aflora uma ponta de ódio na sua voz. No entanto, afirma que não guarda nenhum rancor aos seus carcereiros, nem mesmo àqueles que o maltrataram. E assegura que nunca procurou revê-los, ou vingar-se de alguma maneira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os piores momentos eram passados nas pedreiras. Condenados a trabalhos forçados, todos tinham objectivos a cumprir. «No final do dia, os guardas mediam a quantidade de pedra partida e se não tivéssemos atingido as quotas estipuladas podíamos ser privados de comida.» Entre as cenas que mais o impressionaram, num desses locais, conta-se a de um preso de delito comum que um dia enterraram na terra até ao pescoço. E sobre quem um guarda acabou por urinar, dizendo. «Tens sede? Então toma lá 'whisky' do melhor.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitas histórias deste calibre foram vividas por Indres Naidoo, Nelson Mandela e companheiros. Para conhecer melhor esta realidade, recomenda-se a leitura da autobiografia de Mandela, &lt;strong&gt;A Long Way To Freedom&lt;/strong&gt;. Segundo Indres Naidoo (que também escreveu um livro, que nos recomenda com muito empenho), essa autobiografia foi parcialmente escrita ali mesmo, na cela 5 do Bloco C, em folhas de papel higiénico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O pequeno barco que liga a Cidade do Cabo à ilha leva mais ou menos meia hora para percorrer os 12 quilómetros. Há visitas guiadas todos os dias, que permitem visitar as várias instalações da prisão e a igreja, mas também o cemitério dos leprosos e o campo onde os presos iam partir pedra. Não é preciso ter muita imaginação, para sentir real compaixão pelos muitos milhares de almas penadas por ali passaram desde o século XVI.&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1590904165947063584-5333509001401813886?l=parentisis.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default/5333509001401813886'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default/5333509001401813886'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://parentisis.blogspot.com/2009/02/prisao-de-mandela.html' title='A prisão de Mandela'/><author><name>Jorge Lima Alves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10491056008163359117</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/ScSqWt2Ha1I/AAAAAAAABCo/Il6SwbfoQcM/S220/L1040628.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1590904165947063584.post-5214687452821159163</id><published>2009-02-19T02:01:00.000-08:00</published><updated>2009-02-22T08:41:21.651-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Fotografia e viagem'/><title type='text'>Fotografia e Viagem</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1xnxNAukI/AAAAAAAAAhE/nlaAVB-GpjQ/s1600-h/pont%C3%A3o20.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1xnxNAukI/AAAAAAAAAhE/nlaAVB-GpjQ/s400/pont%C3%A3o20.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304520864149060162" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viajar e fotografar são duas das coisas que mais gosto de fazer na vida. Para mim, são prazeres quase inseparáveis um do outro. Do mesmo modo que não me imagino a viajar sem, pelo menos, uma máquina fotográfica, de que cada vez que me disponho a fotografar é como se embarcasse para uma terra estranha. Mesmo em Lisboa, mesmo em casa, quando saio para a rua para fotografar, transformo-me instantaneamente num turista. Turista sim, não tenho medo da palavra. Faz-me rir a conotação negativa que ela ganhou e a presunção com que algumas pessoas reivindicam: «Eu não sou turista, sou um viajante». Esquecem que há mil formas de fazer turismo e outras tantas de ser viajante. Nem todos os turistas andam atrás de postais ilustrados, nem todos os viajantes estão animados das melhores intenções. Além de que para se ser viajante são precisas, pelo menos duas coisas, que poucos têm: muito tempo e muito dinheiro (ou uma profissão que implique viajar, é claro).&lt;br /&gt;Adiante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1x84-CF9I/AAAAAAAAAhs/FEksl2Pz6BI/s1600-h/DSC_1608.JPG"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 266px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1x84-CF9I/AAAAAAAAAhs/FEksl2Pz6BI/s400/DSC_1608.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304521227010971602" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fotografia exerce sobre mim um fascínio da mesma ordem que a viagem. Podia racionalizar à exaustão este paralelo, mas fico-me só pelo facto de ambas implicarem um desejo insaciável de ver e descobrir não se sabe bem o quê. Viajar e fotografar implicam uma atenção extrema e desfechos imprevisíveis. Num caso como no outro nunca sabemos o que vamos ver ou sentir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1x8kcryzI/AAAAAAAAAhk/9Lf6SqbzENA/s1600-h/DSC_1692.JPG"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 266px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1x8kcryzI/AAAAAAAAAhk/9Lf6SqbzENA/s400/DSC_1692.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304521221502389042" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando acabamos uma viagem, a única coisa que fica são o que compramos e as fotografias. É por isso que são as duas actividades preferidas dos turistas. Tudo o resto (as paisagens magníficas, os templos espectaculares, a gastronomia sofisticada, as conversas de rua) acaba por parecer um sonho, pois se escapa por entre os dedos, como água ou areia. Não fomos feitos para possuir nada: tudo o que podemos fazer é esquecer e sonhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1x8h_qEpI/AAAAAAAAAhc/Vxu_ByMUoKY/s1600-h/DSC_3724.JPG"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 266px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1x8h_qEpI/AAAAAAAAAhc/Vxu_ByMUoKY/s400/DSC_3724.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304521220843770514" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida é, com efeito, um sonho que podemos fotografar. Em contrapartida, das minhas aventuras oníricas, nunca consegui trazer uma imagem. Quanto muito, algumas palavras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1xooN1soI/AAAAAAAAAhU/OiLdZxf8hig/s1600-h/DSC_8982.JPG"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 269px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1xooN1soI/AAAAAAAAAhU/OiLdZxf8hig/s400/DSC_8982.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304520878916481666" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como fotógrafo, por vezes gostaria de fotografar o que já não existe. Ou o que ainda não existe. É o que tentamos fazer quando fotografamos ruínas, por exemplo, ou uma paisagem onde virá a ser construído um aeroporto ou um condomínio de luxo. Como seria interessante poder tirar fotos da antiguidade, da idade média e, já agora, do futuro. Viajar no tempo... isso sim, seria viajar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1xoS2g4NI/AAAAAAAAAhM/3MxanW3ZoO8/s1600-h/Malta2006Negativos+121.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 268px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1xoS2g4NI/AAAAAAAAAhM/3MxanW3ZoO8/s400/Malta2006Negativos+121.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304520873181503698" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sou muito original: gostaria de ver o mundo todo antes de morrer. Adoraria dar a volta à prisão, como dizia Margueritte Yourcenar que considerava o nosso planeta um enorme presídio. Com toda a razão: aprisionados neste mundo, condenados à morte, esperamos a nossa hora de descobrir a verdade. Ou de simplesmente desaparecer. O castigo é esse: não sabermos o que nos espera. Mas supondo que há vida depois da morte, uau... que viagem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Fotos (de cima para baixo): Cabo Verde, Egipto, Japão, Holanda, Dubai e Malta&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1590904165947063584-5214687452821159163?l=parentisis.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default/5214687452821159163'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default/5214687452821159163'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://parentisis.blogspot.com/2009/02/fotografia-e-viagem.html' title='Fotografia e Viagem'/><author><name>Jorge Lima Alves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10491056008163359117</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/ScSqWt2Ha1I/AAAAAAAABCo/Il6SwbfoQcM/S220/L1040628.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1xnxNAukI/AAAAAAAAAhE/nlaAVB-GpjQ/s72-c/pont%C3%A3o20.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1590904165947063584.post-6198774064392686710</id><published>2009-02-19T01:24:00.000-08:00</published><updated>2009-02-19T01:31:09.171-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Seychelles'/><title type='text'>Seychelles à vol d'oiseau</title><content type='html'>Uma ilha aqui, outra ali, uma montanha luxuriante e nuvens quanto baste. O paraíso afinal é pouca coisa e a beleza é essencialmente uma questão de doseamento. Nem mais, nem menos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como dizia Rimbaud, a eternidade é feita de sol e mar. Não era bem isto que ele dizia, mas mesmo assim: se a eternidade existe é esta história de amor entre o sol e o mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui estou eu, portanto, feliz de me sentir feliz, tão contente que só consigo escrever disparates. Pessoa dizia que todas as cartas de amor são ridículas. Pois bem, também os textos de viagem o podem ser pelos vistos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Azul, o mar também pode ser verde, ou prateado, ou mesmo não ter cor. Hoje vi um mar tão transparente que parecia água da torneira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde quer que vás, a montanha, coberta por uma floresta densíssima – variada e selvagem – parece um ser vivo, um gigante petrificado. Um monstro benevolente em cuja carne excrecências verdes irrompem constantemente. São milhões de línguas verdes sequiosas, à procura do sol. De resto, chove copiosamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mil formas, uma única força.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol e a chuva parecem envolvidos numa competição sem quartel. Vem a chuva e molha-nos, vem o sol e seca-nos, até que a chuva volte de novo e assim sucessivamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4573/931/1600/DSC_8271.0.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4573/931/320/DSC_8271.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4573/931/1600/DSC_8205.0.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4573/931/320/DSC_8205.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4573/931/1600/DSC_8453.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4573/931/320/DSC_8453.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4573/931/1600/DSC_8324.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4573/931/320/DSC_8324.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4573/931/1600/DSC_8144.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 324px; CURSOR: hand; HEIGHT: 213px" height="213" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4573/931/320/DSC_8144.jpg" width="413" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;Seychelles, 2006&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1590904165947063584-6198774064392686710?l=parentisis.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default/6198774064392686710'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default/6198774064392686710'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://parentisis.blogspot.com/2009/02/seychelles-vol-doiseau.html' title='Seychelles à vol d&apos;oiseau'/><author><name>Jorge Lima Alves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10491056008163359117</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/ScSqWt2Ha1I/AAAAAAAABCo/Il6SwbfoQcM/S220/L1040628.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1590904165947063584.post-1596067279975986870</id><published>2009-02-17T09:34:00.001-08:00</published><updated>2009-02-19T08:25:46.669-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Índia'/><title type='text'>Regresso à Índia</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZxbTw97gMI/AAAAAAAAAcM/wFHzRThrcC0/s1600-h/AgraTintin.JPG"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 283px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZxbTw97gMI/AAAAAAAAAcM/wFHzRThrcC0/s400/AgraTintin.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304214856255897794" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca me vou esquecer da Índia. Como é que me iria esquecer da Índia, um país onde basta pintar de azul uma pedra à beira do caminho para ela se transformar num deus? &lt;br /&gt;Impossível esquecer Jaisalmer. Udaipur. Jodhpur. Jaipur. Pushkar. Agra. Benares. &lt;br /&gt;Como poderia esquecer Benares? &lt;br /&gt;Nietzsche definia o homem como “aquele que se faz nascer a si mesmo”. De certo modo, ainda que pareça exagero, na Índia foi como se tivesse nascido outra vez. Sim, de algum modo voltei a nascer na Índia. &lt;br /&gt;Não nasci mal cheguei ao aeroporto de Nova Delhi. Não, não foi aí. Não foi assim. Não nasci, ou melhor, não renasci de uma vez só. Foi um processo gradual. Lento. Inconsciente. Nem sequer dei por isso, só agora, quando me deu para escrever sobre a Índia, é que me apercebi disso. Por isso, é urgente voltar agora à Índia. Não fisicamente (isso não é tão urgente, mas também tenho que o fazer), mas através deste texto. Através da memória. &lt;br /&gt;Claro que esta Índia – a Índia onde renasci – só existe na minha cabeça. &lt;br /&gt;É o que faz a sua importância, aliás. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZxade-4RZI/AAAAAAAAAcE/9K6KsFJ0v2Q/s1600-h/JaipurTemplo.JPG"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 400px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZxade-4RZI/AAAAAAAAAcE/9K6KsFJ0v2Q/s400/JaipurTemplo.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304213923715106194" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre me pareceu que não nasci neste mundo. Sempre me pareceu que nasci noutro planeta. Não me identifico com os habitantes da Terra. Não tenho nada a ver com esta gente. Talvez o meu planeta de origem tenha alguma semelhança com a Índia. Não sei. Na Índia, por vezes, ver pela primeira vez era reconhecer. Havia na Índia pequenas coisas que me diziam muito. Pequenos objectos, pequenos gestos. Um odor aqui, um olhar ali. As cores e, sobretudo, as árvores. Havia na Índia muitas árvores que me falavam ao coração. Que me emocionavam profundamente. Das quais me sentia irmão. Vão pensar que estou louco, ou que nunca regulei bem da cabeça, mas as árvores da Índia – em certos trajectos que fiz de comboio ou de autocarro – contam-se entre as mais belas que jamais vi. Aliás, o mais bonito na Índia é o campo. Certas planícies, certas florestas são bem mais bonitas que os mais belos palácios de Udaipur, ou que o próprio Taj Mahal, esse orgasmo “congelado” de um príncipe apaixonado por uma ideia onde cabia o amor, a beleza e a morte. Sim, para mim, no fundo o Taj Mahal é um monumento de esperma. A cor não engana e a forma também não, já tive orgasmos bem parecidos com aquele monumento. Nunca tive foi dinheiro para os mandar imortalizar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZxbkE9uFvI/AAAAAAAAAcU/ZYqXrEwkPJE/s1600-h/JaipurCerim%C3%B3nia.JPG"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 228px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZxbkE9uFvI/AAAAAAAAAcU/ZYqXrEwkPJE/s400/JaipurCerim%C3%B3nia.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304215136501634802" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Viajar até um país desconhecido é uma forma acessível de ver o mundo pela primeira vez. Nesse sentido, é um regresso à infância. Na Índia voltei aos tempos dos meus primeiros passos no mundo. Tive que reaprender, não tanto a andar, mas a ver e a sentir. &lt;br /&gt;Porém, quando a viagem acaba, tudo se desvanece. Tudo o que se viveu, tudo o que se viu, se sentiu, se saboreou, já não se consegue na verdade descrever. Nem os diários de bordo, nem as fotografias ou as filmagens ajudam realmente, parece que tudo não passou de um sonho. E uma grande parte – a maior parte, melhor dizendo – das nossas recordações já desapareceram, ou vão desaparecer em breve. &lt;br /&gt;Escrevo este texto contra isso. No maior desespero, porque sei que é inútil. E, no entanto, é exactamente o facto de ser inútil que torna este projecto tão importante aos meus olhos. E pouco importa se é bom ou mau. Escrevo-o porque não posso fazer de outro modo. E, sinceramente, só os livros escritos assim, contra tudo e contra todos, contra nós próprios sobretudo, têm algum valor aos meus olhos. Só quem escreve contra o suicídio merece ser lido (já houve evidentemente quem o tivesse afirmado antes de mim).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZxcgEalUmI/AAAAAAAAAcs/DfSBQ-Sk2-M/s1600-h/JaipurMoney.JPG"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 283px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZxcgEalUmI/AAAAAAAAAcs/DfSBQ-Sk2-M/s400/JaipurMoney.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304216167146410594" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Estou sempre a voltar à Índia. A lembrar-me da Índia. De cenas que vi. De certos rostos também. Não exactamente dos rostos, mas das características de certos rostos. Os olhos, por exemplo. São muito perturbadores, os olhos dos indianos. Mais do que os olhos, o olhar. Há olhares que parecem capazes de ver dentro de nós. &lt;br /&gt;Em contrapartida, de modo geral, os indianos são perfeitamente opacos. Impossível adivinhar o que estão a pensar, quando estão a olhar para nós. &lt;br /&gt;Não são só os olhos que me vêm à memória. É muito bonito o sorriso dos indianos. Lá, todos os sorrisos são bonitos. Talvez porque são inocentes, espontâneos e desinibidos. Desinteressados também, diga-se o que se disser. Essa é uma das recordações mais gratas. No meio de tanto lixo, tanta miséria, tanta desgraça, tantos sorrisos, tão bonitos. Uma das razões porque gosto tanto da Índia é essa: o facto de lá ter encontrado tanta criança sorridente, tanta mulher bonita, tanto rosto digno. Há, com efeito, no rosto dos indianos, mesmo nos mais pobres, mais doentes, uma dignidade espantosa. Uma nobreza incrível. &lt;br /&gt;Os olhos, o sorriso, as roupas. Recordo ainda as cores magníficas das roupas das mulheres. E os seus utensílios. As bilhas cromadas ou niqueladas que usam. Muitas vezes amachucadas, tão amachucadas como elas próprias. E os cestos cheios de bostas de vaca, tão importantes para elas, porque as “panquecas” que fazem com elas lhes permite cozinhar e aquecer-se. &lt;br /&gt;Para mim, numa viagem os objectos mais insignificantes são tão importantes como os grandes monumentos. Sim, definitivamente, os pequenos objectos de uso quotidiano, o artesanato, os pormenores de decoração, podem ser, para pessoas simples como eu, tão ou mais importantes como a arquitectura de um templo ou o recheio de um museu. Muitas vezes, um simples par de sapatos, ou uma flor silvestre, comove-me tanto ou mais que uma catedral. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ2HQ_WyspI/AAAAAAAAAh8/eSXO7e1XHos/s1600-h/Benares002.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 261px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ2HQ_WyspI/AAAAAAAAAh8/eSXO7e1XHos/s400/Benares002.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304544662066999954" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Benares ou Varanasi. Em francês é Bénarès, com um acento agudo e outro grave. Em inglês é (ou pode ser) Banaras. Na Índia vi outras versões, como Benarasi, por exemplo. Como se sabe, a cidade deve o nome aos rios Varuna e Asi, que confluem, mais ou menos, naquele local no Ganges. A cidade está construída ao longo do rio, numa só das margens. Em frente, na outra margem, não há nada. Parece uma ilha deserta: só pedras e ervas. E muita lama, parece. O contraste entre as duas margens é brutal. E, por isso, fascinante. Vista do rio, sobretudo ao nascer e ao pôr-do-sol, a cidade é monumental, toda constituída por imponentes palácios e templos, e grandes escadarias que terminam dentro de água, os chamados Gaths. E a decadência daqueles edifícios, longe de lhes diminuir a grandiosidade, dá-lhes uma aura sobre-humana, como se tivessem sido construídos por um povo que já não existe. Ou que partiu para outro planeta. &lt;br /&gt;Por detrás desse cenário de fachada, esconde-se uma verdadeira espelunca. Uma verdadeira lixeira a céu aberto, tentacular, labiríntica. Quilómetros e quilómetros quadrados de ruas miseráveis, de barracas a fingir que são casas, de esgotos a fingir de ruas, onde brincam crianças e passeiam vacas esqueléticas, à mistura com todo o tipo de veículos. Para já não falar dos milhares de deficientes físicos e nos leprosos. &lt;br /&gt;Como todas as cidades da Índia, Benares tem gente a mais, coisas a mais, demasiado barulho e animais. Tantos odores que, por vezes, o ar se torna quase irrespirável. &lt;br /&gt;A cidade parece estar ali desde sempre e diz-se que é a cidade mais antiga do mundo. No entanto, nenhum edifício tem mais de 200 anos. Seja como for, Benares está fora do tempo, ao lado do tempo, numa espécie de “Twilight Zone”, onde tudo pode acontecer e tudo acontece realmente. Sobretudo o pior. &lt;br /&gt;Dir-se-ia que a cidade existe em função da morte. Que é uma espécie de porta para outras vidas. Ou para o Nirvana que é outro nome para o Absoluto. &lt;br /&gt;A mim bateu-me muito. MUITO. &lt;br /&gt;Em particular a Casa da Morte, com os seus velhinhos recurvados, ocultando-se dos olhares, mas de mão estendida na esperança de uma esmola. Foi um homem que me abordou na rua que me conduziu até lá. Percebeu que eu procurava observar o ritual da cremação e desafiou-me a segui-lo para me mostrar um posto de observação privilegiado. E, com efeito, do segundo andar, lá de cima da varanda, via-se tudo muito bem. O ritual todo. O corpo a chegar, carregado por homens em passo de corrida, envolto numa mortalha amarela brilhante. O banho que se segue e a pira funerária. Lembro-me dos pormenores que o homem não se cansava de fornecer. São precisos duzentos quilos de lenha, pelo menos, para o corpo arder. E mesmo assim, muitas vezes, não arde todo. Nos homens costuma ficar parte da caixa toráxica. Nas mulheres são as ancas, segundo ele, que não ardem completamente. Falou também dos que não podem ser cremados: os doidos e as mulheres grávidas, por exemplo. Esses são atirados inteiros para o rio. Ouvia as suas explicações por alto, demasiado absorvido por um tumúlto de sentimentos e sensações estranhíssimos. Mas lembro-me de ter pensado que queimar os corpos mortos é a atitude mais inteligente. E mais bela também. Agrada-me a ideia de me desvanecer no ar. &lt;br /&gt;Quando já me vinha embora, o homem explicou que aquela casa era chamada Casa da Morte porque aquelas pessoas estavam à espera de desaparecer. Ou porque eram demasiado velhos e ninguém queria saber deles, ou porque tinham doenças terminais. E pediam dinheiro para comprar lenha (para se queimarem, literalmente). A madeira custa caro, ao que parece, pois tem que vir de longe, e aquelas pessoas não têm dinheiro para os tais 200 quilos de lenha que são necessários. Abeirei-me de uma senhora envolta num longo xaile. Não lhe via o rosto, mas era de uma magreza extrema. Estava sentada no chão, de encontro a uma parede escura, húmida. Ela sentiu-me e virou-se, mas sem mostrar a cara e, quando lhe estendi uma nota, ela embrulhou a mão no xaile para a receber. Para que a sua pele não tocasse a minha. Percebi que era isso, mas não porque o fazia. Nunca vou esquecer aquele gesto. Levei dias a pensar naquele momento, naquela silhueta franzina, a tapar a mão para que não houvesse contacto físico. Porque era uma intocável? Para não me pegar a sua doença? Porque não era digna de me tocar ou porque não queria sujar a sua mão com o meu dinheiro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ2HRCb-R8I/AAAAAAAAAiE/FSrnb66filI/s1600-h/Benares014.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 250px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ2HRCb-R8I/AAAAAAAAAiE/FSrnb66filI/s400/Benares014.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304544662894036930" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São muitas as histórias de Benares e não sei se me apetece contá-las todas. Estive lá três ou quatro dias, mas foram dos mais intensos da minha vida. Num certo sentido, ainda estou em Benares. &lt;br /&gt;Benares é, evidentemente, um lugar de desgosto. Mas – por mais escandaloso que esta afirmação possa soar – de um desgosto feliz (para não dizer alegre). Porque é a cidade da morte e logo da libertação. Morrer para um hindu é uma oportunidade para se redimir, para fazer melhor da próxima vez. Só espero que estejam certos, também eu tenho razões de sobra para cá voltar outra vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ2HQqFv5FI/AAAAAAAAAh0/po3l02zdT7g/s1600-h/Benares.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 257px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ2HQqFv5FI/AAAAAAAAAh0/po3l02zdT7g/s400/Benares.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304544656358368338" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O escritor francês Olivier Rolin afirma num livro, com toda a razão, que «a verdade é que há lugares, paisagens, nomes que se ajustam ao desgosto e outros à alegria». Benares é, evidentemente, um lugar de desgosto. Mas – por mais escandaloso que esta afirmação possa soar – de um desgosto feliz (para não dizer alegre). Porque é a cidade da morte e logo da libertação. Morrer para um hindu é uma oportunidade para se redimir, para fazer melhor da próxima vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma coisa é certa: em poucos lugares do mundo, nos sentimos tão perto do além.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mesmo livro, Rolin fala das «relações secretas entre escrever e viajar», alegando que «ambas as actividades atestam uma espécie de instabilidade essencial». Nada mais certo: escrevemos para procurar o nosso lugar no mundo e viajamos pela mesma razão. Enfim, alguns de nós, pois há vários tipos de viajantes. Há os que partem para regressar «diferentes», os que partem com a esperança de não mais regressar e os que não chegam a partir, mas que estão na mesma em viagem. E há uma quarta categoria, algo esquizofrénica – e que é a minha, confesso - que reúne todas estas numa só. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(Texto escrito no ano 2000)&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1590904165947063584-1596067279975986870?l=parentisis.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default/1596067279975986870'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default/1596067279975986870'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://parentisis.blogspot.com/2009/02/regresso-india_17.html' title='Regresso à Índia'/><author><name>Jorge Lima Alves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10491056008163359117</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/ScSqWt2Ha1I/AAAAAAAABCo/Il6SwbfoQcM/S220/L1040628.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZxbTw97gMI/AAAAAAAAAcM/wFHzRThrcC0/s72-c/AgraTintin.JPG' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1590904165947063584.post-2528454411867738919</id><published>2009-02-17T09:25:00.000-08:00</published><updated>2009-02-17T09:27:51.148-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Nova Iorque'/><title type='text'>Duas semanas em Nova Iorque</title><content type='html'>&lt;strong&gt;1.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual é a primeira coisa que fiz quando cheguei a Nova Iorque? Foi comprar a «Time Out», claro, para saber tudo o que havia para ver e ouvir na cidade (é verdade, o bom velho Village Voice, foi completamente ultrapassado como roteiro cultural da Grande Maçã). Tal como já acontece há muitos anos em Londres, a «Time Out – New York» tornou-se na «bíblia» semanal indispensável para saber tudo o que vai acontecer nos próximos dias. Assim, num belo dia 2 de Abril, este vosso criado, de passagem por Nova Iorque, apercebeu-se, de repente, que tanto podia ir ouvir Os Godspeed You! Black Emperor no Bower Ballroom, como o Grant-Lee Phillips no Joe’s Pub, os Heat Brothers no Village Vanguard ou ainda ir ao Harlem assistir à mítica «Amateur Night at The Apollo». Isto para já não falar de dezenas de outros concertos em locais tão lendários e apelativos como a Knitting Factory (que nessa noite prometia quatro projectos diferentes sobre os quais não tínhamos grandes referências), o Blue Note (onde actuava Albita) ou o Iridium (que propunha um Tributo a Lionel Hampton com o Quinteto de Terry Gibbs). No meio de tanta fartura, optámos por ir ouvir John Zorn com uns Masada electrificados no também já mitificado Tonic.&lt;br /&gt;Caso não saibam, «the most important new club for the new music in the world», fica no coração do Lower East Side, um bairro com má fama de Manhattan que se está a transformar num dos locais mais «in» da cidade. A sala, mal se dá por ela, não tem nenhum letreiro à porta e a fachada parece a de um edifício abandonado. Lá dentro, o espaço é relativamente pequeno (mesmo assim maior que o Hot Clube) e a primeira coisa que nos saltou à vista foi a confusão, em cima do palco, atafulhado de tralha. Em pouco mais de dez metros quadrados, estavam um piano de meia-cauda, um outro eléctrico, um órgão Hammond, um sintetizador, uma bateria, um impressionante aparato percussivo, aparelhagens de todo o gênero, colunas, bancos, cabos, fichas... enfim, dir-se-ia não haver lugar para os músicos, tanto mais que se sabia que iam ser sete, os protagonistas do concerto: Zorn (sax), Marc Ribot (guitarra), Cyro Baptista (percussões), Kenny Wollensen (bateria), Jamie Saft (teclados), John Medeski (órgão) e Trevor Dunn (baixo). Um septeto que se revela uma explosiva fábrica de sons, quase uma máquina de guerra. Uma máquina inofensiva, no entanto, que em vez de bombas e balas produz surpresas sonoras e um prazer crescente, à medida que a música nos vai envolvendo, ou que nos vamos envolvendo nela.&lt;br /&gt;Mas, para já, voltemos à sala, que mais parece uma grande garagem ou um pequeno armazém, onde alguém colocou um estrado à guisa de palco e umas quarenta cadeiras, o mais vulgares possível. Só arranja lugar sentado, portanto, quem chega primeiro. Mas a maioria do público está pouco preocupada com isso, aparentemente mais interessada pelo bar que está no extremo oposto do palco. O bar, esse sim, é um senhor bar, um verdadeiro regalo, bem apetrechado e com um balcão espaçoso. Nova Iorque é pródiga nestas incongruências, nestes pormenores insólitos e a música de John Zorn idem, idem, aspas, aspas. Mal entraram em palco (afinal cabiam lá todos), os músicos lançaram-se numa desbunda sónica caótica, com frequentes explosões da bateria, acompanhada por um baixista que parecia ter enlouquecido. A um sinal do líder, porém, o órgão pôs ordem no fugaz estado de sítio, lançando uma linha melódica que julgámos reconhecer, mas logo se transformou noutra coisa e noutra ainda. Tanto o ritmo como a melodia estão constantemente a mudar. Em permanente mutação, a música desenrola-se como uma serpente enfeitiçada por si própria.&lt;br /&gt;Sentado num banco mais alto dos que os outros, Zorn dirige tudo com mão de mestre (e visível prazer). Nada se passa no palco sem o seu consentimento, sem instruções suas. Na realidade, está muito mais preocupado em «puxar» pelos seus companheiros do que em fazer ouvir o seu saxofone. Como Miles Davis, no final da sua vida, quase não intervém, aliás, e mesmo quando o faz, continua a dar ordens aos outros com uma das mãos. Observar a agitação das suas mãos - os seus códigos mudos - é metade do espectáculo. Mas a música é magnífica, até porque todos eles são instrumentistas extraordinários e improvisadores insaciáveis.&lt;br /&gt;Cada tema prolonga-se assim por cerca de vinte minutos a meia-hora e, no entanto, no papel, a música escrita não ocupa mais do que meia-página A-4. Ninguém sabe quando será solicitado para tocar e isso faz parte do jogo (e do gozo). Zorn põe o baterista a dialogar com o percussionista, o guitarrista a afrontar o organista, o baixista a namorar o pianista e por aí fora. Atiça-os uns contra os outros, aproxima-os, separa-os, isola-os, reúne-os a todos num uníssono apoteótico, que afinal se revela não ser uma coda, mas apenas um clímax mais. Quando alguém faz alguma coisa nova ou surpreendente, ou extraordinária, Zorn aponta-o como um exemplo aos outros, com um largo sorriso. De resto, sorri o tempo todo (e nós também).&lt;br /&gt;Depois de dois temas mais lúdicos, com momentos muito intensos e partes mais relaxantes, por vezes a roçar o burlesco, o «maestro» lança uma nova composição com um claro fôlego épico, melodramático. O uníssono inicial tem algo de bélico, quase insuportável. Parece ser uma clara alusão à guerra em curso no Iraque, tanto mais que a bateria ostenta um auto-colante anti-Bush. Será o tema mais curto de todo o set, mas também um dos mais aplaudidos. &lt;br /&gt;Quando saímos para a rua, ainda vimos a levitar, com a certeza absoluta de ter escutado uma das bandas mais excitantes do momento. E vem-nos à memória uma frase que lemos em tempos a propósito de um outro concerto de John Zorn neste mesmo espaço: «Nights like this are what New York is all about».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;2.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando se começa a falar de Nova Iorque, a dificuldade está em parar. A cidade mais fotogénica do mundo é também a mais generosa para o visitante ávido de novidades. Há ali tanto para ver e fazer que, depois, não se consegue relatar tudo. Nem por sombras. E muito menos numa revista dedicada ao jazz. No entanto, Nova Iorque é a capital mundial do jazz e quem gosta de música improvisada, ou simplesmente de boa música, corre mesmo o risco de sofrer um curto-circuito mental, por excesso de oferta e informação. Por exemplo: só a secção de jazz da Tower Records na Broadway é maior que o departamento de discos de qualquer uma das nossas FNAC. Foi, pelo menos essa a impressão com que fiquei. Isto para já não falar das muitas dezenas de lojas, pequenas, médias e grandes, com discos novos e em segunda mão, onde o coleccionador e o amante de raridades se podem perder (nos vários sentidos da palavra) à vontade. Enfim, não estou a dar novidade nenhuma a ninguém afirmando que existem em Nova Iorque cerca de 100 espaços diferentes – entre teatros, clubes e bares - onde é possível ouvir alguma forma de jazz, todas as noites.&lt;br /&gt;De resto, a própria expressão Big Apple, aplicada a Manhattan, parece ter tido origem nos meios do jazz. Com efeito, há quem defenda que, nos primórdios, os músicos empregavam a palavra «maçã» para designar cidades onde tinham tocado pela primeira vez, pois era como se, devido ao nervoso miudinho, ficassem com um nó na garganta. E como Nova Iorque é o fruto mais apetecido no caminho do sucesso, ficou a Grande Maçã. Há outras teorias para a expressão, mas esta é sem dúvida a que mais nos agrada e nos parece mais plausível.&lt;br /&gt;Claro que a cidade de Martin Scorcese e Woody Allen, não se resume ao jazz, sendo que - tanto como a Estátua da Liberdade, o Empire State Building ou o Edifício da ONU - se impõe uma visita ao Moma, Museum of Modern Art. Como se sabe, o Museu encontra-se fechado para obras, sabendo-se que vai renascer - num projecto do arquitecto Toshio Taniguchi - em 2005. Entretanto, parte do importantíssimo acervo do Museu está, provisoriamente instalada em Queens, onde no mês de Abril se podia ver uma magnífica exposição dedicada a Matisse e Picasso, pondo em relevo os paralelos entre as duas obras aparentemente tão diferentes.&lt;br /&gt;Mais uma vez, exposições é o que não falta em Nova Iorque. Sem querer maçar ninguém, não resisto a falar, mesmo por alto, de uma exposição do fotógrafo Steven Klein que estava patente numa galeria da Wooster Street, por razões que já vão entender. O homem vem do mundo da moda e é conhecido pelo arrojo das suas ideias, mas nada nos preparou para o choque desta exposição centrada na figura de Madonna – a mediática diva pop - e montada com meios inusitados. Os diapositivos resultantes de uma sessão fotográfica que durou, ao que parece mais de oito horas, foram ampliados para tamanhos gigantes e encontravam-se dentro de grandes caixas metálicas, negras. Uma tecnologia designada «x-static pro=cess», permite que as fotos tenham pequenos pormenores animados: uma cortina agitada por uma leve brisa ou as chamas de uma lareira, por exemplo. O efeito é tremendo, tanto mais que os «palcos» que protegem as fotos têm colunas de som por onde sai a voz da própria Madonna, recitando, em «loop», excertos do Livro das Revelações. Em todas as fotos, a cantora assume poses de contorcionista, num cenário de um barroquismo extremado. Espantoso era igualmente era o imponente catálogo – vendido a um preço proibitivo – com mais de 200 fotos impressas num tecido que lembra papel vegetal, onde Madonna parece uma andróide sobrevivente do Blade Runner.&lt;br /&gt;Para regressar ao tema da música afro-americana, não posso deixar de falar das missas negras no Harlem que, infelizmente, muitos visitantes portugueses esquecem, talvez por pensarem que frequentar o bairro ainda é perigoso. Não é. Desde que o carismático Giuliani foi Presidente da Câmara, NY tornou-se numa das cidades mais seguras do mundo. Nós ficámos, aliás, hospedados no Harlem e visitámos todos os outros bairros da megapolis, Brooklyn, Queens e Bronx, nomeadamente, sem o menor sobressalto.&lt;br /&gt;Ir, ao domingo de manhã, a uma missa no Harlem devia ser obrigatório para todos os que gostam minimamente de jazz. Há dezenas de igrejas, mas a mais famosa de todas é, provavelmente, The Abyssian Baptist Church, fundada em 1808. O actual templo só existe, contudo, desde 1923. Ao domingo propõe dois serviços: um às nove e outro às onze horas. O primeiro é preferível, pois o das onze horas é frequentado por mais turistas do que crentes. Do mesmo modo, há a alternativa de assistir à missa numa igreja mais pequena e menos famosa. O coro pode ter menos elementos, o cenário não ser tão grandioso, mas o espírito é o mesmo e a experiência pode revelar-se ainda mais intensa, por razões óbvias. Pela nossa parte, no segundo domingo, optámos pela Second Cannan Baptist Church, na Lennox Avenue, onde a cerimónia começa às 11 e se prolonga até depois da uma da tarde.&lt;br /&gt;As missas baptistas têm pouco a ver com as nossas. Não são apenas um pretexto para rezar e lavar os pecados, mas também para conviver, trocar impressões, informar-se acerca dos mais diversos assuntos e até para dançar. Para além do indispensável Coro feminino e do órgão, alguns templos também cantores solistas e instrumentistas vários para dar mais colorido e força aos vários momentos musicais, que vão alternando com as intervenções, por vezes muito acaloradas, dos pastores e seus acólitos. Em todos os casos, os visitantes ocasionais são convidados a participar nos cânticos (há livros à disposição dos neófitos) e a bater palmas cadenciadas, como se fosse possível resistir a fazê-lo.&lt;br /&gt;A própria assistência é um deslumbramento para os olhos. Toda a gente vem com a sua melhor roupinha, sobretudo as senhoras que rivalizam em elegância e imaginação. Só as mais jovens não trazem chapéu, e alguns são verdadeiramente deslumbrantes. Mas a jóia mais bonita e vulgarizada entre o público não custa um tostão: são os sorrisos de felicidade dos fiéis, genuinamente contentes por estarem em comunidade, unidos por um ideal comum. Quão longe se está ali do tédio e excessivo formalismo das nossas missas, onde – dir-se-ia – Jesus é enterrado todos os domingos.  No Harlem, pelo contrário, ele renasce de cada vez e é uma festa vivida e festejada por todos.&lt;br /&gt;Os Cânticos são belíssimos, as vozes profundas, a musicalidade contagiante. E o organista (ou pianista) não pede licença a ninguém para swingar, quando é caso para isso. É impossível uma pessoa – mesmo a mais cínica e incrédula – não sair de lá com a alma purificada, bem disposta para o resto do dia. O jazz, todo o jazz - pelo menos aquele que não esqueceu de onde vem - está ainda hoje impregnado desta espiritualidade, que se pode respirar todos os domingos no Harlem. Se não acreditam, perguntem a qualquer jovem seguidor de John Coltrane ou Albert Ayler. A música não passa de uma estrada que vai dar ao céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;3.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se é difícil parar de falar de Nova Iorque, como já afirmei, também não é fácil dizer qual é o principal sentimento que a cidade nos deixa, no regresso a casa. Toda a gente sabe que é uma cidade de extremos e paradoxos. E que é impossível ficar-lhe indiferente. Como já alguém disse, com os seus quase nove milhões de habitantes (dos quais cerca de 30% nasceram no estrangeiro), «Nova Iorque é talvez demasiado pequena para ser um país, mas também é grande demais para ser uma simples cidade». &lt;br /&gt;Gigante em altura, a megapolis é-o também pelo espírito que aqui reina. Nenhum nova-iorquino duvida que vive no próprio coração do mundo, na cidade mais importante do planeta. Mas não esqueçamos os seus aspectos negativos. Pela sua própria desmesura é um local onde as pessoas se sentem quase permanentemente sob pressão, por vezes ao ponto de se tornarem agressivas (não mais do que em Lisboa, no entanto). Como me disse um nova-iorquino que procurava ultrapassar-me numa bicha para apanhar o metro: «estamos em Nova Iorque não precisamos de ser bem-educados». Disse-mo com um sorriso, como quem pede desculpa, mas havia alguma verdade nas suas palavras: «time is money» e a pressa, aqui, justifica alguns atropelos.&lt;br /&gt;A cidade é tão grande e tão diversa que ninguém pode pretender conhecê-la verdadeiramente, nem que fique um mês ou dois de visita. Provavelmente, nem que se viva lá dois ou três anos. É outro dos paradoxos de que falávamos: a cidade mais fotografada e filmada do mundo esconde milhares de segredos arquitectónicos, de lojas loucas, de pequenos jardins surpreendentes. Por outro lado, é a cidade de todas as culturas e etnias. Chineses, italianos, russos, mexicanos, paquistaneses, árabes, africanos, gregos, portugueses... há restaurantes para todos os gostos e não há nada, absolutamente nada, que não se consiga arranjar algures, desde a primeira edição do primeiro álbum de John Coltrane à primeira edição dos Lusíadas (como se sabe, não existe propriamente uma primeira edição dos Lusíadas, mas sim várias, cada uma com algumas variantes, porque na altura os livros eram feitos um a um e não em grandes tiragens como hoje).&lt;br /&gt;Resumindo: uma visita a Nova Iorque é indispensável não somente para quem gosta de jazz (é tal e qual como para um árabe ir a Meca), mas também para quem queira perceber como é que aquela cultura pôde tornar-se dominante em termos mundiais, ao ponto de se ter tornado uma parte importante da nossa cultura também, quer tenhamos consciência disso ou não. Mas cuidado: como disse Paul Morand, o mais cosmopolita e divertido dos escritores franceses, em Nova Iorque «a bagagem mais pesada é uma carteira vazia».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(Texto escrito em 2003)&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1590904165947063584-2528454411867738919?l=parentisis.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default/2528454411867738919'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default/2528454411867738919'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://parentisis.blogspot.com/2009/02/duas-semanas-em-nova-iorque.html' title='Duas semanas em Nova Iorque'/><author><name>Jorge Lima Alves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10491056008163359117</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/ScSqWt2Ha1I/AAAAAAAABCo/Il6SwbfoQcM/S220/L1040628.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1590904165947063584.post-1019582643664641475</id><published>2009-02-17T09:08:00.000-08:00</published><updated>2009-03-04T09:38:21.895-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cabo Verde (S. Nicolau)'/><title type='text'>Uma Ilha no Céu</title><content type='html'>&lt;em&gt;«Let me remember things&lt;br /&gt;That I don’t know»&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;John Fogerty&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando, na Ilha de S. Nicolau, um rapaz se quer declarar, apanha uma pedra do chão para a dar à rapariga que traz debaixo de olho. Se ela a guardar no bolso, quer dizer que aceita o namoro. Nessa altura, cabe ao rapaz escrever-lhe uma carta de amor. Segue-se uma troca de prendas. Se a moça é virgem, oferece ao rapaz uma flor ainda em botão. Se já não for, dar-lhe-á uma flor aberta.&lt;br /&gt;Manda a tradição que o namoro dure, pelo menos, um ano. Quando é marcado o casamento, tem de se escolher um Mordomo. Alguém em quem as duas famílias depositem a sua confiança, pois é ele que vai tratar dos pormenores da boda. Importante é também a escolha da «Bokera», uma amiga da família da noiva que terá por missão preparar o quarto nupcial, geralmente decorado com estrelas de papel brilhante.&lt;br /&gt;Nos casamentos mais tradicionalistas, o lençol da cama deve ser exibido no dia seguinte, para testemunhar a virgindade da noiva. Se em vez disso o noivo aparecer com uma perna das calças arregaçada até ao joelho quer dizer que a noiva não era virgem. Nesse caso, pode devolver a rapariga aos seus pais.&lt;br /&gt;Em São Nicolau, uma das dez ilhas do arquipélago de Cabo Verde, a tradição ainda é o que era. Por isso, quando nasce uma criança, os amigos da família juntam-se todos lá em casa na noite do sexto para o sétimo dia de vida do bébé, a fim de olharem por ele enquanto bebem uns copos. Nessa altura, é de bom tom falar alto e fazer muito barulho, para afastar os maus espíritos. Para este costume, foi encontrada uma causa: é que antigamente morriam muitas crianças no sétimo dia de vida, devido a uma infecção tetânica apanhada durante o parto, que só se revelava ao fim de seis dias de incubação.&lt;br /&gt;Nascimento, casamento... morte. Em São Nicolau, uma das dez ilhas do arquipélago de Cabo Verde, a natureza impõe a sua lei. Aqui ainda não chegaram os cartões multibanco, os centros comerciais, o «stress». Ninguém tem pressa, não há o perigo de ser assaltado e só existem prazeres simples: tomar banho na praia, uma boa conversa à sombra de uma árvore, um passeio pela montanha...&lt;br /&gt;Uma coisa é certa: Cabo Verde entrou definitivamente na rota dos destinos turisticos internacionais. Hoje em dia, qualquer agência de viagens propõe pacotes com viagem e hotel a preços acessíveis, quer para uma única ilha, quer para um pequeno périplo por várias ilhas. Também nas livrarias já se encontram guias turísticos sobre o arquipélago em inglês, francês ou alemão. Em português é que não. Como de costume.&lt;br /&gt;Mas se é verdade que o afluxo turístico está a crescer a olhos vistos, não é menos verdade que os destinos privilegiados são sempre os mesmos: as ilhas do Sal e da Boavista, pelas suas praias magníficas, São Vicente, por causa do cosmopolitismo da cidade do Mindelo e da sua proximidade com a belíssima ilha de Santo Antão, Santiago porque é onde está a capital, mas também o célebre Tarrafal e, finalmente, a Ilha do Fogo, celebrizada pelo cinema e pela relativamente recente erupção do vulcão. Não obstante, e se excluirmos Santa Luzia, que está desabitada, as restantes três ilhas – Brava, Maio e São Nicolau – também valem a deslocação. Sobretudo esta última, tão bela quanto ignorada.&lt;br /&gt;O próprio facto de permanecer à margem dos circuitos turísticos dominantes é um dos seus principais atractivos. São Nicolau permanece um pequeno paraíso de equilibrio ambiental e ecológico. Há muito poucos automóveis e as pessoas que à primeira abordagem se mostram reservadas e quase desconfiadas, depressa se revelam de uma simpatia e hospitalidade surpreendentes.&lt;br /&gt;Com 343 km2 de superfície e uma população de apenas 14 mil habitantes, a ilha é uma pequena pérola de sossego e harmonia, onde as actividades mais importantes são naturalmente a pesca e a agricultura. São Nicolau é a mais rural de todas as ilhas do arquipélago, e uma das mais verdes. Embora muito pequena, a ilha tem uma diversidade incrível de cenários. Pode, por exemplo, estar um calor abrasador no Tarrafal, principal porto da ilha, e um frio de rachar a apenas vinte ou trinta quilómetros dali, no enovoado cimo do Monte Gordo, a mil e trezentos metros de altitude. Diz-se que quando está o céu limpo, o que é muito raro, do cimo do vulcão se podem avistar as outras nove ilhas do arquipélago. Mas para apreciar uma vista magnífica nem é preciso subir tão alto. Há vários locais na montanha em que se pode apreciar em todo o seu esplendor o imenso vale que se estende até ao mar, salpicado de pequenas povoações onde se destaca a vila da Ribeira Brava, capital da ilha.&lt;br /&gt;Ribeira Brava desempenhou, durante muitos anos, o papel de verdadeira capital intelectual de Cabo Verde, graças à abertura de um seminário-liceu em 1866. Foi nesse primeiro estabelecimento de ensino secundário, que chegou a ser considerado como um dos melhores da África ocidental, que estudou Baltazar Lopes, primeiro romancista cabo-verdiano, autor do célebre «Chiquinho». Para além dele, frequentaram aquela escola outros intelectuais cabo-verdianos como António Aurélio Gonçalves, João Lopes e Juvenal Cabral, professor e pai de Amílcar Cabral.&lt;br /&gt;Outra figura ilustre da vila foi o Dr. Júlio José Dias, diplomado pela Faculdade de Medicina de Paris que regressou ao seu país para se dedicar a cuidar dos mais desfavorecidos e que foi ao ponto de doar a sua casa para aí se estabelecer o Seminário, indo residir para outra casa mais modesta nas montanhas. Não admira que o seu busto hoje domine o largo principal.&lt;br /&gt;O seminário foi encerrado em 1931 pelo regime de Salazar e transformado num presídio para deportados políticos (o próprio Mário Soares terá passado por lá). Agora, o edifício encontra-se ao abandono, embora se diga que no futuro será transformado em museu.&lt;br /&gt;A segunda vila da ilha é o Tarrafal, um porto de pesca situado a cerca de meia-hora da Ribeira Brava, onde ainda está em actividade uma fábrica de atum, que se pode visitar. É também muito engraçado esperar a chegada dos barcos de pesca carregados de peixe, de que uma parte é vendida logo ali a retalho por preços que podemos considerar ridículos. Tirando isso, a vila tem pouco para ver, mas mesmo ao lado estão as melhores praias de São Nicolau (nomeadamente Praia da Luz, Praia do Francês), com a curiosidade de aí a areia ser preta e não branca.&lt;br /&gt;Um pouco mais longe, a cerca de seis quilómetros do Tarrafal, encontra-se a Baía Debaixo da Rocha, que alguns consideram a praia mais bonita de Cabo Verde, com areia branca e água absolutamente transparente. De difícil acesso a pé ou de carro, a melhor maneira para lá ir é pedindo a um pescador para lá nos levar de barco.&lt;br /&gt;Entre os outros locais que não podem deixar de ser visitados, conta-se o Juncalinho. A estrada que lá conduz, à beira de uns penhascos de meter medo, tem uma vista fantástica sobre o mar. A pequena aldeia, muito pobre, apetece meter no bolso e trazer para casa. Todo o lugar é muito selvagem e há uma piscina natural, formada por rochas, que é fabulosa para tomar banho. As pessoas chamam-lhe Lagoa.&lt;br /&gt;A Ribeira da Prata também vale bem a deslocação, mais que não seja para ver a famosa Rocha-Escrevida. Os desenhos na pedra, durante muitos anos passaram por pinturas rupestres – o que atestaria que a ilha tinha sido habitada antes da chegada dos portugueses – mas recentemente chegou-se à conclusão que não passam afinal de um fenómeno natural.&lt;br /&gt;No entanto, talvez o local mais espectacular de São Nicolau seja a Fajão de Baixo e os seus arredores, a zona mais verde da ilha, onde estão concentradas algumas das quintas mais produtivas de todo o arquipélago (bananas, papaias, cana do açucar, café. As duas principais atracções da Fajã são a «Galeria» e os dragoeiros. A «Galeria» foi escavada nas montanhas por engenheiros franceses a fim de trazerem da montanha, ao longo de dois quilómetros, água para as muitas quintas da região. Os dragoeiros são árvores que chegam a viver mil anos e a atingir uma altura de dez metros. Já foram comparados – nomeadamente por Jean-Yves Loude, autor de «Cabo Verde - Notas Atlânticas» –, a gigantescos castiçais «carregando na extremidade dos braços folhas pontiagudas, cerradas e organizadas em ramos de estrelas». Há quem lhes chame «árvores-fósseis».&lt;br /&gt;Por último, talvez valha a pena lembrar que São Nicolau é uma das ilhas mais musicais de Cabo Verde. Aqui ainda se improvisam «tocatinas», bailaricos ao som do acordeão diatónico (gaita) e do ferrinho (uma barra de ferro que se raspa com uma vulgar faca de cozinha) ou do cavaquinho. Aqui ainda se dançam valsas, mazurkas, contradanças e outros ritmos que já praticamente desaparecem noutras regiões. Durante a semana não, que é altura de trabalhar, mas ao fim de semana a música explode, um pouco por todo o lado, e a festa dura geralmente até de madrugada. Festa rija, bem regada com grogue (aguardente de cana).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1590904165947063584-1019582643664641475?l=parentisis.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default/1019582643664641475'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default/1019582643664641475'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://parentisis.blogspot.com/2009/02/uma-ilha-no-ceu.html' title='Uma Ilha no Céu'/><author><name>Jorge Lima Alves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10491056008163359117</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/ScSqWt2Ha1I/AAAAAAAABCo/Il6SwbfoQcM/S220/L1040628.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1590904165947063584.post-5807330442837041745</id><published>2009-02-17T08:36:00.000-08:00</published><updated>2012-01-16T14:40:22.656-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='China'/><title type='text'>Caderno chinês</title><content type='html'>&lt;em&gt;Durante a viagem à China, que visitei em 2001, mantive uma espécie de diário. Devo dizer, no entanto, que na altura estava mais preocupado em fotografar do que em escrever. E mais preocupado ainda em ver e viver do que em fotografar. Digamos que em viagem escrever pode ser a última das nossas preocupações.&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;26 de Abril&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre quis vir à China. Há muitos anos que procurava esta sensação de estar do outro lado do mundo, no meio de estranhos, incapaz de os compreender e de me fazer entender por eles. Queria muito isto: esta estranheza, este «deslocamento». Preciso de me pôr periodicamente à prova e é em viagem que me sinto mais perto das minhas insuficiências. No fundo, vim à China para ir o mais longe possível dentro de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viajo para ser surpreendido e... surpreender-me!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 27&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Xangai é uma cidade impecável, que faria o Presidente da Câmara de Lisboa roer-se de inveja, se tivesse vergonha na cara. Não se vê lixo, nem graffitis nas paredes, nem carros em cima do passeio. Os jardins estão bem tratados, cheios de flores (plantadas com precisão geométrica e muito bom gosto). A relva está sempre aparada, as árvores podadas (muitas vezes carregadas de pássaros). Curiosamente, nesta zona da cidade, os troncos têm cordas à volta e estacas a prendê-los. Árvores prisioneiras da beleza da cidade? São tão preciosas que não querem que fujam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca esquecerei a história do chinês que nos quis indicar o caminho no Metropolitano. Afinal, eu é que tive que lhe dizer onde se apanhava a linha 2 (tinha observado cuidadosamente o plano e sabia perfeitamente para onde tinha que me dirigir). Por fim, ele meteu-se sem querer numa saída, a máquina comeu-lhe o bilhete e o que lhe valeu foi o meu bilhete, para voltar a entrar. Quando chegámos ao nosso destino, indiquei-lhe por gestos que se devia colar a mim e saímos muito juntinhos pela porta giratória. O homem não sabia como é que havia de me agradecer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É (também) para isto que viajamos (e escrevemos): para coleccionar «souvenirs», materiais e imateriais. No meu caso, viajo também para coleccionar apontamentos. Sim, pensando bem, no fundo talvez seja a minha vocação: coleccionador de apontamentos. Coleccionador de apontamentos e também, ou sobretudo, de bons momentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apontamnentos. Aponta momentos = fotografia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As visitas ao Xangai Art Museum e ao Xangai Museum revelaram-se interessantíssimas. A arte chinesa vai, como poucas, directa ao essencial. Os desenhos e pinturas são como flechas disparadas ao coração da natureza. Seja uma flor, uma floresta, um rio ou uma montanha, o que os artistas procuram captar é o que Deus criou (digamos assim) e o que sentem perante a perfeição do que vêem. É pelo menos assim que eu o vejo.&lt;br /&gt;Depois, começou a chover. Jantar no Gongdelin, restaurante vegetariano. Como noutros locais, a cerveja que me servem é excelente e tem mais de meio litro. 635 mililitros para ser exacto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto estavamos no Xangai Friendship Store (o Lonely Planet assegurava que merecia uma visita e é verdade), a loja recebeu a visita do Presidente da Malásia, acompanhado pela mulher, as filhas e uma longa comitiva que incluía um general da Força Aérea e um almirante impecavelmente vestido de branco, cheio de galões dourados e um peito todo medalhado. Pareciam todos saídos de uma opereta, a começar pelos polícias chineses, muito jovens, com aquelas cinturinhas de abelha que me divertem tanto. O Xangai Friendship Store é um gigantesco brique-à-braque de cinco andares onde se podem encontrar desde antiguidades caríssimas (e muito belas, por vezes) a pexibeque de feira sem qualidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cansaço faz parte da «bagagem» de qualquer viagem. Na China, mergulhado num aquário de sonhos, quase sempre cheio de sono, respiro imagens por todos os poros. Por isso, procuro fotografar quase tudo. Não, não é verdade: há muitas fotos que não tiro. Faço por esquecer muitas fotos. Umas por respeito pelas pessoas, outras por perguiça, outras ainda porque prefiro viver certas coisas a fotografá-las. As fotos mais conseguidas são as que faço só com os olhos (e o coração). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“I believe in God, but the devil got power too”. Quem o afirmou foi um músico de que esqueci o nome, numa entrevista que li no avião quando vinha para cá. Os templos chineses estão cheios de diabos, de deuses maus como às cobras. Se não são maus, pelo menos parecem. Certas estátuas têm carantonhas de fazer fugir até as feras mais ferozes. No entanto, os templos não têm aquela carga quase funerária das igrejas ocidentais. As pessoas vêm aqui para conversar, jogar às cartas, ou mesmo dormir uma sesta. São lugares de convívio e de lazer, tanto como de recolhimento e oração. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As aguarelas chinesas são uma verdadeira lição de simplicidade e rigor. Tanto com tão pouco! Verdadeiros hai-kus visuais. Os artistas chineses não receiam ser ingénuos ou infantis. Adoro os seus peixes, pássaros, flores, montanhas, árvores e rios. Patos numa noite escura. Mulheres na penumbra. Florestas nocturnas. Rios serpenteantes. Se somente eu pudesse fotografar assim, com esta ligeireza e “pontaria”! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que mais diverte o turista e o que mais me comove a mim, são os bailes espontâneos na rua. Há-os por todo o lado. Qualquer local serve, desde que haja espaço. Alguém põe uma música a tocar e logo aparecem vários casais para dançar uns «slows» românticos, qualquer que seja a hora do dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espanta-me a indiferença deles à nossa presença. Salvo raras excepções, não despertamos a mínima curiosidade. Mesmo nos bairros mais remotos, mais pobres, onde nunca devem aparecer turistas. Andamos pelas ruas, no meio das pessoas e não nos ligam, nem quando paramos para lhes tirar fotos. Noutros países, mesmo asiáticos, sorririam para a câmara, ou esbracejariam em sinal de protesto. Aqui não. Limitam-se a lançar-nos uns olhos opacos, que não sabemos interpretar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 28&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estação de comboios de Xangai é um assombro. Cá fora, uma multidão caótica. Lá dentro, outra. O edifício é enorme e moderno. A bagagem tem de passar toda pelos Raios X como no aeroporto. Cada cais tem a sua própria sala de espera. Há imensas e cada uma dela faz umas dez vezes a única sala de espera de Santa Apolónia. O comboio para Souzhou tem dois andares e à porta de cada carruagem está uma hospedeira fardada, jovem e bonita, para prestar esclarecimentos às pessoas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No comboio leio Nietzsche. Excertos que se assumem como enigmas, onde o seu “sangue corre lentamente”, “como uma sombra”. Para Nietzsche, “um Deus que baixasse à terra só cometeria injustiças”. E “estar doente é uma forma de ressentimento”. Não admira que há quem o considere um percursor da psicanálise! Os seus aforismos brilham como diamantes. Os seus conceitos ainda hoje são revolucionários. Para ele, por exemplo, o budismo é uma “higiene”, não se devendo confundir com uma religião e, muito menos, com essa “coisa tão lamentável como é o cristianismo”. Outro pensamento fabuloso: “O remorso não me parece de modo nenhum digno de atenção”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No comboio, as hospedeiras estão sempre a propor algo: um jornal, um chá verde, uma salada de frutas... A revisora é a mais bem vestida de todas as funcionárias: com a sua farda irrepreensível, de gravata, parece uma chefia militar. A carruagem está cheia de uma nova burguesia emergente. Quase toda a gente tem telemóvel e está vestido à ocidental. Lá fora, uma paisagem sem história. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os miúdos mais pequenos andam aqui com calças e calções com os fundilhos sempre abertos, para poderem fazer as suas necessidades em qualquer altura, sem grande transtorno para os pais. A maior parte das vezes, portanto, andam de rabinho ao léu. É tão engraçado! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro espectáculo divertido em Souzhou é o das capas para a chuva que os ciclistas usam neste momento. Grandes capas de plástico concebidas para os proteger a eles e às suas precisosas bicicletas, lambretas e motas. Como as há de todas as cores – amarelas, vermelhas, verdes, azuis, roxas – e eles são aos milhares, a cidade ganha um colorido que noutras ocasiões não tem. Mais cómico ainda é a cena das lojas de casamentos que há por todo o lado. Muito pirosas, cheias de luzes fluorescentes e cores berrantes, com espelhos por todo o lado. Lá dentro estão os consultores e técnicos à espera dos noivos. Aparentemente, eles tratam de tudo: do vestido (têm vários na montra e mais em catálogo), da maquilhadora e, mais tarde (objectivo principal de toda esta operação, suponho) das fotografias e do vídeo da cerimónia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais uma citação de Nietzsche: “Quando procuro outra palavra para dizer música, encontro unicamente a palavra Veneza”. Ora Souzhou, ao que dizem, é a Veneza chinesa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 29&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pequeno-almoço num “Holiland”, cadeia especializada em bolos de casamento e aniversário que merece, pelo menos, um sorriso. Como quase todas as lojas na China tem montes de empregadas – miúdas fardadas de vermelho e branco e com uma coroa de raínha (feita em cartolina amarela) na cabeça. A loja é toda envidraçada, com dezenas de bolos fantásticos nas montras. Lá dentro é tudo em tons de rosa, verde bébé, roxo... Através dos vidros podemos ver os pasteleiros a trabalhar, vestidos de branco e com uma máscara a tapar-lhes boca e nariz. Parece uma equipa médica a operar um paciente. A música ambiente é ocidental, a higiene irrepreensível e os sorrisos permanentes. Como já tinha visto em Xangai, há na China um lado muito Disneylândia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já não havia “soft sleepers” para Xian, por isso optámos pelo “hard sleeper”. Só o nome assusta. Qualquer coisa como 22 ou 23 horas de comboio. Vai ser bonito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como diz Marguerite Duras, “é preciso ter confiança nesse desconhecido que somos”. Duras disse muito mais coisas justas, que tenho podido confirmar: “O medo quando se escreve é normal. Não se deve ter medo desse medo. Se esse medo não existir, não se escreve”. Diz também: “Não tem importância falhar um livro”. É curioso que ela diga isto. Eu gosto especialmente de livros falhados. E não apenas de livros, de resto. Os cantores que prefiro não sabem cantar, as mulheres que me encantam não são as mais bonitas. A perfeição não me interessa nada. Nem sei o que isso é. Como Robert Frank, o fotógrafo, “estou absolutamente interessado na imperfeição”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Primeiro de Maio&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O espectáculo do mundo, num show só para mim. Centenas de actores, milhares de figurantes: uma grande produção para os meus sentidos. Qual televisão, qual quê. Ao vivo é que é. A vida é uma grande filme! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, ao olhar pela janela do comboio, veio-me à memória uma frase de Alain Robbe-Grillet, que diz: “O viajante cria a paisagem do mesmo modo que a paisagem cria o viajante”. Não sei se «cria» é a palavra certa, mas há alguma verdade na afirmação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 3&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para além dos guerreiros de terracota, do Big Wild Goose Pagode, do Bampo Museum e do Huaging Hot Spring, Xian tem muito mais para dar e tem-me deliciado. E não falo apenas dos Waterworld e outros “entretainement centers”. Falo de pequenas coisas, objectos curiosos, caras estranhas, roupas excêntricas, lojas fascinantes. Não, a China não me está a desiludir nem um bocadinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O nosso hotel fica num bairro de prostitutas. Passam o dia à porta e, para se entreter, penteiam-se umas às outras, ou pintam as unhas. Ingénua, a Raquel diz-me: «Já reparaste na quantidade de cabeleireiras que há aqui?». &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Templo dos Oito Imortais, uma jovem chinesa abordou-me (o que aqui é raríssimo) para me perguntar: “Is english your mother language?”. Eu que falo tão mal inglês, na China podia dar aulas dessa disciplina. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta noite, fiz um sonho muito estranho. Passeava aqui na China quando, de repente, vejo uma manifestação religiosa. Uma espécie de procissão, com bandeiras e imagens, dezenas de sacerdotes e uma grande multidão. Misturo-me no desfile para tirar fotografias quando, de súbito, a polícia ataca os manifestantes e começa a matar gente. Não com pistolas ou espingardas, mas com sabres. Entro em pânico e procuro fugir. Quando estou mesmo a conseguir sair dali, ouço a voz de Deus que me faz uma pergunta crucial. Infelizmente não me consigo lembrar qual. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em algumas esquinas há velhotes com bandeiras vermelhas, para substituir os semáforos. Algumas lojas têm cantores e músicos à porta, para atrair as atenções. Noutras lojas são os próprios empregados que ficam à porta a bater palmas para chamar as pessoas. Outras ainda têm raparigas muito bem fardadas para que não deixemos de olhar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há poucas coisas de que gosto tanto em viagem como me perder pelo caminho. O viajante só tem a &lt;em&gt;ganhar&lt;/em&gt; em se &lt;em&gt;perder&lt;/em&gt;, parece-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num dos seus livros de viagem (Um Bárbaro na Ásia?), Michaux diz que uma civilização que não sabe fazer raparigas bonitas não é civilização não é nada. Segundo ele, as civilizações devem gerar raparigas bonitas e belos velhos. Concordo absolutamente. Na China há ambas as coisas com fartura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No comboio de Datong para Pequim encontrámos finalmente um senhor que sabia inglês. Mas era muito difícil comunicar com ele. Não percebia a maior parte das coisas que lhe dizíamos e nós também não o entendíamos. Tudo melhorou quando começámos a comunicar por escrito. O inglês dele era perfeito. Há dez anos que anda a estudar inglês, mas como não tem oportunidade de falar com ninguém a sua pronúncia é péssima. Uma adolescente que estava ao nosso lado, aproveitou o facto de ter ali um intérprete à disposição para se meter conversa. Meteu-se-lhe na cabeça ensinar-nos algumas palavras em chinês. Foi uma galhofa. A nossa pronúncia desencadeava uma gargalhada geral. Toda a carruagem ria com as nossas vãs tentativas de repetir as palavras que a rapariga nos ia lançando. A brincadeira durou horas e só parou quando começámos a pedir-lhe que repetisse também palavras em português. Aí eramos nós a rir. A rapariga percebeu que estava a fazer figura de parva e desistiu de nos chatear. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, quando passeávamos, vi vários gatos atados por cordas a postes. E pintaínhos pintados de várias cores, para vender. E ainda pedintes que escrevem longos textos a giz nos passeios. Poemas? Histórias? Preces? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 5&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos templos há dinheiro a fingir para queimar. Parecem notas de Monopólio e servem para fazer oferendas aos deuses. Será que eles se deixam enganar? Que deuses seriam eles se se deixassem enganar? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tapete do elevador do hotel muda todos os dias. Ontem tinha escrito: “Welcome, Saturday” e hoje “Welcome, Sunday”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 8&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Haiku escrito no comboio entre Datong e Pequim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Não é o sol&lt;br /&gt;Que dança,&lt;br /&gt;São as montanhas.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;9 de Maio&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Cidade Proibida, “crianças com menos de 120 centímetros não pagam”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Compras na Feira:&lt;br /&gt;   Um fantoche&lt;br /&gt;   Um desenho&lt;br /&gt;   Uma tartaruga-cinzeiro&lt;br /&gt;   Um copo para canetas&lt;br /&gt;   Um friso muito bonite esculprido em madeira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O desenho representa uma cena íntima. Duas mulheres numa sala. Uma delas toca pífaro. A outra escuta e segura um leque nas mãos. A seus pés dorme um gato branco, todo enrolado em si próprio. Como me apetecia entrar dentro daquele desenho, sentar-me ali com elas, ouvir a música e ficar em silêncio, à espera da hora do chá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 13&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Palácio de Verão, passaram por nós uns soldados (polícias?) de mão dada. Infelizmente, não consegui fotografá-los.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A China pareceu-me muito mais virada para o futuro do que para o passado. Os monumentos estão cheios de gente nova, é certo, mas dá-me ideia de que vão sobretudo à procura de fotografias e convívio com os amigos. A cultura é uma herança importante, mas não sei se os jovens chineses têm muito orgulho no seu passado. Como a história de outros países, a história da China é uma longa e sangrenta sucessão de guerras, de opressão e de injustiça. Não me parece que sejam muito comunistas a generalidade das pessoas que vi nas ruas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na famosa Muralha (que visitámos em dois locais diferentes), vi milhares de cadeados pendurados em correntes que têm quilómetros de comprimento. Suponho que é tradição para alguns chineses, quando lá vão, pendurarem um cadeado. Porque razão, não faço a mínima ideia. estive quase tentado a comprar também um cadeuado e deixá-lo ali, depois de atirar fora a chave. Em vez disso, comprei um boné vermelho que diz «The Great Wall». É que estava muito sol e foi o mais barato que arranjei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A muralha tem mais de oito mil quilómetros de comprimento. Liga o Mar Amarelo ao Deserto de Gobi. A construção iniciou-se no séc. III A.C., mas levou séculos a completar-se.&lt;br /&gt;Perto do troço Badaling (que visitámos) ficam as tumbas Ming onde estão sepultados 13 dos 16 imperadores daquela dinastia. O caminho que conduz aos monumentos é lindíssimo, ladeado de árvores e estátuas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra cena gira na Muralha. Uma guia turistica estava a tirar fotos a um grupo excursionista composto por algumas sessenta pessoas, todas chinesas. A seu lado, no chão, estavam sessenta máquinas fotográficas de todos os géneros e feitios. Fiquei ali uma bocado a vê-la tirar fotografias umas a seguir às outras, todas iguais, pois toda a gente quer ficar com uma recordação do grupo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem disse que era preciso compreender tudo o que se vê? Há um prazer infinito no mistério. Se fosse preciso perceber tudo o que vemos, morreríamos loucos, acho eu. Nenhum filósofo entendeu a vida, nenhum cientista alguma vez desvendará o sentido da vida. Nunca saberemos porque é que viemos ao mundo. De resto, não preciso de entender para amar. Gosto que o fascínio permaneça intacto. A China deixou de ser para mim um bicho de sete cabeças, mas ganhou um encanto que eu nem sequer imaginava. Já sonho em cá voltar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 16 de Maio&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Escrito no avião:&lt;/em&gt; Na verdade, o mundo pertence-nos a todos. Esta coisa dos países é um disparate. Eu nasci no Congo, vivi em França os anos mais importantes da minha formação... Serei português? O mundo é a minha casa. Ou a minha prisão como dizia Yourcenar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostaria de voltar, claro. Como gostaria de voltar à Índia, porque um mês não é nada para percorrer países tão grandes. Na China, como na Índia, adorei cada momento e não me arruinei, nem arruinei a minha saúde. Que mais se pode pedir?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há nada como viajar com a pessoa que se ama. Nem há melhor teste para uma relação do que uma viagem prolongada, em território desconhecido. Se o amor é verdadeiro, reforça-se a cada quilómetro percorrido. Caso contrário...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A viagem terminou. Começa agora outra etapa. É uma coisa boa que têm as viagens: os regressos permitem-nos recomeçar. Nunca regressamos iguais ao que eramos antes da partida. Já não sou o mesmo Jorge que partiu para a China no dia 25 de Abril. Em que Jorge me tornei? Os próximos meses o dirão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Já em Lisboa:&lt;/em&gt; O Dani recordou-me que faz hoje exactamente um ano que morreu o nosso pai.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1590904165947063584-5807330442837041745?l=parentisis.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default/5807330442837041745'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default/5807330442837041745'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://parentisis.blogspot.com/2009/02/caderno-chines.html' title='Caderno chinês'/><author><name>Jorge Lima Alves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10491056008163359117</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/ScSqWt2Ha1I/AAAAAAAABCo/Il6SwbfoQcM/S220/L1040628.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1590904165947063584.post-5202634611937996643</id><published>2009-02-07T04:28:00.000-08:00</published><updated>2010-09-16T11:24:45.057-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='México'/><title type='text'>Caderno mexicano</title><content type='html'>&lt;strong&gt;27 de Outubro de 2008&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oaxaca, Puebla, Querétaro, San Miguel de Allende, Guanajuato... só o enunciado dos nomes já faz sonhar. A minha viagem ao México começou há já muitos anos, quando comecei a ler Octavio Paz e a ouvir «rancheras». Chavela Vargas e, mais tarde, Lila Downs, reforçaram o meu desejo de um dia atravessar o Atlântico para ir ouvir ao vivo os mariachis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Terça, 28&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recebi ontem pelo correio o meu código de utilizador do BarclaysNet: kafka007. Kafka? 007? Eu não teria escolhido melhor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Madrid, onde chegámos por volta da meia-noite, não pudemos embarcar para o México como previsto. Como o voo estava «overbooked», deram-nos uma indemnização de 600 euros a cada um (mais do que o salário mínimo em Portugal!) e mandaram-nos dormir para um hotel de quatro estrelas com a promessa de que chegaremos ao nosso destino com 12 horas de atraso. A viagem não podia ter começado melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não pude deixar de reparar: o avião que não apanhámos para o México chamava-se Maria Zambrano. Kafka, James Bond e Maria Zambrano, tudo no mesmo dia. Há ironias que convém sublinhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa entrevista que li no avião, um escritor chamado Christian Salmon afirma a dado passo: «Toda a gente na mediasfera é escritor e leitor ao mesmo tempo». Explica ele: «É como se fossemos todos jogadores de póquer à volta de uma mesa e como se cada jogador em vez de cartas tivesse histórias para contar». Na sua opinião, «o jogo consiste em conseguir que a tua história seja dominante». Está a falar, essencialmente, dos políticos e dos meios de comunicação e dá como exemplos os actuais candidatos à presidência dos EUA: Obama e McCain. «Mccain lançou Sarah Palin, que é uma história e uma personagem – sexy, puritana, conservadora e empreendedora», escreve ele. Os jornais atiraram-se a ela porque precisam de histórias novas todos os dias, mas logo surgem outras histórias mais atraentes para os leitores. «Por isso», diz Salmon, «os políticos hoje são mais surfistas do que emissores de informação». «Obama é o surfista perfeito», assegura o escritor.&lt;br /&gt;Tudo se tornou simulacro, portanto. Não há maneira de distinguir entre a realidade e a ficção, entre a verdade e a mentira. Por isso, é importante fazer «contra-narração». Informar de verdade, desmascarar as ficções, procurar a verdade através da argumentação, da análise e da explicação. «É preciso reconstruir espaços contaminados, onde a realidade possa aparecer de novo e onde haja experiência real porque não se pode apreender a realidade, mas pode-se apreender a experiência do real», conclui Salmon.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O voo de Madrid para a cidade do México dura 12 horas! Acabo de o saber. Para passar o tempo, mergulho na (re)leitura das «Mensagens Revolucionárias» de Antonin Artaud que, como ele próprio afirma, foi ao México para fugir da civilização europeia. A sua inocência comove-me. «A ignorância, esclarecida e consciente, é o cimento da verdade», diz Artaud a dado passo. A sua ideia do México é completamente idílica. Idealizada. A certa altura, afirma com convicção: «O actual Tibete e o México são os nós da cultura do mundo». E eu, que México vou procurar? Nenhum na verdade, não vou com nenhuma ideia preconceida como o Artaud. Seria mais acertado perguntar: que México vou encontrar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quarta-feira&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No aeroporto em Lisboa comprei antes de embarcar um livro do David Lynch para ler no avião: «Em Busca do Grande Peixe». Sub-intitulado «Meditação, consciência e criatividade», o livro promete dar a conhecer a relação do cinesta com o mundo. Dá vontade de rir a afirmação. Na verdade, ao longo da obra, Lynch divaga sobre os benefícios daquilo a que chama «meditação transcendental», que ele acha ser uma ferramenta inigualável para desenvolver a criatividade.&lt;br /&gt;No fundo, é o livro de um religioso que acha ter encontrado uma solução para o mundo. Segundo ele, a meditação leva à felicidade e à paz e devia ser ensinada às crianças. Em lado nenhum, no entanto, explica como se chega à transcendência. Suponho que é necessário ser iniciado, pagar a alguém que nos indique o caminho. Se não fosse um negócio é que eu me admirava.&lt;br /&gt;Gosto da maioria dos filmes de David Lynch, cheios de mistérios e de personagens fortes que apelam à imaginação. Mas cada vez mais me parece haver uma parte de charlatanice naquilo que diz e faz (estou sobretudo a pensar no último filme dele, «Inland Empire»). Este livro só veio confirmar essa ideia, embora seja admirável a sua persistência em levar avante as suas ideias e a sua capacidade para envolver os outros numa criação tão pessoal.&lt;br /&gt;A certa altura do livro, Lynch escreve: «Adoro entrar noutro mundo e adoro mistérios. Gosto da sensação de descoberta». Em termos muito simples, ele explica involuntariamente porque gosto tanto de viajar, sobretudo para países completamente diferentes do meu.&lt;br /&gt;No México vou entrar noutro mundo, enfrentar muitos mistérios. Todos os dias haverá coisas novas para descobrir. Viajar , pelo menos para mim, é como entrar num filme realizado por um desconhecido onde se é ao mesmo tempo actor e espectador. É participar numa história sem ter a mínima ideia de como se vai desenrolar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Mais tarde&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Demasiado cansado para escrever, não quero esquecer os vendedores de CD no Metro (música aos berros com um altifalante às costas e o pregão: «10 pesos! 10 pesos!»).&lt;br /&gt;Demasiado carregado para poder fazê-lo, fiquei com pena de não poder fotografar (ou filmar) o cais do Metro literalmente a abarrotar de gente, com polícias de dez em dez metros em cima de uns pedestais a vigiar o pessoal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O nosso Hotel, bem decadente, chama-se Isabel e fica não muito longe do Zócalo. O quarto tem quatro camas de casal e é enorme, tipo camarata. Também a casa de banho não precisava de ser tão grande.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A nossa primeira refeição foi no Los Girasoles, um restaurante chique muito típico com empregados solícitos e eficientes. Caro, mas bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quinta, 30&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desayuno no Café El Popular. Tão cedo não vamos esquecer aquele café com leite delicioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1n8UKUdkI/AAAAAAAAAfk/-PO8sEi_P5A/s1600-h/DSC_3837.JPG"&gt;&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304510222014117442" src="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1n8UKUdkI/AAAAAAAAAfk/-PO8sEi_P5A/s320/DSC_3837.JPG" style="cursor: hand; display: block; height: 213px; margin: 0px auto 10px; text-align: center; width: 320px;" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Zócalo – que o Guide du Routard diz ser a segunda maior praça do mundo, a seguir à Praça Vermelha de Moscovo – está uma gigantesca exposição de altares aos mortos. Primeiras fotos sôfregas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A poluição cobre os prédios de fuligem, torna-os escuros e acentua-lhes a idade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No «La Jornada» (que tenho comprado todos os dias) leio: «Em 14 anos gastaram-se 200 mil milhões de dólares para combater a pobreza, que entretanto aumentou 38,8 por cento».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Mais tarde&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A viagem para Oaxaca dura seis horas. Pelo caminho, montanhas espectaculares. Algumas literalmente cobertas de cactos. «É preciso pensar como uma montanha», dizia um senhor chamado Aldo Leopold. Mas estas montanhas também me trazem à memória uma afirmação de Artaud segundo a qual (cito de memória), «o México é o único sítio do mundo onde a vida oculta está à superfície, na paisagem».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma fotografia que não consegui tirar: homens a vender cachorrinhos na estrada, à entrada de uma portagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Oaxaca o ambiente é de festa total. Música, bailes, foguetes. As ruas estão apinhadas de gente, há altares por todo o lado e os pregões dos vendedores mistura-se com a música que se ouve por todo o lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na catedral, um concerto belíssimo com orquestra e coro. Pareceu-me ser a «Missa Solene» de Beethoven.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No nosso hotel (Casa Arnel), só vejo americanos. Muitas mulheres sós. Quase toda a gente tem para cima de 50 anos.&lt;br /&gt;Os americanos são muito teatrais no modo como falam uns com os outros. Frases enfáticas, sorrisos demasiado rasgados, grandes gestos. Riem alto como quem diz: «Somos os senhores do mundo». E, com efeito, os mexicanos mostram-se muito subservientes com eles, sempre à espera de uma «propina».&lt;br /&gt;Connosco, que somos mais escuros e discretos, os mexicanos mostram-se mais genuinamente simpáticos.&lt;br /&gt;Simpáticos mas incompetentes. Ontem à noite não acertavam com a chave do nosso quarto. Tivemos que fazer o vai-vem várias vezes, entre a portaria e o quarto, antes que acertassem com a chave. O chaveiro é uma placa de madeira vermelha com o némro 5A escrito à mão com tinta amarela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 31 de Outubro&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há exactamente 15 anos (31 de Outubro de 1993) morreram no mesmo dia o actor River Phoenix e Fellini. Agora, Hollywood ameaça fazer um musical inspirado em «8 1/2». Segundo a revista onde leio tudo isto, o filme chamar-se-á «Nine» e será protagonizado por António Banderas. Teme-se o pior!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1oz0Y0x9I/AAAAAAAAAfs/FGfAP4WdW90/s1600-h/DSC_3915.JPG"&gt;&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304511175557695442" src="http://3.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1oz0Y0x9I/AAAAAAAAAfs/FGfAP4WdW90/s320/DSC_3915.JPG" style="cursor: hand; display: block; height: 213px; margin: 0px auto 10px; text-align: center; width: 320px;" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Monte Alban, que vistámos logo pela manhã, é um lugar mágico, embora mágico não seja a palavra certa (sei lá qual é a palavra certa!). Chega-se lá acima (cerca 2 mil metros de altitude) e cai-se numa espécie de encantamento. Não é preciso conhecer a história do local (diz-se que data de 500 antes de Cristo), nem o significado daquelas pedras. Basta olhar em volta, ver o vale e as montanhas em fundo. Êxatse garantido. Os sacedortes sempre souberam escolher os locais de culto.&lt;br /&gt;Vêm&amp;nbsp;à memória os versos de Juan Luis Panero, no seu poema &lt;strong&gt;Sombras ao anoitecer&lt;/strong&gt;:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;«Luz do tempo e pedra da morte, em Monte Albán,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;num surdo cenário de escadas vazias,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;túmulos e palácios, derrotados deuses,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;esquecidos crentes, ensopado sangue, pó de séculos.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Naquele cemitério de deuses e homens,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;onde o ritmo do sol, as voltas do planeta &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;repetem a sua incasável tarefa indiferente».&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A um mexicano daqueles muito típicos, a quem só faltava o sombrero (que pelos vistos caiu completamente em desuso), comprei no cimo de uma pirâmide, umas estatuetas em pedra. Três réplicas em miniatura de deuses antigos. O homem tinha um bigode à Zapata e um sorriso bonito. Arrancou-me 200 pesos e fizemo-nos rir um ao outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viajar é coleccionar histórias.&lt;br /&gt;Histórias, recordações, fotografias: é tudo a mesma coisa. Coleccionamos momentos que não conseguiremos guardar por muito tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ida e volta para Monte Alban custou 30 pesos. Dois euros. Barato. Aqui quase tudo é barato, de resto. A começar pela vida humana.&lt;br /&gt;A pobreza está por todo o lado, mas faz mais impressão nos velhos e nas crianças. Alguns andam na rua a vender quase nada: amendoins, rebuçados, colares... qualquer coisa serve para disfarçar a miséria. Só que não disfarça nada, é claro.&lt;br /&gt;A vida dura não lhes estragou os sorrisos. Quando riem, irradiam um encanto que nós europeus já perdemos há muito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de Monte Alban, comemos no mercado «comida corrida»: canja (com arroz, batata, pera abacate) e mole negro com feijão e arroz, acompanhados por sangria. Tudo por meia-dúzia de tostões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1pmyHjeCI/AAAAAAAAAf0/byHXsPl68fg/s1600-h/DSC_3882.JPG"&gt;&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304512051121715234" src="http://2.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1pmyHjeCI/AAAAAAAAAf0/byHXsPl68fg/s320/DSC_3882.JPG" style="cursor: hand; display: block; height: 320px; margin: 0px auto 10px; text-align: center; width: 213px;" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na rua, a morte está por todo o lado. A paródia da morte. Um verdadeiro carnaval e uma orgia de criatividade.&lt;br /&gt;Os mexicanos acreditam que nestes dias os seus mortos os vêm visitar e oferecem-lhes fruta, pão, flores. Em particular caveiras em açucar e o tradicional «pan de los muertos».&lt;br /&gt;Nas ruas, cruzo crianças recém-nascidas são transvestidas de esqueleto e diabinhos dos dois sexos, para além de ruivas bem macabras. Os travestis aproveitam para se expor à luz do dia. A festa reveste todas as formas possíveis, cada um a vive à sua maneira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rodeado de tantos fotógrafos, encolho-me. A minha máquina nunca foi tão pequenina. E inútil.&lt;br /&gt;Seria necessário filmar tudo, mas como isso não é possível, duas ou três fotos têm que bastar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 1 de Novembro de 2008&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na zona pobre da cidade, um cartaz prometia consultas médicas por 20 pesos (um euro e pouco). Consultas a um euro? Custa a acreditar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cotos em vez de pés e uma montanha às costas.&lt;br /&gt;Todo o dia carreguei com uma montanha às costas. Mesmo assim visitei o Convento de São Domingo com a sua igreja fabulosa e o seu museu interessantíssimo. Na livraria do Museu comprei dois livros: Roberto Bolaño e Juan Rulfo. Do primeiro, escritos para cinema («El Gallo de Oro». Do segundo, alguns contos (El Gaucho Insufrible».&lt;br /&gt;Comprei também um diabo disfarçado de freira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À noite, na Biblioteca central assistimos a uma Comparsa e tivemos que dançar com os actores. Valeu a pena esperar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 2&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Festa rija toda a noite, mesmo aqui ao lado. Impossível dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O patrono, ou melhor, a patrona de Oaxaca é «A Solidão», a última etapa de Maria, a virgem de luto, mãe de Cristo morto. O emblema da autarquia é a cabeça de uma princesa degolada: Donagí, símbolo da união entre mixtecos e zapotecos. E o hino dos oaxaquenhos é um canto fúnebre intitulado «Deus Nunca Morre».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Puebla, por seu turno, o lema parece ser: «A Morte É Um Sonho». A frase está inscrita por todo o lado neste último dia dedicado à morte e serviu de mote para uma bem interessante projecção de slides na fachada da catedral que vimos mesmo antes de ir para a cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito diferente de Oaxaca, Puebla não é só maior como, aparentemente, mais rica, até arquitectonicamente. Adoro os prédios revestidos a azulejo, jogando geometricamente no contraste com o tijolo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No autocarro para cá, um segurança entrou e filmou todos os passageiros antes da partida. A meio da auto-estrada fomos parados por uma patrulha de militares que nos faz sair da camioneta para revistar toda a nossa bagagem. Os militares estavam armados com grandes metrelhadoras. Foi bastante assustador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1qKBY0SjI/AAAAAAAAAf8/cBby_EnpNts/s1600-h/DSC_4156.JPG"&gt;&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304512656516074034" src="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1qKBY0SjI/AAAAAAAAAf8/cBby_EnpNts/s320/DSC_4156.JPG" style="cursor: hand; display: block; height: 320px; margin: 0px auto 10px; text-align: center; width: 213px;" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No México, há quem adore a «Santa Muerte», como se fosse uma entidade divina. No jornal que estou a ler, um professor de antropologia lembra a esse propósito que a tradição mexicana implica celebrar os mortos e não a morte. O mesmo professor afirma que a guerra dos «carteles» já provocou este ano mais de 3.800 mortes. E remata dizendo: «No México, rimos da morte mas na realidade é por medo».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O culto da morte existe no México há mais de três mil anos, lembram os que a adoram. Uns chamam-lhe «La Flaca», outros «La Comadre», «La Bonita», «La Señora» ou «La Niña». Mas também «Aurora», «Niña Branca» ou «Dama de Negro».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No autocarro vim a ler «El Gaucho Insufrible». Um livro curioso. A novela que dá o título ao livro é muito curiosa, mas mais para a frente há outra história ainda mais espantosa: «El Policía de Las ratas». O livro inclui ainda uma espécie de ensaio sobre literatura e doença onde a páginas tantas se diz: «Mas tudo chega. Chegam os filhos. Chegam os livros. Chega a doença. Chega o fim da viagem». Bolaño já estava doente e veio a falecer em 2003.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 3&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Impressionante o Museu Amparo, com uma colecção de peças históricas e antropológicas de valor incalculavel. Por ser segunda-feira a entrada era à borla, mas tivemos que pagar 50 pesos para poder fotografar.&lt;br /&gt;Para além do acervo do Museu, vimos uma exposição temporária de uma tal Betsabée Romero intitulada «Lágrimas Negras». Inspirada por carros, a exposição põe em evidência, com muito humor, «a tensão entre velocidade, movimento e trajectória, mas também entre tecnologia e auto-destruição».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passeando pelas ruas, lembrei-me do preceito de Sun Tzu: «Quando perto, finge-te longe; quando longe, finge-te perto».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa montra, o seguinte letreiro: «Se busca chica activa». Que delícia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 4&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos em Queretaro no dia das eleições nos EUA. Diz o meu guia que a cidade tem 3 mil edíficios históricos. Meus ricos pés!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um avião caiu em plena cidade do México matando os seus 9 ocupantes. Vinha de San Luís Potosi e trazia políticos a bordo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 5&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Obama ganhou. Na capa do «La Jornada» pode ler-se «El cambio há llegado a EU – Aplasta Obama». Outro título diz: «Se desploma la aeronave que le conducia de SLP al DF – Muere Mouriño». Na nave seguia o braço direito do presidente do México, além de outras pessoas, incluindo dois pilotos e uma hospedeira. Ainda não se sabe se foi acidente ou atentado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, encontrei o México que procurava, mesmo no coração do país (como reivindica a autarquia local). San Miguel de Allende não é apenas a cidade mais bonita que vimos até agora nesta viagem, é também uma das mais encantadoras que jamais conheci. No centro de tudo está uma catedral muito original e um Zócalo que é um verdadeiro jardim. Daqui partem, em todas as direcções, ruas que apetece percorrer de tão bonitas que são as casas com as suas cores fortes, contrastantes. Há quem se queixe da quantidade de estrangeiros que aqui vêm parar. Muitos já compraram casa aqui e vivem aqui ou voltam todos os anos. Graças a eles, a cidade prospera e está bem arranjada, cheia de boutiques coloridas e galerias de arte. Há mesmo vários hoteis com cinco estrelas, restaurantes finérrimos e bares que não ficam atrás dos de Londres ou Paris. Mas o México pobre não está longe e nas imediações da catedral há uma pequena multidão de velhotes a pedir esmola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao almoço, no El Tomato (talvez o melhor restaurante vegetariano em que comi na vida), um casal meteu conversa connsoco. São canadianos (de Halifax) e há 13 anos que vêm para San Miguel. Há três anos compraram uma casa, que ainda estão a recuperar e decorar, e estão a pensar vir viver para cá quando se reformarem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1rOnHPIiI/AAAAAAAAAgE/DwmS0gT6PGE/s1600-h/DSC_4832.JPG"&gt;&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304513834873987618" src="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1rOnHPIiI/AAAAAAAAAgE/DwmS0gT6PGE/s320/DSC_4832.JPG" style="cursor: hand; display: block; height: 213px; margin: 0px auto 10px; text-align: center; width: 320px;" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como dizia alguém: «em viagem prestamos ao mundo a atenção que ele merece».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota à margem: O que eu queria mesmo era que esta luz do México, estas cores e estes cheiros impregnassem este caderno, para os poder reviver de regresso a Lisboa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao jantar, menudo (tripas), guacamole e Sol, uma cerveja com uma garrafa muito bonita que dava vontade de trazer para casa. A Raquel comeu enchiladas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 6&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo e último dia em San Miguel de Allende, uma cidade pela qual nos apaixonámos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 7&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De San Miguel de Allende para Guanajuato na Flecha Amarilla, uma companhia de autocarros que ainda não tínhamos experimentado. Connosco viajou um jovem coreano. Chama-se Junghee Lee (apodrpooh@gmail.com) e é estudante de Química. Já cumpriu o serviço militar obrigatório (2 anos na Coreia do Sul) e vai percorrer uma boa parte do México. Não fala espanhol, quase não fala inglês, mas socorre-se de um tradutor electrónico de bolso. Dorme sempre na pensão mais barata que indica o Lonely Planet e raramente fica mais de um dia ou dois num sítio.&lt;br /&gt;Acabámos por o convidar para jantar e foi muito divertido tentar-lhe expolicar o que é o fado ou a importância de Fátima para os católicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Guanajuato, cujo centro histórico é património da Unesco, visitámos o Museu Diego Rivera e vimos, na Universidade, uma exposição muito interessante de Augusti Centelles, um fotógrafo que cobriu a Guerra Civil de Espanha. Já quase caído no esquecimento, o espanhol Augusti Centelles (1909-1985) foi um dos mais interessantes fotógrafos do seu tempo. As suas imagens da guerra civil de Espanha são comparáveis às de Robert Capa. Centelles foi um dos primeiros a utilizar a Leica nos anos 30 para realizar reportagens para os jornais de Barcelona, em particular para o «La Vanguardia». Logo que estalou o golpe de Estado de 18 de Julho de 1936, ele documentou os combates levados a cabo pelo povo contra o exército nas ruas de Barcelona. E foi assim que tirou a única fotografia conhecida de George Orwell no meio dos militantes do POUM (Partido operário de unificação marxista).&lt;br /&gt;Em 1939, depois de ter estado em quase todas as frentes de combate, Augusti Centelles foge para França levando com ele a sua preciosa Leica e milhares de negativos. Voltou a Espanha em 1944, mas só recuperou os seus negativos (que deixara em França) em 1976, depois da morte de Franco.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1r-5uGt5I/AAAAAAAAAgM/w9zP7WqET3c/s1600-h/DSC_5005.JPG"&gt;&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304514664502572946" src="http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1r-5uGt5I/AAAAAAAAAgM/w9zP7WqET3c/s320/DSC_5005.JPG" style="cursor: hand; display: block; height: 213px; margin: 0px auto 10px; text-align: center; width: 320px;" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cidade é muito fotogénica com as suas colinas repletas de casas coloridas. Parecem peças de lego ao longe. As ruas são frequentemente íngremes e labirínticas, mas não faltam com em todas as cidades mexicanas, igrejas bonitas, praças aparzíveis e atraentes lojas de artesanato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O nosso hotel (Casa de Pita) é mesmo por detrás do Teatro Principal. Não é bem um hotel, de resto, mas uma casa de hóspedes. O centro da casa é a sala de jantar onde os hóspedes se reúnem todas as manhãs, às nove em ponto, para tomar o pequeno-almoço em conjunto. O nosso quarto é muito castiço, com uma casa de banho minúscula e amplas janelas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Li no «Correo» (jornal local) que um polícia ganha em média 6 mil pesos por mês (cerca de 400 euros). No mesmo jornal conta-se a história do comandante Alejandro Parada Perez, assassinado ontem à porta de casa. O seu pai, também polícia, também foi assassinado quando ele tinha 13 anos. Segundo o jornal, o homem que o matou nunca foi detido ou sequer identificado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 8&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dona (Lu)Pita já esteve em Portugal. (Lisboa, Porto...) Diz que gostou muito. Na sala há fotos dela quando era nova, com grandes penteados. Numa das fotos está vestida de noiva. Era bem bonita.&lt;br /&gt;A irmã, que vive em Monterey, nos Estados Unidos, está viúva há quatro anos e ainda lhe vêm as lágrimas aos olhos quando fala nisso. Vem todos os anos passar férias a Guanajuato, mas amanhã volta para sua casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Joana faz hoje 28 anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei angustiado porque se aproxima a passos largos a data de regressar a Portugal. Detesto regressar. Por mim continuaria a viajar pelo mundo até morrer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por falar em morrer, visitei relutantemenmte o Museu das Múmias, um must da cidade. Depois subimos no funicular até Pipila para ter a cidade aos pés. Magníficas as cores. As casas salpicam de cor as colinas e dão à cidade um encanto único.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 9&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na camioneta para a cidade do México encontrámos outra vez o casal australiano que viaja com três filhos pequenos, sendo que o mais velho tem uns sete anos no máximo. Carregados com enormes mochilas e um bébé de colo forçam a admiração de qualquer um.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fomos parar ao Hotel Havana. Um achado. 200 pesos por noite (12 euros) por um quarto enorme, como cama king size, casa de banho priovativa e TV cabo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À saída do metro, estava no passeio uma mancha de sangue e umas luvas de paramédico abandonadas. Mais adiante, uma rua estava fechada pela polícia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Zócalo, às 6 da tarde, centenas de vendedores e famílias inteiras a passear. Na praça, oradores como em Hyde Park. Discursos políticos e religiosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em homenagem ao meu irmão Carlos, que faria hoje anos, assisti à missa na catedral. O «Guide du Routard», que tão útil se tem revelado, dizia que teria mariachis, mas eles não compareceram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jantar na espectacular Casa de los Azulejos, um edifício do século XVI do qual se conta que foi o primeiro local onde Pancho Villa foi com a sua tropa quando tomou a cidade. No primeiro andar há um fresco de Orozco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 10&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vivem aqui, na cidade do México, mais de 20 milhões de pessoas. Talvez mesmo já 30 milhões. Há quem chame à cidade «El Monstruo».&lt;br /&gt;Carlos Fuentes descreve o Distrito Federal dizendo que tem «o corpo de David com a cabeça de Golias».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um terço da população do país vive nas entranhas do monstro, alimentando-o e alimentando-se dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1sw2StEdI/AAAAAAAAAgU/iK3KLgqRHws/s1600-h/DSC_5591.JPG"&gt;&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304515522575798738" src="http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1sw2StEdI/AAAAAAAAAgU/iK3KLgqRHws/s320/DSC_5591.JPG" style="cursor: hand; display: block; height: 320px; margin: 0px auto 10px; text-align: center; width: 213px;" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cidade, a que chamam DF, apaixonou Maiakovski, Breton, Artaud. Quem aqui reside tem orgulho de viver na «maior cidade do mundo» e gosta de lembrar que a Avenida Insurgentes tem 40 quilómetros de extensão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Buñuel morreu aqui, no dia 29 de Julho de 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pés de chumbo. Pés em brasa. Andámos quilómetros a pé. Lembrei-me de Werner Herzog que dizia: «Tourism is sin, and travel on foot virtue».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há polícia em todo o lado, com as suas pistolas à cowboy. Chega a assustar a ostentação de tantas armas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando viajo, deixei de ter pressa. E de querer ver tudo. O que me interessa agora é sentir tudo muito bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Museo Nacional de Antropologia, Castelo de Chapultepec, Coyoacán, com visita à famosa casa azul de Frida Kahlo, claro.&lt;br /&gt;Coyoacán, no sul da cidade, é considerado o bairro dos coyotes. A casa de Frida Hahlo está cercada por paredes de um azul eléctrico, que escondem um belo jardim. Foi nesta casa que ela nasceu, sofreu e morreu. Trotski, Rockefeller, André Breton e Gisèle Freund passaram por aqui. Hoje é um verdadeiro «santuário», visitado por gente proveniente do mundo inteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A casa está cheia de tralha : brinquedos, estatuetas, desenhos, livros, roupas; os objectos estão por todo o lado e ajudam a evocar a atribulada vida que Frida levou. Quando saímos lembrei-me da última frase que ela escreveu no seu diário: «espero que a saída seja feliz e ninca mais cá voltar».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Terça, 11&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensar é uma forma de sentir, sentir é uma forma de pensar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A diferença entre olhar e ver? Olhamos com os olhos, vemos com o coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pirâmides de Teotihuacán ficarão para outra altura as minhas pernas já não aguentam mais. Uma dor ciática quase me impede de andar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 12&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Últimas compras. Mercado de artesanias, loja Fonart. Depois, passeio por Polanco, um dos bairros chiques onde descobrimos um restaurante português, que era o mais concorrido das redondezas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 13&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A depressão do regresso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No avião de regresso, Roberto Bolaño ajuda-me a suportar a viagem. Leio «Entre Parentisis» com a tristeza de o saber morto. A admiração que ele tem por Kafka é igual à minha. Partilhamos também o mesmo amor pelo poeta chileno Nicanor Parra. Temos, aliás, outras coisas em comum: ambos fomos exilados e ele jogava sempre com o número 11 na camisola (embora ele futebol e eu basket).&lt;br /&gt;Diz ele e é verdade, que a literatura é um exílio. Sem verdadeiras raízes, sem uma terra onde deseje regressar, estou em Portugal como estou no Expresso: apenas porque tenho que estar em algum lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre Swift, Bolaño escreve: «para ele “exílio” era o nome secreto de viagem». Mais adiante interroga-se: «Não seremos todos exilados? Não estaremos todos vagando por terras estranhas?». Ele tem razão: literatura e exílio são duas faces de uma mesma moeda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante uma viagem, os livros que se lêem constituem uma verdadeira «viagem paralela».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Toda a gente quer viver muitos anos, mas ninguém quer ser velho», afirmava Swift.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre a cidade do México, Bolaño diz que já se assemelhou ao paraíso, mas que hoje em dia mais parece o inferno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante a viagem, distribuí canetas e roupas velhas. E trouxe, como sempre, bastantes bonecos e máscaras. A mais bonita das máscaras representa o diabo com cornos (que muito intrigaram os aduaneiros no aeroporto) e uma língua de fora, comprida, retrocida que, infelizmente, se partiu dentro da mochila. Outras máscaras representam animais: uma ave, um porco, um lobo. Todas têm aquele aspecto naif e frágil de que eu tanto gosto, talvez porque eu próprio sou assim: naif e frágil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adorei todos os museus e exposições que vi no México. Vi manifestações de criatividade verdadeiramente fabulosas. Lembro-me de ter pensado: É a ideia da morte, da nossa própria morte, que nos torna tão maus e criativos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando se viaja de Oeste para Este o tempo passa mais depressa. A noite cai como uma cortina num palco. Almoçamos e já está escuro. É uma sensação estranha, já estou a antecipar o jet-lag.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;, Quinta, 14&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Regressar mata a viagem. Abre a porta ao esquecimento. Ao nada. Vem-me à memória uma frase do Gilles Lapouge que não esquecerei mais: «Não vou para um país para o conhecer mas para o ignorar um pouco melhor, não vou para o encontrar mas para o perder e me perder também».&lt;br /&gt;Já agora, citemos também Nicolas Bouvier: «Uma viagem não precisa de justificações. Depressa provará que se basta a si mesma. Julgamos fazer uma viagem, mas rapidamente é a viagem que nos faz, ou desfaz».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viajar é uma ode ao carácter imprevisível da existência e à beleza do desconhecido. Quanto mais viajamos menos nacionalistas somos. Na nossa busca do local perfeito, o sonho por vezes engole-nos. Para mais tarde nos cuspir ou nos vomitar. Sinto-me sempre um naufrago de cada vez que chego ao aeroporto da Portela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;15 de Novembro&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou danadinho para ficar desempregado. Para poder, por fim, começar a trabalhar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1590904165947063584-5202634611937996643?l=parentisis.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default/5202634611937996643'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1590904165947063584/posts/default/5202634611937996643'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://parentisis.blogspot.com/2009/02/fragmentos-de-uma-viagem-mexicana.html' title='Caderno mexicano'/><author><name>Jorge Lima Alves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10491056008163359117</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/ScSqWt2Ha1I/AAAAAAAABCo/Il6SwbfoQcM/S220/L1040628.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_6xY2cI3TbkQ/SZ1n8UKUdkI/AAAAAAAAAfk/-PO8sEi_P5A/s72-c/DSC_3837.JPG' height='72' width='72'/></entry></feed>
